19 de outubro de 2026

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Sustentabilidade vira questão de sobrevivência e lucro nas empresas

Economia Resiliência 19/10/2026 10:44 Alaercio Nicoletti Junior / Mackenzie São Paulo SP

A Semana do Clima de Nova York 2026 revelou que a proteção ambiental deixou de ser apenas uma pauta social para se tornar um fator central na competitividade econômica, na segurança energética e na resiliência das cadeias produtivas diante das mudanças climáticas e da Inteligência Artificial.

A Climate Week NYC 2026 consolidou uma mudança relevante na agenda global: sustentabilidade deixou de ser predominantemente uma pauta ambiental e passou a ocupar o centro das discussões sobre competitividade, segurança energética, investimentos e resiliência econômica.

Com seus mais de 1.500 eventos em paralelo, a Semana do Clima foi uma oportunidade de compreender a importância da agenda da sustentabilidade para governos, empresas, investidores e academia, e sobretudo constatar a mudança do tom nas conversas, diante da urgência em transformar discurso em execução. Se nos últimos anos o debate esteve concentrado em compromissos, metas e declarações públicas, a discussão agora parece migrar para um novo estágio: execução, resiliência e competitividade.

  • Resiliência é a palavra-chave: Não se trata mais de promessas vazias, mas de capacidade de adaptação de empresas e governos diante dos riscos climáticos e tecnológicos.
  • Dados alarmantes de extremos climáticos: Os eventos climáticos extremos aumentaram de uma média de 9 (entre 1980 e 2024) para 23 nos últimos anos.
  • Prejuízos bilionários: O impacto acumulado na economia global já supera 2,92 trilhões de dólares desde a década de 1980.
  • IA: Solução e Problema: A Inteligência Artificial ajuda na eficiência, mas os data centers consomem uma quantidade enorme de energia elétrica.
  • Geopolítica impacta o verde: 68% dos profissionais relataram atrasos em estratégias de sustentabilidade devido às incertezas comerciais e geopolíticas.

Do discurso para a execução: a nova prioridade

A palavra mais recorrente nos fóruns foi resiliência, entendida como a capacidade de adaptação de empresas, governos e cadeias produtivas diante das mudanças climáticas, da transformação tecnológica e das incertezas geopolíticas. Não se trata mais apenas de assumir compromissos sem traduzi-los em ações concretas, visto o aumento progressivo dos eventos climáticos extremos, que passaram de uma média histórica de 9 eventos entre 1980 e 2024 para 23 nos últimos anos. Com o impacto estimado acumulado na economia de mais de 2,92 trilhões de dólares desde a década de 1980, a resiliência apareceu associada à energia, à infraestrutura, às cadeias de suprimentos, à economia, à tecnologia e até mesmo à governança corporativa.

O debate não gira mais apenas em torno da redução de emissões, mas da capacidade de economias, empresas e comunidades continuarem operando em um contexto de secas, enchentes, ondas de calor, restrições de recursos naturais e volatilidade das cadeias globais de suprimento.

Inteligência Artificial: a lâmina de dois gumes

Nesse contexto, a Inteligência Artificial aparece como solução e vilã ao mesmo tempo.

Por um lado, o avanço da IA possibilita novos horizontes numa corrida global por eficiência energética, otimização de processos, processamento de dados, previsão de riscos climáticos, gestão de recursos hídricos, aumento de produtividade e infraestrutura. Porém, seus centros de processamento, os data centers, constituem uma preocupação crescente de governos e operadores de sistemas elétricos, face à elevada demanda de energia necessária à sua operação. O desafio passa a ser garantir que os ganhos de produtividade proporcionados pela IA superem os custos energéticos e de infraestrutura associados à sua expansão.

Geopolítica e a busca por autonomia

Nesse sentido, Nova York trouxe uma visão pragmática de como utilizar a tecnologia para acelerar a execução da transição energética e ampliar a competitividade econômica.

Outro tema dominante foi a geopolítica, elevando energia, minerais críticos, semicondutores e cadeias produtivas à condição de temas de segurança nacional. Essa perspectiva dialoga com interpretações mais recentes da sustentabilidade que incorporam, além dos fatores ambientais e sociais, dimensões econômicas, de segurança e geopolíticas. A relevância do tema apareceu no estudo divulgado na semana pelo MIT, no qual 68% dos profissionais relataram atrasos em estratégias de sustentabilidade devido às incertezas geopolíticas e comerciais. Ficou evidente que os investimentos em recursos como energia, minerais críticos, semicondutores, cadeias produtivas e infraestrutura estão sendo impulsionados também pela busca de autonomia produtiva e redução de vulnerabilidades econômicas locais.

Desafios para o Brasil e o futuro do ESG

Essa realidade cria uma pressão adicional sobre os países emergentes como o Brasil, pois, enquanto grandes economias aceleram processos de reindustrialização associados à transição energética, exacerba-se o desafio de manter competitividade, atrair investimentos e desenvolver infraestrutura resiliente sem comprometer o crescimento econômico.

A percepção da semana mostra que a sustentabilidade está migrando definitivamente de uma agenda reputacional para uma agenda de negócio. Temas como energia, água, infraestrutura, produtividade, cadeia de suprimentos, gestão de riscos e retorno financeiro estão no centro das discussões e o ESG, que há tempo já vem sinalizando sua importância estratégica organizacional, deixa de ser um diferencial reputacional e passa a constituir um elemento da estratégia de negócios.

A Climate Week deixou a impressão de que estamos entrando em uma nova etapa da agenda climática global, sendo que temas como resiliência, Inteligência Artificial, energia, clima e geopolítica deixam de ser independentes e passam a compor uma única equação de competitividade.

Em um cenário marcado por instabilidade climática, aceleração tecnológica e tensões geopolíticas, a resiliência deixa de ser apenas uma capacidade de adaptação e passa a ser questão de estratégia e competitividade.