05 de outubro de 2026

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Juros podem cair para 11% no Brasil após eleições, dizem investidores

Economia Juros 05/10/2026 09:30 Assessoria de Imprensa

Analistas financeiros avaliam que a composição do novo Congresso e a credibilidade fiscal são mais importantes que a taxa básica de juros para destravar investimentos e reduzir custos em 2027.

Vitor, juros abaixo dos 12% previstos para 2027. Abs! Após o fim do primeiro turno, o mercado projeta a taxa Selic em 6,25%, abaixo do relatório Focus que indicava 11,25% até o final de 2027.

Continuamos com uma economia que esfria sem comprar desinflação, afirmou André Matos, CEO da MA7 Capital.

  • O mercado espera que a Selic termine 2027 perto de 11% a 11,5%, abaixo da média anterior de 12%.
  • Para venture capital, o custo do capital e a estabilidade fiscal são maiores fatores que a taxa básica isolada.
  • O Congresso novo terá papel crucial: maioria insuficiente impede ajustes fáceis, exigindo diálogo.
  • Redução do prêmio de risco pode beneficiar o câmbio e a inflação, facilitando cortes de juros.
  • O capital de giro das empresas é impactado pelos juros altos; melhorias na gestão de caixa são essenciais.

Impacto do Custo de Capital no Venture Capital

Eu olharia menos para a Selic de 2027 isoladamente e mais para o custo do capital de crescimento. O Focus apontava PIB de apenas 1,41% e Selic de 12%, combinação que mantém o investidor muito bem remunerado em ativos de baixo risco. Para venture capital, esse é o verdadeiro concorrente. Se o pós-eleição reduzir a percepção de risco e permitir que a Selic termine 2027 perto de 11% a 11,5%, começa a mudar a relação entre risco e retorno para quem investe em empresas de crescimento. O efeito pode aparecer antes na avaliação das empresas do que na economia real. Imagine uma startup projetando gerar R$ 20 milhões de caixa daqui a cinco anos. Se a taxa usada pelo investidor para descontar esse valor cair de 20% para 18%, o valor presente desse mesmo fluxo sobe de aproximadamente R$ 8 milhões para R$ 8,7 milhões, quase 9%. Não significa que valuations subirão automaticamente 9%, mas mostra por que custo de capital é decisivo para venture capital. O Congresso entra nessa conta porque estabilidade fiscal melhora a visibilidade de longo prazo. Para startups, entretanto, eu acrescentaria outro indicador: exits e novas rodadas. Se 2027 combinar juros menores, mercado de capitais mais funcional e reabertura de M&A, o ciclo pode melhorar antes mesmo de o PIB ganhar muita velocidade. Capital de risco volta quando o investidor consegue enxergar uma saída futura com mais clareza, não simplesmente quando o Copom corta 25 pontos-base, afirmou Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest.

Cenário Fiscal e Projeção da Selic

O Focus de hoje já nasce parcialmente defasado em relação ao novo risco político. Eu manteria viés de queda para a Selic e, neste momento, trabalharia com algo próximo de 11,5% no fim de 2027, abaixo dos 12% do consenso, mas condicionado às sinalizações fiscais após o segundo turno. A nova composição do Congresso pode favorecer uma agenda de controle de gastos, mas não garante ajuste, porque nenhuma força tem maioria suficiente para impor sozinha mudanças relevantes. Se o próximo governo apresentar rapidamente uma trajetória crível para dívida e despesas, o prêmio fiscal tende a cair, abrindo espaço para dólar mais comportado, inflação menor e cortes adicionais de juros. Sem isso, o efeito eleitoral se dissipa e a Selic pode permanecer elevada por mais tempo. Para destravar investimento em 2027, o ponto central será reduzir a incerteza fiscal e regulatória e, principalmente, fazer os juros reais longos cederem, porque é isso que efetivamente reduz o custo de capital e melhora a decisão de investimento das empresas, disse Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.

Esse Focus traz dois movimentos que andam juntos e explicam bem o momento. O primeiro é que o crescimento continua sendo cortado, com o PIB deste ano caindo pela quarta semana seguida e o de 2027 recuando para 1,40%, também na quarta queda consecutiva, e agora até o de 2028 começou a ceder. O segundo é que a inflação voltou a subir, com o IPCA deste ano em 5,01%, e o dado que mais chama atenção é o IGP-M, que saltou de 4,34% para 5,27% em quatro semanas. Isso é pressão de atacado se formando, e atacado costuma virar prateleira alguns meses depois. Ou seja, continuamos com uma economia que esfria sem comprar desinflação. Sobre o que o mercado vai observar daqui para frente, eu seria direto, porque mercado não precifica resultado de urna, precifica execução. O que move preço não é quem vence, é a composição da equipe econômica, o desenho do Orçamento e a trajetória de despesa obrigatória, e essas definições vêm depois. Enquanto elas não vierem, a parte longa da curva de juros segue cobrando prêmio, e é ela, não a Selic de amanhã, que determina se o investimento produtivo volta ou não. Para 2027 o que destrava atividade é previsibilidade fiscal, porque é isso que derruba o carrego e devolve ao Banco Central espaço real para cortar, explicou André Matos, CEO da MA7 Capital.

