12 de junho de 2026

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Fifa proíbe camisa do Haiti com desenho da luta pela liberdade

Esportes Haiti 12/06/2026 09:47 Rafael Cardoso agenciabrasil.ebc.com.br

A seleção do Haiti teve que mudar o uniforme da Copa do Mundo porque a Fifa não deixou usar uma imagem que mostrava a luta do país contra a escravidão. A entidade disse que era um protesto político, o que é proibido pelas regras.

Quando estrear na Copa do Mundo de futebol no sábado (13), o Haiti não vai mais mostrar na camisa o desenho de um fato muito importante da sua história: a revolução que acabou com a escravidão e deu a independência ao país (1791-1804).

A seleção caribenha teve que mudar o uniforme depois que a Fifa (Federação Internacional de Futebol) proibiu. A entidade disse que a estampa era um protesto político, o que é proibido pelas regras.

  • A camisa do Haiti tinha um desenho da Batalha de Vertières, uma luta importante para a independência do país.
  • A Fifa proibiu a camisa dizendo que era algo político, o que é contra as regras do futebol.
  • Não é a primeira vez que o Haiti é censurado: o COI também proibiu um desenho de Toussaint Louverture nos Jogos de Inverno.
  • A batalha que virou estampa aconteceu no mesmo dia (18 de novembro) em que o Haiti se classificou para a Copa do Mundo.
  • A revolução do Haiti foi a primeira vez que negros escravizados se libertaram e criaram um país independente nas Américas.

O desenho mostrava um grupo de pessoas segurando uma bandeira vermelha e branca. Em entrevista a um jornal dos Estados Unidos, um representante do Haiti disse que a imagem era uma homenagem à Batalha de Vertières. Essa luta, em 1803, foi muito importante para derrotar os franceses que dominavam o país.

A estampa na camisa era um símbolo de orgulho para o povo haitiano. Também era uma coincidência interessante: a batalha aconteceu em 18 de novembro de 1803, e a seleção de futebol se classificou para a Copa do Mundo no dia 18 de novembro de 2025, vencendo a Nicarágua por 2 a 0.

O professor e historiador Gabriel Léccas, que estuda a memória da revolução haitiana, lembra que não é a primeira vez que uma entidade esportiva censura imagens históricas do Haiti. Em fevereiro de 2026, nos Jogos de Inverno na Itália, o Comitê Olímpico Internacional (COI) também proibiu um desenho de Toussaint Louverture, um dos líderes da revolução, no uniforme que o Haiti usaria na abertura do evento. O motivo foi o mesmo: era considerado um elemento político.

Segundo o historiador, isso mostra como a história da revolução do Haiti e seus heróis são silenciados. Ele explica que, no século XIX, as elites tinham medo de que outras revoltas de escravos acontecessem, por isso tentavam apagar essa história.

Léccas diz que esse silenciamento também é fruto do racismo, que não reconhece a importância de pessoas não brancas na luta por seus direitos.

O que foi a Revolução do Haiti

Colonização

Antes dos europeus chegarem, a ilha onde fica o Haiti era habitada pelos índios Taíno, que a chamavam de Haiti (que quer dizer 'terra montanhosa'). Em 1492, Cristóvão Colombo chegou ao local e deu o nome de Hispaniola. A população indígena, que era de centenas de milhares a um milhão de pessoas, foi quase toda morta em poucas décadas por causa de massacres, doenças e trabalho forçado nas minas dos espanhóis.

Para substituir a mão de obra, o rei da Espanha autorizou, em 1517, a vinda de africanos escravizados para a ilha. Os espanhóis ficaram com uma parte da ilha, e a outra parte foi dada para a França em 1697, passando a se chamar Saint-Domingue (São Domingos).

A economia dessa região francesa era baseada no plantio de cana-de-açúcar, café e anil, que eram vendidos para fora. Em 1789, a colônia francesa era responsável por dois terços do comércio exterior da França e era o maior mercado de escravos da Europa. A sociedade era dividida entre poucos brancos e negros libertos, e a maioria era de africanos e seus descendentes que eram escravizados.

A vida dos escravizados era controlada pelo Código Negro de 1685, que previa castigos físicos muito severos para evitar rebeliões. Mas isso não foi o suficiente para impedir o fim do sistema colonial.

A Revolução

A revolta foi organizada por líderes de origem africana, como Toussaint Louverture, Jean-Jacques Dessalines e Henri Christophe. Eles foram chamados de 'jacobinos negros' por causa da semelhança com os jacobinos da Revolução Francesa, que defendiam a igualdade social.

Em São Domingos, a luta armada começou na noite de 22 de agosto de 1791, quando centenas de fazendas e plantações foram destruídas e colonos brancos mortos. A ilha entrou em uma guerra que durou 12 anos.

Embora a França tenha abolido a escravidão em 1794, o governo de Napoleão Bonaparte enviou soldados em 1802 para tentar trazer a escravidão de volta. Isso fez com que todos os rebeldes se unissem em uma guerra pela independência total.

A Batalha de Vertières

A luta final contra os franceses aconteceu em novembro de 1803, perto do Cabo Francês (hoje Cabo Haitiano). As forças rebeldes, formadas por negros e lideradas por Jean-Jacques Dessalines, atacaram o exército comandado pelo general francês Donatien de Rochambeau.

Durante a batalha, um oficial haitiano chamado François Capois (conhecido como Capois-la-Mort) se destacou por liderar seus soldados mesmo sob fogo de canhões. A vitória de Dessalines forçou a rendição e a saída definitiva dos soldados franceses.

A Independência e seu impacto

Em 1º de janeiro de 1804, Dessalines proclamou a independência de São Domingos, que foi renomeada com o nome indígena de Haiti. Esse ato criou a primeira república negra do mundo e o primeiro país das Américas a acabar com a escravidão desde o seu começo.

A revolução haitiana influenciou movimentos de libertação e debates sobre direitos civis e raciais em outros lugares, inclusive no Brasil durante o período imperial.

Para o historiador Gabriel Léccas, um dos pontos mais importantes da Revolução foi que ela foi a primeira a juntar a luta contra a colonização com um plano político para acabar com a escravidão.

O professor explica que a revolução criou um império que não tinha escravidão, onde todos os cidadãos, de qualquer cor, eram chamados de 'negros', dando um novo significado político a essa palavra. Esse aspecto questionou a ideia de humanidade de outras revoluções, como a Francesa e a dos Estados Unidos, que no começo não reconheciam a cidadania de negros e mestiços.