As seleções da Colômbia e da República Democrática do Congo se enfrentam hoje, pelo Grupo K, disputando uma vaga na segunda fase da Copa do Mundo. Além da rivalidade em campo, os dois países compartilham uma forte conexão musical: a champeta colombiana foi muito influenciada pelo soukous, um ritmo congolês.
Colômbia e República Democrática do Congo estão separados por cerca de 10 mil quilômetros, com o Brasil e o Oceano Atlântico no meio do caminho. Não há voos diretos entre os dois países. Mesmo assim, essa distância não impediu que eles compartilhassem uma grande semelhança cultural: a música.
O som dançante dos soukous (pronuncia-se 'sukus') congoleses, também conhecido como rumba zairense, chegou à Colômbia na década de 1960. A história conta que os discos desse gênero foram levados por marinheiros que desembarcavam nos portos de Cartagena e Barranquilla.
- O soukous é um ritmo congolês que influenciou diretamente a criação da champeta colombiana.
- Os discos de vinil de soukous chegaram à Colômbia na década de 1960, trazidos por marinheiros.
- Os colombianos não entendiam as letras, cantadas em francês e línguas nativas, e criaram suas próprias versões em espanhol.
- A champeta é uma mistura de música negra, cantos indígenas e influências europeias.
- A cantora Shakira levou a champeta ao mundo durante o show do Super Bowl em 2020.
O som dos soukous passou a ser tocado nos 'picós', que são enormes e coloridos sistemas de som da região, comandados por DJs chamados de 'picoteros'. A competição entre eles era grande. Os pesquisadores contam que os picoteros costumavam arrancar os rótulos dos discos de vinil para que ninguém descobrisse quem eram os artistas.
Mas havia outro problema: o idioma. Os colombianos não entendiam o que os artistas congoleses cantavam, já que as músicas eram em francês e em línguas nativas, como o lingala e o kikongo. Sem conseguir traduzir, eles começaram a compor suas próprias letras em espanhol. Foi assim que nasceu um gênero musical novo e 100% colombiano: a champeta.
A viagem de ida e volta da música
O músico Marcelo Lobato, ex-tecladista e baterista do Rappa, explica que essa influência foi uma 'viagem de ida e volta'. Isso porque a rumba congolesa, que deu origem ao soukous, já tinha recebido influência de ritmos afro-cubanos, como o son e a rumba.
Os colombianos, por sua vez, pegaram essa base e criaram uma versão própria. Misturaram música negra, cantos indígenas, flautas, acordeom e até influências europeias. O resultado foi a champeta, um ritmo único e cheio de personalidade.
O som que conquistou o mundo
Tanto no soukous quanto na champeta, a música é feita com guitarras, vozes sobrepostas, um baixo bem forte e muita percussão. As letras falam principalmente de amor e do dia a dia nos bairros populares.
Para quem quer conhecer a champeta, os nomes clássicos são El Sayayin, Mr. Black e Louis Towers. Já no soukous congolês, os grandes nomes são Franco Luambo, Papa Wemba, Nico Kasanda e M'bilia Bel.
Em 2020, a champeta ganhou fama mundial quando Shakira a levou para o palco do Super Bowl. A cantora dançou a música 'Icha', de Syran Mbenza, que no Brasil ficou conhecida como 'El Sebastián'. A apresentação virou um desafio de dança no TikTok, chamado #champetachallange, com mais de 125 mil publicações.
O jogo decisivo
Agora, deixando a música de lado, Colômbia e RD Congo se enfrentam hoje em Guadalajara, no México, lutando por uma vaga na segunda fase da Copa do Mundo. A Colômbia vem de uma vitória na estreia sobre o Uzbequistão, por 3 a 1. Já a RD Congo está motivada após um empate histórico com Portugal, por 1 a 1.
Esse empate deu à RD Congo o primeiro ponto em toda a sua história em Copas do Mundo. O país já tinha participado do Mundial em 1974, quando se chamava Zaire, mas perdeu todos os três jogos e não marcou nenhum gol.

Torcedores da RD Congo em meio à torcida portuguesa: o ritmo congolês soukous foi uma das principais influências da champeta colombiana. Foto: Lars Baron / Getty Images via AFP


