Com o avanço da inteligência artificial, das notícias falsas e da falta de acordo sobre o que é verdade, a ficção ganha um novo papel: ajudar as pessoas a refletir sobre a realidade. Neste artigo, o escritor Pedro Ivo mostra como criar histórias fantásticas pode ser uma forma de observar, questionar e se reconectar com o mundo ao nosso redor.
Como escritor e artista autodidata, meu método de trabalho começa principalmente com a observação. Guardo na memória falas de outras pessoas, jeitos de agir, sons, fatos e pequenas histórias do dia a dia. Minha matéria-prima é a realidade, aquilo que realmente acontece. Toda a minha ficção fala sobre o real, mesmo quando uso elementos fantásticos.
- A inteligência artificial já consegue imitar a vida de um jeito muito realista, o que nos faz confundir o que é verdade e o que é criado.
- As notícias falsas espalhadas na internet atrapalham a nossa capacidade de entender o que realmente está acontecendo.
- Hoje, cada pessoa vive dentro de sua própria versão dos fatos, por causa dos algoritmos das redes sociais que mostram só o que a gente quer ver.
- Mesmo com tanta informação disponível, as pessoas refletem cada vez menos sobre o que consomem.
- A ficção pode ser uma ferramenta para nos ajudar a enxergar a realidade com outros olhos, em vez de servir apenas como fuga.
Mas o que acontece quando perdemos a capacidade de concordar sobre o que é real Quando já não conseguimos entrar em acordo nem sobre o que é a própria realidade
Entre o avanço das inteligências artificiais, que imitam a vida com uma precisão cada vez mais assustadora, e o tsunami de notícias falsas que sequestra a percepção pública, parece que estamos desistindo da capacidade coletiva de reconhecer o que é verdadeiro.
A realidade, que antes era um acordo básico entre as pessoas, se fragmentou em milhões de feeds personalizados que raramente conversam entre si. São pacotes de realidade feitos sob medida, moldados por algoritmos, interesses e emoções.
Nesse cenário, criar histórias fantásticas deixa de ser apenas um exercício de imaginação ou uma fuga baseada no "e se". A ficção passa a funcionar também como um espaço de investigação. Um convite para recuperar o espanto, a dúvida e a curiosidade diante do mundo.
Imaginar como forma de observar
Em tempos de excesso de informação e falta de reflexão, imaginar talvez seja uma das últimas formas de observar com profundidade.
A ficção como ferramenta social
Para mentes bombardeadas por versões conflitantes da verdade, a ficção precisa assumir um novo papel social. Se já não conseguimos concordar sobre o que acontece no noticiário, se a desconfiança atinge instituições, discursos e imagens, talvez sejam as histórias que nos ajudam a reconstruir alguma experiência de identificação coletiva.
Afinal, ainda conseguimos reconhecer a injustiça, a perda, o medo e a esperança quando eles aparecem diante de nós em forma de narrativa. Contar histórias, hoje, talvez seja menos sobre escapar da realidade e mais sobre reaprender a enxergá-la.
Num mundo em que cada pessoa parece confinada à sua própria versão dos fatos, a ficção ainda pode abrir janelas, criar pontes e provocar perguntas difíceis. A fantasia, quando nasce da observação honesta do mundo, não nos afasta do real. Pelo contrário: ela funciona como um espelho. E nos enxergar talvez seja exatamente o que precisamos nestes tempos.

Ilustração por Pedro Ivo






