O Brasil enfrenta sérios problemas com a falta de água, mesmo sendo um país com muitos rios. Enchentes, secas e desperdício mostram que é preciso usar tecnologia, como a dessalinização, para garantir água para todos, como já fazem Israel e Singapura.
O Brasil está em 2026 discutindo segurança hídrica do mesmo jeito que fazia há vinte anos: só depois que o problema aparece. As enchentes no Sul, as secas no Norte e a pressão sobre os reservatórios no Sudeste mostram que o país não enfrenta mais problemas isolados, mas sim uma instabilidade hídrica constante. Mesmo assim, a resposta do governo ainda é focada em medidas de emergência, obras pontuais e discursos sobre preservação, como se isso fosse suficiente para sustentar o crescimento das cidades, da indústria e da agricultura nas próximas décadas. O mais preocupante é que o Brasil continua tratando a dessalinização e o reúso de água como soluções secundárias, restritas ao semiárido, enquanto no mundo inteiro essas tecnologias já são o centro da estratégia econômica, industrial e de abastecimento.
Os números mais recentes ajudam a acabar com a ideia de que o país ainda pode depender apenas da água da natureza. Segundo o relatório Conjuntura dos Recursos Hídricos de 2025, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, a irrigação já consome mais da metade da água do país, enquanto o uso nas cidades e na indústria continua crescendo em regiões que sofrem com falta de água. O mesmo relatório mostra que milhões de brasileiros foram afetados ao mesmo tempo por secas severas e enchentes nos últimos anos. Isso mostra um problema histórico na política de água do Brasil: o país investiu em aumentar o consumo, mas não modernizou os sistemas de recuperação, armazenamento e reúso. O resultado é que os reservatórios ficam pressionados e a água fica mais cara para os setores produtivos.
- O Brasil perde 37% de toda a água tratada antes de chegar às torneiras, um dos maiores índices de desperdício do mundo.
- Israel reutiliza mais de 80% da água de esgoto tratada para agricultura e abastecimento, enquanto o Brasil ainda engatinha nessa área.
- A dessalinização é vista como cara, mas não se calcula o prejuízo das indústrias pararem por falta de água durante uma seca.
- O país importa a maioria dos equipamentos para tratamento avançado de água, perdendo a chance de gerar empregos e tecnologia nacional.
- Singapura, um país pequeno e sem rios, já garante água para todos usando reúso e dessalinização, enquanto o Brasil, com tanta água, sofre com a falta.
A comparação com outros países mostra o atraso brasileiro. Israel reutiliza mais de 80% da água de esgoto tratada, segundo dados oficiais, e transformou o reúso na base da sua agricultura e abastecimento. Singapura criou o programa NEWater para depender menos de água de outros países e garantir estabilidade hídrica em uma das economias mais urbanizadas do mundo. Na Espanha, a dessalinização cresceu depois das crises de água que atingiram o Mediterrâneo nos últimos anos. O que esses países têm em comum é que entenderam que segurança hídrica deixou de ser apenas uma questão ambiental e passou a ser econômica, industrial e estratégica. O Brasil ainda pensa de forma ultrapassada, achando que a dessalinização é cara demais, sem considerar o prejuízo financeiro das indústrias pararem, da agricultura perder produção e das cidades ficarem vulneráveis durante a seca.
A baixa eficiência do sistema brasileiro piora ainda mais essa situação. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento mostram que, em média, 37% da água tratada se perde na distribuição. Em algumas capitais, o desperdício passa da metade de toda a água produzida. Isso significa que o país continua tirando água da natureza, tratando essa água com alto custo de energia e dinheiro, e perdendo uma parte importante dela antes mesmo de chegar ao consumidor. Em vez de enfrentar esse problema com modernização da infraestrutura, reúso industrial e tecnologias avançadas de recuperação, o debate público muitas vezes se resume a construir novos reservatórios ou captar água de novos lugares. O resultado é um sistema mais caro, mais frágil e que funciona mal.
Existe também uma contradição pouco discutida nesse debate. O Brasil ainda depende muito de equipamentos importados para dessalinização e tratamento avançado de água, mesmo tendo empresas nacionais que estão aumentando sua capacidade técnica e criando soluções para recuperação de água e eficiência. Essa dependência encarece os projetos, dificulta a expansão dessas tecnologias e limita a capacidade do país de responder rápido aos desafios de abastecimento.
Além de precisar de mais investimentos em infraestrutura, o país deveria ver esse setor como uma chance de fortalecer sua própria indústria. O avanço da dessalinização, do reúso e das tecnologias para reduzir perdas pode estimular a produção local de equipamentos, gerar empregos qualificados e incentivar o desenvolvimento de conhecimento técnico em uma área que vai se tornar cada vez mais estratégica.
Enquanto outros países transformaram a segurança hídrica em prioridade de longo prazo, o Brasil ainda trata o tema de forma reativa. Reduzir a dependência de soluções importadas e criar condições para que empresas nacionais participem mais desse mercado não é só uma questão econômica. É também uma forma de aumentar a capacidade do país de planejar e executar sua própria estratégia de segurança hídrica em um cenário de pressão crescente sobre os recursos naturais.
O erro brasileiro não está apenas na lentidão dos investimentos. Está em continuar tratando a água como um recurso naturalmente garantido. Essa ideia talvez fizesse sentido décadas atrás, mas não resiste mais aos dados climáticos, à expansão industrial e ao crescimento desordenado das cidades. Dessalinização e reúso não substituem a preservação ambiental ou o saneamento básico, mas ignorá-los como pilares da política hídrica nacional aumenta os problemas que já custam caro ao país. O Brasil ainda tem uma vantagem hídrica importante no mundo. A questão é por quanto tempo vai continuar desperdiçando essa vantagem antes de perceber que abundância sem infraestrutura, tecnologia e capacidade industrial deixou de ser segurança.
O que fazer para garantir água no futuro
Para evitar crises ainda maiores, o Brasil precisa investir em tecnologias como a dessalinização e o reúso de água. Também é fundamental reduzir o desperdício na distribuição, modernizar a infraestrutura e incentivar a indústria nacional a produzir equipamentos para tratamento de água. Só assim o país poderá garantir água para as cidades, a indústria e a agricultura nas próximas décadas.

Lorena Zapata, especialista em sustentabilidade