Previsibilidade e Mercado de Capitais

O Focus mostra uma economia em que o custo do dinheiro continuará elevado em 2027, mas o ambiente fiscal e institucional também será determinante para o volume de operações que chegam ao mercado. Existe capital esperando maior clareza sobre o cenário econômico. O ponto não é apenas se a Selic ficará em 12% ou 11,5%, mas se empresas e investidores voltarão a enxergar previsibilidade suficiente para estruturar operações de 3, 5 ou 10 anos. Nesse cenário, uma eventual redução da Selic ao longo de 2027 pode contribuir para melhorar as condições de financiamento, mas o olhar deve estar também sobre a curva longa e sobre a evolução das emissões de fundos estruturados. Em operações de prazo mais longo, mudanças na taxa de desconto podem produzir efeitos relevantes sobre o valor presente dos fluxos e, consequentemente, sobre a atratividade econômica das estruturas. FIDCs, FIIs, FIPs e operações de M&A dependem não apenas do nível dos juros, mas também de previsibilidade jurídica, fiscal e econômica. Portanto, o teste de 2027 não será apenas quantos pontos a Selic poderá cair, mas se o Brasil conseguirá ampliar o horizonte de planejamento de empresas e investidores, pontuou Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos.

O último Boletim Focus, elaborado antes do primeiro turno das eleições, mostra um cenário ainda desafiador para 2027: crescimento projetado de apenas 1,4%, inflação de 4,3% e Selic de 12% ao final do ano. Esses números mostram que, mesmo com a expectativa de continuidade da redução dos juros, o mercado ainda enxerga uma combinação de inflação acima da meta, crescimento baixo e condições financeiras restritivas. Eu não mudaria de forma significativa uma projeção para a Selic apenas com o resultado do primeiro turno. A eleição presidencial ainda será decidida no segundo turno e, para o Banco Central, continuarão sendo determinantes a trajetória da inflação, as expectativas, o câmbio, a atividade e principalmente a percepção sobre a política fiscal a partir de 2027. O que pode reagir mais rapidamente ao resultado eleitoral é a curva de juros de longo prazo. Se as próximas sinalizações apontarem para maior previsibilidade fiscal e uma trajetória mais sustentável da dívida, o mercado pode começar a reduzir o prêmio de risco antes mesmo de qualquer mudança efetiva na Selic. O movimento contrário também é possível: se aumentarem as dúvidas sobre gastos e endividamento, os juros longos podem permanecer elevados mesmo com o Banco Central reduzindo a taxa básica. A nova composição do Congresso terá papel importante nesse processo. O resultado das urnas alterou a correlação de forças na Câmara e no Senado, mas isso não significa automaticamente maior facilidade para o ajuste fiscal. Vai depender da capacidade do próximo governo de construir maioria para aprovar medidas que controlem a expansão das despesas e produzam uma trajetória crível para a dívida pública. Uma coisa é apresentar uma agenda fiscal; outra é conseguir transformá-la em medidas aprovadas pelo Congresso. Esse processo também pode chegar ao câmbio. Uma redução consistente do prêmio de risco tende a favorecer o real e contribuir para a desinflação, criando melhores condições para a continuidade dos cortes da Selic. Por outro lado, aumento da incerteza fiscal pode pressionar o câmbio, contaminar as expectativas de inflação e exigir maior cautela do Banco Central. Para destravar os investimentos em 2027, considero a queda dos juros de longo prazo tão importante quanto a própria redução da Selic. Empresas tomam decisões de expansão olhando o custo de capital para vários anos. Se houver maior previsibilidade fiscal, inflação convergindo para a meta e redução do prêmio de risco, a queda da curva longa pode melhorar a viabilidade de novos projetos, estimular crédito e contribuir para uma recuperação mais consistente da atividade. Portanto, o primeiro turno muda a composição política e pode alterar a percepção de risco, mas ainda é cedo para transformar esse resultado em uma nova projeção fechada para a Selic. O que determinará o cenário econômico de 2027 será principalmente a combinação entre o resultado do segundo turno, as primeiras sinalizações de política econômica, a relação do próximo governo com o Congresso e, sobretudo, a credibilidade da trajetória fiscal, analisou Gustavo Assis, CEO da Asset.

