28 de outubro de 2026

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M&A na saúde dispara 506% no Brasil; empresas compram para ganhar tempo

Economia Saúde 28/10/2026 14:03 Sergio Luconi, Zaxo M&A Partners

O valor das fusões e aquisições no setor de saúde saltou 506,9% no primeiro semestre de 2026, atingindo R$ 37,9 bilhões. Grandes grupos compram empresas consolidadas para acessar tecnologia, registros sanitários e capacidade produtiva rapidamente, evitando anos de construção orgânica.

O valor das operações de fusões e aquisições (M&A) nos setores de saúde, ciências da vida e bem-estar atingiu R$ 37,9 bilhões no primeiro semestre de 2026. Representa uma alta de 506,9% em comparação com o mesmo período de 2025, conforme dados da consultoria KPMG.

Esse crescimento é impulsionado pela busca de compradores por estruturas prontas. Eles querem acessar clientes, tecnologia e conhecimento regulário rapidamente, em vez de construir tudo do zero.

  • As operações de M&A na saúde cresceram 506,9% no 1º semestre de 2026.
  • O valor total das transações somou R$ 37,9 bilhões no período.
  • A compra da 4Bio pela Profarma custou R$ 600 milhões.
  • A 4Bio faturava R$ 3,4 bilhões e tinha crescimento de 15% ao ano.
  • O Brasil concentra metade das operações farmacêuticas da América Latina.

Exemplo de grande aquisição: Profarma e 4Bio

Um caso emblemático é a compra da 4Bio pela Profarma, anunciada em março de 2026 por R$ 600 milhões e concluída em maio. Com isso, a Profarma retoma o mercado de medicamentos especiais e de alta complexidade.

A aquisição permite à Profarma utilizar uma empresa que já possuía base de clientes, estrutura logística, conhecimento regulatório e posição de mercado consolidada. A 4Bio, que fazia parte do grupo RD Saúde (dono das redes Raia e Drogasil), havia faturado R$ 3,4 bilhões nos 12 meses encerrados em setembro de 2025.

A empresa apresentava crescimento médio anual de 15% desde 2023. Fundada em 2004, a 4Bio atendia hospitais, clínicas, operadoras, profissionais de saúde e pacientes, mantendo quatro centros de distribuição. Ao adquirir essa estrutura, a Profarma encurta um caminho que levaria anos para ser construído organicamente.

A nova lógica: comprar tempo e capacidade

A nova lógica no mercado de M&A em saúde é adquirir capacidades já consolidadas para acelerar o crescimento. Ativos como acesso a clientes, estrutura regulatória, canais de distribuição e conhecimento especializado são altamente valorizados.

Quanto mais difícil, caro ou demorado for construir essas capacidades internamente, maior é o interesse dos compradores. Na saúde, isso inclui fábricas certificadas, registros sanitários, medicamentos complexos, tecnologia, distribuição e relacionamento com o setor.

Dinheiro sozinho não consegue reproduzir rapidamente essas capacidades. Ao adquiri-las, as empresas compram uma variável crucial para a estratégia de expansão: o tempo. Isso permite entrar ou expandir em segmentos específicos com muito mais velocidade.

Política industrial e peso do Brasil no mercado

Há razões para que esse tipo de ativo continue no radar dos compradores. A política industrial brasileira estabeleceu a meta de elevar a produção local de bens e insumos estratégicos de saúde de 45% para 50% até 2026 e de 70% até 2033, segundo o BNDES. Para cumprir essa meta, é necessário incorporar capacidade instalada, tecnologia e conhecimento regulatório, muitas vezes via aquisições.

O Brasil já se destaca nas transações farmacêuticas. Um levantamento da Kearney indica que metade das 14 operações registradas na América Latina até meados de 2026 ocorreu no país. O valor médio das transações brasileiras chegou a cerca de US$ 100 milhões, superando a média regional de US$ 60 milhões. Isso demonstra o peso crescente do Brasil no M&A farmacêutico latino-americano.

Demografia e preparação para negócios

Esse movimento encontra sustentação na dinâmica do próprio setor. O envelhecimento da população aumenta a demanda, novas terapias tornam os tratamentos mais complexos e a regulação exige investimentos contínuos. O Brasil tem cerca de 25 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, e esse grupo deve chegar a 50 milhões em 2050, segundo o IBGE.

Mais gente consumindo saúde significa maior necessidade de investimento em capacidade, tecnologia e estrutura. Para muitas empresas, a fusão ou aquisição é a forma mais rápida de crescer. Ao mesmo tempo, muitas empresas familiares e independentes no Brasil chegam a uma fase em que precisam de capital para crescer, enfrentar a sucessão ou ganhar escala.

Um exemplo é a aquisição do parque fabril da Takeda em Jaguariúna pela Cristália. A planta, já equipada e certificada pela Anvisa, foi usada para ampliar a produção de medicamentos sólidos. A operação ilustra a assimetria do 'middle market': empresas maiores buscam novas capacidades, enquanto negócios bem construídos buscam capital ou parceiros para avançar.

A preparação ganha importância para empresários que consideram movimentos de M&A. Quem pretende vender, captar recursos ou se fundir não deve esperar a oportunidade surgir para começar a se organizar. Boa governança, informações financeiras confiáveis e processos estruturados ampliam as alternativas e reduzem incertezas durante a transação.