08 de outubro de 2026

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Reciclagem de linha branca cresce no Brasil: quem confere os números?

Economia Reciclagem 08/10/2026 16:04 Press à Porter

O Brasil criou um sistema nacional para monitorar a reciclagem de eletrodomésticos, mas ainda não está claro quem garante a veracidade dos números. Entenda o que é o Sisrev-BR, por que a reciclagem de linha branca exige cuidados e o que o setor de vidro ensina sobre fraudes.

O Brasil acaba de criar um sistema nacional para monitorar a reciclagem de aparelhos como geladeiras, fogões e máquinas de lavar. A plataforma, chamada Sisrev-BR, foi oficializada pelo Ministério do Meio Ambiente e promete centralizar os dados de logística reversa. Mas a pergunta que fica é: quem confere se os números divulgados pelas empresas são reais

Segundo o Global E-waste Monitor 2024, da ONU, o Brasil gera cerca de 2,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano, o segundo maior volume das Américas. O relatório também projeta 82 milhões de toneladas de lixo eletrônico no mundo até 2030, com a taxa de reciclagem caindo de 22,3% para 20%.

  • O Brasil é o segundo maior gerador de lixo eletrônico nas Américas.
  • A linha branca inclui geladeiras, freezers, fogões, máquinas de lavar e micro-ondas.
  • A reciclagem desses aparelhos exige cuidados especiais com gases que destroem a camada de ozônio.
  • O setor de vidro já passou por suspeitas de fraude nas notas fiscais.
  • Um verificador independente é uma empresa homologada pelo MMA que confere os resultados.

Uma parte desse lixo é a linha branca geladeiras, freezers, fogões, máquinas de lavar e micro-ondas. Esses produtos têm materiais como aço, cobre e alumínio, que podem voltar à indústria sem extrair nada da natureza, o que é chamado de mineração urbana.

A cadeia de reciclagem já está estruturada. A ABREE (Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos) afirma ter coletado e tratado 230.576 toneladas entre 2021 e 2025. A entidade reúne 58 empresas e 207 marcas, com mais de 3,4 mil pontos de recebimento em 1,3 mil municípios. Refrigeradores, congeladores e fogões são os itens mais coletados. A Green Eletron, outra entidade gestora, também cumpriu a meta legal de 2024.

As metas de reciclagem aumentam a cada ano. O Decreto 10.240/2020 exigiu a coleta de 12% da massa colocada no mercado em 2024 e 17% em 2025, com pontos de entrega em todos os municípios com mais de 80 mil habitantes.

Por que a reciclagem da linha branca exige cuidados especiais

Reciclar esses aparelhos não é apenas triturar metal. O fluido refrigerante precisa ser retirado do compressor antes. O equipamento passa por trituração e os gases da espuma isolante são separados. Alguns aparelhos contêm gases que destroem a camada de ozônio e precisam de tratamento adequado. Por isso, comprovar que um aparelho foi reciclado é diferente de comprovar que foi reciclado da forma correta.

O alerta que vem de outra cadeia: o setor de vidro

O setor de embalagens de vidro mostrou o que pode acontecer quando as metas apertam e a fiscalização é fraca. Em setembro de 2024, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul e o Gaeco deflagraram a Operação Crédito de Papel. A investigação apura se uma recicladora de vidro emitiu, em um único dia, 11 notas fiscais que somavam mais de 400 toneladas, o equivalente a cerca de dez carretas, sem que a carga tivesse saído. As notas teriam servido apenas para cumprir a obrigação legal de logística reversa.

Em julho de 2026, a Abividro, associação da indústria do vidro, protocolou no Ministério Público Federal uma denúncia sobre possíveis fraudes na geração de créditos de reciclagem. As empresas citadas negam irregularidades ou não se manifestaram. Um promotor de Mato Grosso do Sul avaliou que as suspeitas só apareceram porque hoje existe alguma forma de controle onde antes não havia. Com as metas subindo, o mesmo incentivo existe em qualquer cadeia, inclusive na linha branca.

O papel dos verificadores independentes

A legislação já prevê a figura do verificador de resultados (Decreto 11.413/2023). É uma pessoa jurídica homologada e fiscalizada pelo MMA, que confere as notas fiscais eletrônicas que lastreiam os resultados declarados e não pode ter conflito de interesse com quem verifica. A matéria pode explicar: o que um verificador de fato confere e como identifica inconsistências; por que a independência importa quando quem declara os resultados é quem precisa cumprir a meta; o que muda com o Sisrev-BR integrando os dados dos verificadores; se tecnologia, rastreamento digital e inteligência artificial bastam para dar confiança aos números, ou se ainda é preciso alguém de fora checando; e o que o caso do vidro ensina para cadeias em expansão, como a de linha branca.