Gestão de Caixa e Capital de Giro

O Focus mostra crescimento de apenas 1,41% em 2027, mas existe uma variável menos visível que ajuda a explicar por que a atividade demora a reagir: o capital de giro. Empresas financiam estoques, clientes e fornecedores todos os dias. Quando o custo do dinheiro permanece alto, esse capital parado dentro da operação fica muito mais caro. Minha estimativa seria de Selic entre 11,25% e 11,75% no fim de 2027, caso o cenário fiscal melhore depois das eleições. Mas existe um ganho que pode acontecer sem esperar o Copom. Uma empresa com R$ 100 milhões de faturamento anual e prazo médio de recebimento de 60 dias pode carregar aproximadamente R$ 16,4 milhões em contas a receber, numa conta simplificada. Se conseguir reduzir esse prazo em dez dias por meio de uma estrutura financeira própria, libera aproximadamente R$ 2,7 milhões de capital. Isso pode ser mais relevante para o caixa do que uma pequena redução inicial da Selic. O Congresso pode colaborar reduzindo incerteza fiscal e regulatória, mas as empresas também terão de fazer a própria parte. Em 2027, acredito que veremos mais companhias transformando pagamentos, crédito, fornecedores e recebíveis em parte da estratégia financeira. A retomada não dependerá apenas de dinheiro mais barato; dependerá também de usar melhor o dinheiro que já circula dentro da empresa, declarou Letícia Moschioni, sócia da Finscale.

Existe um risco de olhar para o Focus e concluir que uma Selic menor resolverá o problema do crédito. Não necessariamente. Para quem toma dinheiro, a taxa final é formada pela taxa básica mais spread, risco, garantia, prazo e estrutura da operação. Mesmo que a Selic saia da projeção de 12% para algo como 11,5% em 2027, uma empresa com risco maior pode continuar pagando taxas muito superiores. A eleição pode ajudar se reduzir dois componentes simultaneamente: o custo básico do dinheiro e o prêmio de risco. É aí que o Congresso ganha importância. Se houver melhora fiscal, o Tesouro tende a pressionar menos a curva longa e o mercado privado pode precificar operações com menor prêmio. Para uma operação de R$ 10 milhões, uma queda de 2 pontos percentuais na taxa final significa até R$ 200 mil por ano de diferença financeira sobre o saldo integralmente utilizado. Em R$ 50 milhões, são R$ 1 milhão. Eu vejo 2027, portanto, menos como um ano de crédito simplesmente mais barato e mais como um ano de maior diferenciação entre bons e maus riscos. Empresas com garantias, geração de caixa e estrutura financeira organizada poderão capturar primeiro a redução dos juros. Em construção, agronegócio e home equity, o investimento pode reagir antes da Selic chegar ao patamar final, desde que o custo total da operação já tenha recuado o suficiente para devolver viabilidade ao projeto, afirmou Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco.

Fatores Internacionais e Câmbio

Eu seria mais cauteloso em reduzir a Selic projetada depois da eleição porque o Brasil não define sozinho o seu custo de capital. Se os juros americanos permanecerem altos, o Banco Central brasileiro terá menos liberdade para cortar agressivamente sem alterar o diferencial de juros e pressionar o câmbio. Por isso, mesmo com uma melhora política doméstica, eu trabalharia hoje com Selic entre 11,75% e 12% no final de 2027. O dólar será o termômetro mais rápido dessa interação. O Focus projetava R$ 5,28 para 2027. Se houver melhora fiscal no Brasil e estabilidade dos juros americanos, vejo espaço para uma faixa próxima de R$ 5,00 a R$ 5,15. Mas, se os Treasuries voltarem a subir, parte da valorização do real pode desaparecer mesmo com notícias positivas em Brasília. Esse é o ponto que diferencia risco político de risco global. Para o investidor brasileiro, isso cria uma situação interessante. Se a Selic cair enquanto os juros internacionais permanecem estruturalmente mais altos do que eram antes da pandemia, a diversificação global passa a ter outra função. Não é apenas buscar valorização cambial. É combinar ciclos econômicos diferentes. Em 2027, a decisão de alocação provavelmente dependerá tanto do que fizer o Congresso brasileiro quanto do que fizer o Federal Reserve, concluiu Fábio Murad, consultor da Wiser Asset.