O Fundo Monetário Internacional alerta que o mundo enfrenta maior instabilidade devido a conflitos geopolíticos, inflação alta e dívidas públicas. Um empresário brasileiro avalia o impacto no Brasil.
Os países ao redor do mundo têm conseguido resistir a uma série de crises sem parar, mas a capacidade de absorver novos problemas está diminuindo. Esse é o alerta feito em um documento final da 54ª reunião do Comitê Monetário e Financeiro Internacional, que encerraram as reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial em meados de outubro, em Bangcoc, na Tailândia.
As crises dos últimos anos têm sido muito difíceis. As tensões entre países têm desestabilizado a ordem mundial, conflitos afetam a energia dos países e as cadeias de suprimento foram prejudicadas pela pandemia e por guerras. José Maurício Caldeira, sócio e membro do Conselho de Administração da Colpar Brasil, holding que atua nos segmentos de agronegócio, indústria e urbanismo, explica que esses eventos afeta diretamente a economia. Para enfrentar as dificuldades e os riscos à atividade global, o documento do FMI pede aos países a adoção de políticas econômicas consistentes, a reconstrução das reservas fiscais, a preservação da estabilidade de preços e maior cooperação entre as nações.
- O FMI projeta crescimento mundial de 3,1% em 2026 e 3,4% em 2027.
- A inflação global deve subir para 4,7% neste ano e recuar para 4,1% no próximo.
- Países que investem em inteligência artificial têm perspectivas melhores do que importadores de energia.
- O Brasil terá crescimento do PIB reduzido para 2,2% em 2026.
- O Fundo prevê que o país volte a ser a oitava economia do mundo em 2027.
Crescimento e inflação em um mundo inseguro
A avaliação é reforçada pelo World Economic Outlook, relatório de perspectivas econômicas divulgado pelo FMI durante o encontro. A inflação, hoje, é um problema mundial, pontua José Maurício Caldeira.
Os números, porém, escondem diferenças entre as economias: países beneficiados pelo ciclo de investimentos em inteligência artificial (IA) e por condições comerciais favoráveis apresentam perspectivas melhores do que importadores de energia e economias de baixa renda. Uma escalada das tensões entre os países pode agravar a insegurança energética e alimentar, destaca o FMI, sobretudo nas localidades mais pobres e vulneráveis.
Dívida pública preocupa autoridades globais
O documento chama a atenção para os riscos associados ao endividamento público. O aumento dos rendimentos dos títulos soberanos nas principais economias, combinado à elevada dívida e às grandes necessidades de refinanciamento de diversos países, pode encarecer o crédito e ampliar as vulnerabilidades financeiras. O comitê defende que os governos avancem na consolidação fiscal e adotem marcos orçamentários de médio prazo confiáveis.
O ajuste deve preservar os investimentos prioritários para a produtividade e o crescimento, assim como a proteção dos grupos mais vulneráveis. A recomendação está alinhada ao relatório econômico do FMI, que considera mais eficiente o uso de transferências temporárias e direcionadas à população de menor renda do que medidas generalizadas de contenção de preços.
O desafio da inteligência artificial para os negócios
No campo da inovação, a inteligência artificial tem uma relação complexa com a economia. O avanço tecnológico tem impulsionado investimentos e o comércio, podendo até melhorar a produtividade. Porém seus benefícios tendem a se distribuir de maneira desigual. A revisão das expectativas de rentabilidade da IA pode provocar correções nos mercados financeiros. O desafio das empresas será transformar o avanço tecnológico em ganhos sustentáveis de produtividade e competitividade em um ambiente econômico cada vez mais complexo, observa José Maurício Caldeira.
Economia brasileira sob pressão
Para o Brasil, o cenário descrito pelo FMI reforça o desafio de conciliar a desaceleração da atividade econômica com o controle da inflação e a sustentabilidade das contas públicas. A projeção de crescimento do PIB brasileiro foi reduzida para 2,2% em 2026, ante uma estimativa anterior de 2,4%. Para 2027, a previsão também caiu, de 2,2% para 1,9%. O país voltaria a ser a oitava economia do mundo.
O Fundo prevê que a economia brasileira vai rodar num patamar inferior à mundial. Os juros muito altos têm penalizado a atividade econômica no Brasil. Tanto as famílias quanto as empresas estão muito endividadas, ressalta José Maurício Caldeira, lembrando que são frequentes as notícias de companhias em dificuldades, recorrendo à recuperação judicial ou extrajudicial.
A situação fiscal é outro ponto de atenção. A combinação de dívida pública elevada, custo crescente dos juros e despesas obrigatórias limita a margem do governo para ampliar investimentos e responder a novos choques. No relatório da consulta anual sobre o país, publicado em julho, a instituição já havia apontado a necessidade de conter a trajetória da dívida e elevar a produtividade, além de destacar que os custos de financiamento e as restrições estruturais dificultam o investimento privado.
Impacto internacional e mensagem final para o país
A conjuntura internacional também apresenta efeitos contraditórios para a economia brasileira. Como exportador líquido de petróleo e gás, o país pode se beneficiar de preços internacionais mais altos, com ganhos para as receitas externas e fiscais. Em contrapartida, a elevação dos custos de energia e fertilizantes pode pressionar a inflação e encarecer a production, especialmente no agronegócio. Além disso, a manutenção de juros elevados nas principais economias também pode tornar o financiamento externo mais caro e aumentar a volatilidade dos mercados.
A mensagem central do encontro é que a resiliência global demonstrada até agora não deve ser confundida com segurança O desafio dos governos para ter crescimento sustentável é conseguir preservar a estabilidade macroeconômica e coordenar respostas aos riscos que ultrapassam as fronteiras nacionais, resume José Maurício Caldeira.

José Maurício Caldeira analisa o alerta do FMI sobre a economia mundial



