Artigo alerta que a segurança virou um custo invisível para o Brasil. O domínio territorial pelo crime organizado expulsa o capital produtivo e inviabiliza a economia local. A solução proposta vai além da polícia, exigindo retomar o controle econômico e institucional das cidades.
O debate sobre segurança nas eleições estaduais e presidenciais costuma ficar superficial. De um lado, fala-se apenas em aumentar o número de policiais. De outro, discorrem-se políticas sociais genéricas. No entanto, governadores e a futura liderança nacional enfrentam uma crise profunda que a polícia sozinha não resolve: o controle ostensivo de territórios por facções criminosas e milícias. Esse domínio enfraquece o mercado formal e faz as empresas fugirem.
A segurança deixou de ser apenas um problema policial para se tornar a principal variável do ambiente de negócios. Onde o Estado perde o controle, o crime cria uma economia paralela. Facções cobram "taxas de proteção" de pequenos empresários e monopolizam serviços básicos como gás, internet, transporte e combustíveis. Isso encarece a vida nas periferias e impede o funcionamento de empresas formais. O resultado é a saída silenciosa de indústrias e investimentos para regiões ou países com menos risco de extorsão.
- O crime organizado cobra "pedágios" que aumentam o custo de vida e a produção.
- Empresas estão migrando para estados ou países com menor risco de vandalismo.
- Polícia sozinha não resolve a perda de soberania territorial do Estado.
- É necessário integrar a polícia com a Receita e agências reguladoras.
- O Estado precisa retomar o controle e oferecer serviços básicos de imediato.
Soberania Territorial e Econômica
Diante desse cenário, os planos de governo não podem focar apenas em operações policiais pontuais de "entrada e saída". A retomada do controle exige uma abordagem estruturada de soberania territorial e econômica, como proposto no Plano Estratégico de Reocupação Territorial, estruturado pela Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro. A partir da análise deste especialista em gestão de riscos, as iniciativas devem seguir três frentes de ação imediata.
Frentes de Ação Imediata
A primeira frente é a criação de Gabinetes de Proteção Econômica Integrada. Isso unirá a inteligência das polícias às Receitas Estaduais e agências reguladoras. Para sufocar o crime, é preciso cortar o fluxo financeiro gerado pelo monopólio de serviços. Garantir que concessionárias legítimas e o comércio formal operem sem pagar o "pedágio" mafioso é essencial. Esse "pedágio" é nefasto para a economia e a reputação de um Estado ou País.
A segunda frente é a atualização da cooperação federativa no âmbito do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP). Como o crime se espalha pelas divisas estaduais, é obrigatório compartilhar dados analíticos. O objetivo é proteger os corredores logísticos e distritos industriais que conectam a produção nacional. Sem a proteção das rotas de escoamento, a indústria local perde competitividade global.
A terceira e última frente é substituir a lógica reativa por metas de reocupação institucional permanente. As zonas dominadas pelo crime precisam receber, no dia seguinte às operações policiais, incentivos de regularização fundiária e fiscalização comercial mais simples. É fundamental a presença contínua do poder público regulador, coordenada com as frentes sociais, de empreendedorismo e educação.
Conclusão
Quem tratar o domínio territorial apenas como um índice de criminalidade promete soluções ultrapassadas para uma crise do século XXI. Sem a garantia do controle territorial pelo Estado, aliada à atuação direta no apoio às atividades econômicas básicas, não haverá plano de desenvolvimento, atração de investimentos ou crescimento econômico sustentável em qualquer estado brasileiro.

Flávio Galhardo, especialista em gestão de riscos




