Pesquisa revela que empresas de bebidas são as mais analisadas por fundos de crédito estruturado (FIDCs) em relação ao tamanho do setor. O levantamento mostra que indústrias estabelecidas, sem problemas financeiros, buscam capital de giro para financiar estoques e produção, desmistificando a ideia de que só empresas em crise pedem financiamento.
A indústria de bebidas está na liderança do indicador de empresas analisadas por Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) quando comparada pelo tamanho de cada atividade econômica. De acordo com a primeira edição do Radar Assertiva de Demanda por Crédito Estruturado, o setor de bebidas registrou 816,8 empresas consultadas a cada 100 mil negócios existentes. Esse número supera o de máquinas e equipamentos (434,3 por 100 mil) e o de têxtil, vestuário e calçados (111,6 por 100 mil). O resultado destaca a forte presença da indústria nas análises de crédito estruturado, uma vez que financiar a produção, os estoques e as vendas a prazo é uma necessidade constante para essas empresas.
O levantamento foi realizado pela Assertiva, empresa de inteligência de dados para crédito, a partir de 4.045 consultas efetuadas por 36 FIDCs entre janeiro e setembro de 2026, envolvendo 3.543 CNPJs distintos. Diferentemente de estudos que focam no patrimônio dos fundos ou no volume de operações, o Radar identifica as características específicas das empresas que passaram pelos processos de análise de crédito dentro da base observada.
- A indústria de bebidas lidera com 816,8 empresas analisadas a cada 100 mil do setor, seguida por máquinas (434,3) e têxtil (111,6).
- O comércio varejista tem o maior número absoluto de CNPJs analisados, com 640 empresas, mas perde na comparação proporcional.
- 60,9% das empresas analisadas têm mais de 10 anos de existência e 68,9% não possuem restrições financeiras.
- A pesquisa mostra que empresas saudáveis buscam crédito para financiar estoques e produção, não apenas para cobrir dívidas.
- O estudo cobriu 4.045 consultas de 36 FIDCs em 2026, focando no perfil das empresas consultadas.
Comércio tem mais volume, mas indústria ganha na proporção
O destaque da indústria de bebidas fica claro quando se compara o número de empresas consultadas com o total de negócios existentes em cada segmento. Em números absolutos, o comércio varejista concentra a maior quantidade de CNPJs analisados, totalizando 640 empresas. No entanto, na comparação proporcional, atividades industriais ganham relevância. A metalurgia e siderurgia, por exemplo, registrou 97 empresas consultadas a cada 100 mil existentes no setor.
Quando olhamos apenas para o número total de empresas analisadas, atividades com uma base muito grande de CNPJs naturalmente aparecem em destaque. Mas, ao comparar esse volume com o tamanho de cada segmento, conseguimos identificar setores industriais com uma presença proporcionalmente relevante nas análises. É uma forma de enxergar o mercado de crédito estruturado por uma perspectiva diferente daquela oferecida pelos dados tradicionais de financiamento, afirma Hederson Albertini, CEO da Assertiva.
Necessidade de capital de giro na cadeia produtiva
A presença desses segmentos chama a atenção para uma característica típica da atividade industrial: a necessidade de financiar diferentes etapas da operação antes de receber integralmente pelas mercadorias vendidas. Na indústria de bebidas, por exemplo, a aquisição de insumos e embalagens, a produção, a formação de estoques e a distribuição podem exigir desembolsos muito antes do pagamento realizado pelos clientes.
Para Rafael Nakamoto, CEO da Vitório, empresa especializada em soluções de crédito B2B, essa diferença entre os prazos de pagamento e recebimento ajuda a explicar por que estruturas de financiamento baseadas em recebíveis podem fazer sentido para a indústria.
A indústria precisa financiar toda uma operação antes de transformar a produção em dinheiro disponível no caixa. Na cadeia de bebidas, por exemplo, existem custos com insumos, embalagens, produção, armazenagem e distribuição, enquanto parte dos recebimentos ocorre posteriormente. Quanto maior essa distância entre pagar e receber, maior a necessidade de capital de giro. O crédito estruturado permite desenvolver soluções que considerem essa dinâmica e os recebíveis gerados pelas próprias relações comerciais, explica Nakamoto.
Crédito estruturado e perfil das empresas
Os FIDCs são uma das estruturas utilizadas no mercado para financiar empresas por meio de direitos creditórios, incluindo recebíveis comerciais. Dependendo das características da operação, esses instrumentos podem permitir a antecipação de recursos vinculados a vendas realizadas a prazo. O Radar, entretanto, não identifica a finalidade de cada eventual operação nem permite afirmar que as consultas resultaram em concessão de crédito.
A presença da indústria vai além do segmento de bebidas. No levantamento, máquinas e equipamentos reuniram 145 empresas analisadas, enquanto metalurgia e siderurgia somaram 273. O grupo de têxtil, vestuário e calçados alcançou 536 CNPJs. Considerando a classificação mais ampla do estudo, indústria, construção e logística responderam conjuntamente por 51,1% das empresas observadas.
Empresas maduras e sem restrições buscam crédito
Outro resultado relevante está no perfil das companhias analisadas. Do total de CNPJs, 60,9% tinham mais de dez anos de existência e 68,9% não apresentavam sinais de restrição. Os dados mostram que a atividade de análise dos fundos participantes não ficou concentrada em empresas recém-criadas ou com registros de dificuldade financeira.
Na avaliação de Nakamoto, esse perfil reforça que a necessidade de financiamento não está necessariamente associada a problemas de solvência, mas também pode fazer parte da estratégia de crescimento e da gestão financeira de negócios estabelecidos. Crédito não é uma necessidade exclusiva de empresas endividadas ou em dificuldade. Uma indústria saudável também precisa financiar estoques, ampliar sua capacidade de produção e oferecer prazos comerciais competitivos aos distribuidores. Muitas vezes, o desafio não está na falta de vendas, mas no descasamento entre o pagamento aos fornecedores e o recebimento dos clientes. Estruturas desenhadas para essa realidade podem ajudar a sustentar o crescimento sem depender exclusivamente das linhas tradicionais de financiamento, afirma.
Para Albertini, a combinação entre maturidade empresarial, ausência de restrições e presença de setores produtivos contribui para ampliar a compreensão sobre o perfil das companhias que chegam às análises dos fundos.
Existe uma associação frequente entre a busca por alternativas de financiamento e empresas em dificuldade. Mas os dados mostram que negócios estabelecidos e sem sinais de restrição também aparecem de forma relevante nas consultas. Isso reforça a importância de avaliar o crédito a partir de informações sobre o comportamento financeiro, a atividade econômica e as características de cada empresa, e não apenas pela existência de pendências, afirma.
A Assertiva pretende acompanhar a evolução desses indicadores nas próximas edições do Radar. Com a formação de uma série histórica, será possível observar mudanças na distribuição das consultas entre setores, regiões e perfis empresariais, identificando atividades que ganham ou perdem presença na base analisada. Hoje conseguimos identificar onde estão as empresas consultadas e quais características elas apresentam. Com o acompanhamento ao longo do tempo, será possível entender melhor como essa composição se modifica e quais segmentos passam a ganhar relevância nas análises de crédito estruturado, conclui Albertini.

Crédito (IA)


