08 de agosto de 2026

??ºC Tempo São Paulo - SP São Paulo - SP
??ºC Tempo Rio de Janeiro - RJ Rio de Janeiro - RJ
??ºC Tempo Salvador - BA Salvador - BA

Família celebra primeira medalha paralímpica do Brasil há 50 anos

Esportes Paralimpíada 08/08/2026 08:11 Lincoln Chaves - Repórter da EBC, Agência Brasil agenciabrasil.ebc.com.br

Prata conquistada por Robson Sampaio e Luiz Carlos na extinta modalidade lawn bowls, em 1976, completa 50 anos. Sobrinhos de Robson participaram de homenagem no CT Paralímpico, em São Paulo.

O Brasil encerrou a Paralimpíada de Paris (França), em 2024, entre as cinco potências do esporte adaptado pela primeira vez. O país já foi 462 vezes ao pódio no maior evento paradesportivo do planeta. A trajetória começou há 50 anos, quando Robson Sampaio de Almeida e Luiz Carlos da Costa conquistaram a primeira medalha brasileira na história: a prata no lawn bowls, uma modalidade já extinta, semelhante à bocha, embora a tradução literal do inglês signifique "boliche de gramado".

As medalhas estiveram expostas no Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo, nessa quinta-feira (6). Uma homenagem simbólica. Foi justamente em um dia 6 de agosto, em 1976, em Toronto (Canadá), que Robson e Luiz Carlos abriram a contagem de pódios do Brasil em Paralimpíadas.

  • O Brasil conquistou a primeira medalha paralímpica em 1976, com Robson Sampaio e Luiz Carlos na prata.
  • A modalidade lawn bowls é parecida com a bocha e não existe mais nos Jogos.
  • Robson fundou o Clube do Otimismo, no Rio de Janeiro, que ajudava pessoas com deficiência.
  • Luiz Carlos, o "Curtinho", foi um dos atendidos pelo clube e fez dupla com Robson no esporte.
  • O Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo, é um dos maiores legados do esporte adaptado no país.

"É o resgate de uma história que não era contada. Se hoje temos tudo isso [no esporte paralímpico], com televisão, entrevistas, esse momento de comemoração, é porque alguém lá no passado lutou para que isso acontecesse", destacou Noêmia Almeida, sobrinha de Robson, à reportagem da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

Uma história de superação

Criada como filha pelo medalhista paralímpico, Noêmia acompanhou de perto a trajetória do tio/pai, fundador do Clube do Otimismo, no Rio de Janeiro, em 1958. Falecido em 1987, Robson criou a instituição, que abrigava pessoas com deficiência sem recursos para reabilitação, com a indenização do acidente que sofreu três anos antes e o deixou paraplégico ele trabalhava em uma fábrica de papéis nos Estados Unidos e teve a coluna comprimida por um rolo.

"Naquela ocasião, não tinha recursos como hoje. O paradesporto não era uma política pública, então, tinha que sair batendo de porta em porta. Ele [Robson] batia na porta de deputados, de quem estava no poder, para ajudar a comprar uniforme, passagens, para representar o Brasil lá fora", afirmou Noêmia.

Uma dupla dinâmica

Luiz Carlos foi justamente um dos atendidos pelo Clube do Otimismo, onde estabeleceu uma grande amizade com Robson. "Curtinho", como é conhecido, tem 79 anos e está em tratamento de Alzheimer.

"Eles sempre formaram essa dupla dinâmica no esporte. Quando se formaram os primeiros times de basquete [em cadeira de rodas], meu tio foi o primeiro cestinha brasileiro, e o Luiz Carlos acompanhou. Foi um grande escudeiro do Clube do Otimismo. Ele [Luiz Carlos] também trabalhava com técnicas para recuperação das rodas das cadeiras. Nas disputas internacionais, dava sempre o apoio técnico para conserto", recordou Paulo Robson de Almeida, sobrinho de Robson, em entrevista à EBC.

Robson e Luiz Carlos foram aos Jogos de Toronto competir no basquete em cadeira de rodas e acabaram convidados para o lawn bowls na época, era possível participar de mais de uma modalidade. A dupla brasileira fez bonito no Etobicoke Lawn Bowling Club e assegurou o segundo lugar, atrás dos australianos Eric Magennis e Bruce Thwaite. Os britânicos David Avis e Michael McCreadie completaram o pódio.

"O Robson jogava o boliche tradicional, com a pista de madeira. E fazia vários strikes [quando todos os pinos são derrubados em uma única jogada]. Então, ele já tinha certa prática para segurar a bola. Mas o Luiz Carlos foi de primeira", contou Paulo Robson.

Evolução do paradesporto

A história brasileira no movimento paralímpico mudou significativamente desde a medalha histórica de 1976. O Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) foi criado em 1995. Três anos depois, a entidade foi incluída no Sistema Nacional do Desporto por meio da Lei 9.615, conhecida como Lei Pelé.

A medida possibilitou a entrada do CPB na Lei 10.264, chamada Lei Agnelo Piva, de 2001, que passou a distribuir 2% (atualmente 2,7%) dos recursos de loterias federais para financiamento do esporte. Desse percentual, 15% são direcionados ao paradesporto. Os demais 85% vão para o Comitê Olímpico do Brasil (COB).

Em 2016, surgiu o CT Paralímpico, uma das principais estruturas esportivas do país, considerada um legado dos Jogos do Rio de Janeiro. Além do impacto direto na evolução dos resultados do Brasil em Paralimpíadas, o centro de treinamento se tornou um polo de formação de atletas por meio da iniciação em modalidades adaptadas, de forma gratuita, a jovens de 7 a 17 anos com deficiências física, visual e intelectual.

"Ele [Robson] lutava para as empresas admitirem [pessoas com deficiência], que tivessem uma política de acreditar que aquela pessoa era capaz de trabalhar. A gente teve nele o exemplo desse espírito, e o esporte foi a consequência. O que estamos comemorando é a realização de um sonho. A luta dele é a de todos nós", concluiu Noêmia.