16 de outubro de 2026

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Fim da escala 6x1 não salva o varejo: falta cultura e liderança

Economia Varejo 15/10/2026 11:50 Paulo Brenha / Lilian Cardoso São Paulo SP

Aprovada a PEC que altera a escala 6x1, mas especialistas alertam que mudar apenas os horários não resolve os problemas de desmotivação e cultura organizacional do setor. É preciso transformar a forma de liderar.

O debate sobre a organização das jornadas de trabalho no varejo ganhou um novo capítulo com a aprovação da PEC que altera a escala 6x1. A medida reflete uma preocupação legítima com bem-estar, produtividade e sustentabilidade das relações de trabalho.

No entanto, especialistas alertam que mudar apenas os horários não é suficiente. O texto, escrito por Paulo Brenha, executivo e estrategista, aponta que sem mudanças na cultura organizacional, liderança e execução, a reforma se torna uma solução paliativa que não resolve a raiz dos problemas do setor.

  • A mudança na jornada não corrige a liderança tóxica focada apenas em números.
  • O desengajamento persiste se o colaborador não encontrar sentido no trabalho.
  • Cultura organizacional é o que se vive no dia a dia, não só o que está nas paredes.
  • A retenção de talentos depende de transparência e alinhamento de valores.
  • Resultado financeiro sustentável é consequência de tratar as pessoas com humanidade.

Além das horas: o problema é de sentido

Mesmo após a aprovação, é preciso ter clareza de que a mudança na jornada, por si só, não resolve os principais desafios de gestão de pessoas no varejo. Ela pode até criar uma falsa sensação de solução. O erro está em tratar o problema como uma equação de horas, quando, na verdade, ele é uma questão de sentido.

O varejo que prospera no longo prazo não é aquele que apenas ajusta escalas ou processos, mas o que entende que resultado sustentável nasce de propósito, cultura e liderança. Sem isso, essa mudança se tornará paliativa. Um dos maiores riscos do setor é manter pessoas operando como "meras engrenagens" de um sistema.

Liderança e cultura: o papel da gestão

Independentemente da escala adotada, o desengajamento persiste quando o colaborador não encontra significado no que faz. Um dia a mais de folga não compensa a sensação de invisibilidade, de falta de reconhecimento ou de ausência de pertencimento. As pessoas não se conectam com planilhas ou discursos genéricos; elas se conectam com causas, com ambientes onde sentem que importam. Sem esse vínculo emocional, o cansaço muda de forma, mas não desaparece.

É por isso que a liderança ocupa um papel central nesse debate. O varejo ainda carrega o estigma de ser um ambiente exaustivo e, muitas vezes, hostil. Porém, a raiz desse problema não está apenas na carga horária, mas na forma como se lidera. A mudança no modelo de jornada não corrige uma liderança tóxica, baseada exclusivamente em cobrança e números frios.

Transformação profunda é necessária

O novo varejo exige líderes capazes de inspirar, escutar e desenvolver pessoas. Líderes que atuem como embaixadores do propósito da empresa, transformando metas em desafios compartilhados e não em ameaças constantes. Essa discussão nos leva, inevitavelmente, à cultura organizacional. Cultura não é o que está escrito na parede, nem o que aparece em campanhas internas. É o que se vive todos os dias.

Uma empresa pode se adaptar às novas regras da jornada de trabalho e ainda assim continuar perdendo talentos se mantiver uma comunicação truncada, decisões incoerentes e uma estrutura que não respeita as pessoas. A retenção acontece quando há transparência, diversidade, ética e alinhamento entre os valores do colaborador e os da organização.

O varejo é, acima de tudo, sobre pessoas: quem compra e quem faz a experiência acontecer. Ignorar isso é tratar o setor apenas como uma máquina transacional, e não como um ecossistema vivo. A mudança na escala de trabalho será insuficiente se vier desacompanhada de uma transformação mais profunda. O varejo precisa de alma. Precisa entender que resultado financeiro não é inimigo da humanidade; ao contrário, ele é consequência dela.

No fim, não é apenas sobre trabalhar menos ou mais. É sobre trabalhar com sentido. É isso que sustenta negócios, preserva pessoas e constrói um varejo verdadeiramente relevante.

Paulo Brenha é executivo, Top Voice no LinkedIn e autor de Varejo com propósito e resultado.