Saiba por que alguns compradores de carros zero quilômetro estão com seus veículos presos na garagem sem conseguir emplacar. O motivo é o atraso na emissão do ATPV eletrônico, um documento essencial para o registro. Veja o que fazer se isso acontecer com você.
Comprar um carro novo costuma vir acompanhado de expectativa, planejamento e uma dose de ansiedade para sair dirigindo. Mas, recentemente, muitos consumidores estão vivendo uma grande frustração: o atraso na emissão do ATPV eletrônico. Esse documento é necessário para emplacar o carro, principalmente nas compras feitas direto de fábrica ou por venda direta. Sem ele, o carro pode estar pago e entregue, mas não pode circular legalmente.
- O ATPV eletrônico é um documento obrigatório para o primeiro emplacamento em alguns tipos de venda.
- Consumidores relatam atrasos que chegam a semanas ou meses, mesmo com o carro quitado.
- Marcas como Caoa Chery, BYD Auto Brasil e Citroën são citadas em reclamações.
- Circular sem placa pode gerar multa, guincho e pontos na carteira.
- O Código de Defesa do Consumidor protege o comprador e responsabiliza a empresa vendedora.
O problema com diferentes marcas
As reclamações citam casos envolvendo Caoa Chery, BYD Auto Brasil e Citroën. Um consumidor do Rio de Janeiro comprou um Tiggo 7 Sport 2026/2027 e não conseguiu fazer o primeiro licenciamento no Detran RJ porque o documento não havia sido emitido. A concessionária disse que o atraso era por causa do lançamento de um novo modelo, mas isso não resolve o problema de quem já pagou pelo carro.
Em Recife, um comprador de um BYD Song Pro contou que o carro foi faturado em outubro de 2025 e entregue em novembro, mas sem o ATPV eletrônico. Ele perdeu o agendamento do emplacamento e tinha outro marcado antes de uma viagem. Em Batatais, interior de São Paulo, outro comprador do mesmo modelo recebeu o carro quase um mês depois da nota fiscal, também sem o documento.
Há ainda um relato contra a Citroën, em João Pessoa, envolvendo um Basalt Shine comprado por venda direta. O carro foi faturado em junho de 2025, chegou à concessionária dias depois e foi pago na mesma data. Mesmo assim, quase um mês depois, o ATPV eletrônico ainda não havia sido emitido. Quando o carro é entregue sem a documentação, o problema deixa de ser apenas burocrático e passa a atrapalhar o uso do bem.
O que diz a lei
A legislação permite que carros novos transitem antes do registro e do emplacamento, mas com regras específicas. A Resolução Contran 911 de 2022 autoriza essa circulação apenas em situações especiais, como levar o carro para o registro. Não é uma permissão para usar o carro no dia a dia por tempo indeterminado.
Na prática, quem fica sem o documento pode ficar num beco sem saída: recebeu o carro novo, quitado ou financiado, mas não consegue emplacar. Circular sem placa pode gerar multa, remoção do veículo e pontos na carteira, conforme o Código de Trânsito Brasileiro.
O que o consumidor pode fazer quando o carro novo não pode ser emplacado
O primeiro passo é guardar todas as provas: nota fiscal, contrato, comprovantes de pagamento, mensagens com o vendedor, protocolos de atendimento e prints de agendamento no Detran. Esses documentos ajudam a mostrar que o consumidor tentou resolver o problema e que o atraso não foi culpa dele.
Também é importante pedir um prazo por escrito. Não basta ouvir do vendedor que o documento será emitido "em breve". A solicitação formal de emissão do ATPV ajuda a comprovar a falha se o caso precisar ir para o Procon, consumidor.gov.br ou Justiça.
Outro cuidado é evitar circular fora das regras. A autorização para transitar sem placa é para situações específicas, como ir para o emplacamento. Usar o carro no dia a dia pode gerar multa e remoção.
Se houver prejuízo concreto, o consumidor deve registrar tudo: perda de viagem, gastos com garagem, transporte por aplicativo, aluguel de carro, cancelamento de compromissos. Essas provas ajudam em um pedido de indenização.
A concessionária não deve jogar a culpa para a montadora. Para o consumidor, o que importa é que o carro foi comprado e não pode ser usado. O Código de Defesa do Consumidor responsabiliza todos os envolvidos na venda pelo problema.
O caso também mostra uma falha de comunicação. Muitos compradores só descobrem a importância do ATPV quando tentam emplacar. Uma venda bem feita deveria explicar isso antes da entrega, com prazos claros.
O advogado Marco Túlio Elias Alves orienta que o consumidor busque primeiro uma solução documentada e rápida, mas sem aceitar demora sem explicação. Se o carro foi entregue sem condição de uso, a empresa deve emitir o documento, oferecer uma alternativa ou pagar os prejuízos. A demora pode ser considerada falha de serviço.
No fim, o problema do ATPV mostra que carro novo não é só motor e beleza. É também papelada e pós-venda. Quando a documentação trava, a promessa de liberdade vira paralisação. E, para quem gastou muito em um carro zero, pouca coisa é tão frustrante quanto olhar para ele na garagem e saber que não pode sair dali.

Carro novo na garagem, representando a frustração de não poder usá-lo


