28 de setembro de 2026

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Europa retira ouro dos EUA e reacende debate sobre dependência do dólar

Economia Ouro 28/09/2026 16:01 Assessoria Daniel Toledo

Bancos centrais europeus, como os da Holanda e da França, estão reorganizando suas reservas de ouro, reduzindo a dependência dos Estados Unidos. Especialistas apontam que a mudança visa aumentar a segurança e a soberania financeira diante de tensões geopolíticas, sem, no entanto, substituir totalmente o dólar no curto prazo.

Diante do aumento das tensões globais, bancos centrais europeus estão mudando a localização de suas reservas de ouro nos Estados Unidos. Essa alteração representa uma mudança histórica em termos de segurança e soberania financeira. O advogado internacional Daniel Toledo explica que essa decisão financeira esconde um forte impacto geopolítico.

Muitos países europeus estão repensando não apenas a quantidade de ouro que guardam, mas principalmente onde esse dinheiro é mantido. Essa discussão vai além da simples logística de transporte de barras. Envolve a segurança dos ativos em situações de crise, a capacidade de acesso rápido ao dinheiro e a redução da dependência do sistema financeiro americano.

  • A Holanda moveu cerca de 86 toneladas de ouro para fora dos EUA e do Canadá.
  • A França vendeu ouro em Nova York e comprou equivalentes na Europa.
  • Londres agora concentra parte significativa das reservas holandesas.
  • 89% dos bancos centrais esperam aumento das reservas globais de ouro.
  • O dólar ainda lidera as reservas, mas a busca por diversificação cresce.

Reorganização estratégica da Holanda

No início de setembro, o banco central da Holanda anunciou uma reorganização de aproximadamente 86 toneladas de ouro que estavam nos Estados Unidos e no Canadá. A operação ocorreu entre março e agosto de 2026. O objetivo, segundo a instituição, foi melhorar a liquidez das reservas e aumentar a capacidade de resposta em momentos de crise, devido à incerteza geopolítica global.

Na prática, isso não significou apenas levar o metal através do oceano. Cerca de 59 toneladas foram vendidas em Nova York e substituídas por ouro negociado em Londres. Mais de 27 toneladas foram transportadas fisicamente para a Holanda, e um volume similar seguiu para Londres. Com isso, Londres passou a guardar 32,1% das reservas holandesas, ante 18,1% antes. Nova York e Ottawa ficaram com 18,5% cada. O banco holandês possui ao todo 612 toneladas de ouro.

França ajusta padrões e local de armazenamento

A França também agiu. Em 2025, o Banco da França vendeu 129 toneladas de ouro em Nova York, o que representa cerca de 5% de suas reservas. Em seguida, comprou a mesma quantidade na Europa. Oficialmente, a instituição explicou que as barras americanas não atendiam ao novo padrão internacional que desejava adotar. A venda e recompra foi considerada mais eficiente do que transportar e reformar o metal. O volume total de reservas francesas permaneceu em aproximadamente 2.437 toneladas.

Ouro ganha valor estratégico

Esses movimentos acontecem num momento em que o ouro está mais valorizado como ativo estratégico. Uma pesquisa de 2026 do World Gold Council mostra que os bancos centrais compraram, em média, 1.000 toneladas de ouro por ano nos últimos quatro anos. É o dobro da média da década anterior. Entre os gestores, 89% esperam que as reservas globais de ouro aumentem nos próximos 12 meses, e 45% planejam aumentar suas próprias posições.

A localização dos ativos também virou ponto de atenção. Os bancos centrais agora avaliam não só a quantidade, mas a jurisdição onde o ouro está. Daniel Toledo afirma: Em um ambiente internacional mais fragmentado, os governos avaliam quão rapidamente conseguiriam acessar o patrimônio diante de uma crise política ou financeira.

Fuga do dólar ou diversificação

Apesar das mudanças, os números mostram que o dólar continua sendo a moeda principal. Dados do Fundo Monetário Internacional indicam que, no primeiro trimestre de 2026, o dólar representava 57,13% das reservas cambiais globais. O euro era 20,03% e o renminbi chinês, 1,99%. O Federal Reserve lembra que parte do aumento do valor das reservas de ouro se deve à valorização do metal, não apenas à compra de novas quantidades.

A Alemanha, por exemplo, não retirou todo o ouro dos EUA. Já repatriou parte, mantendo metade em Frankfurt, mas ainda tem 1.236 toneladas no Federal Reserve de Nova York e 404 toneladas em Londres. Para Toledo, o cenário é de diversificação de risco, não de abandono imediato do sistema americano. Não estamos falando do desaparecimento do dólar. O que vemos é uma busca gradual por reduzir vulnerabilidades e distribuir ativos entre diferentes moedas e jurisdições, explica.

Setenta e quatro por cento dos bancos centrais entrevistados esperam que a participação do dólar caia nos próximos cinco anos, enquanto 83% acreditam que a participação do ouro subirá. Toledo conclui: O ouro sempre foi segurança. O que mudou é o contexto. A geopolítica agora faz parte das decisões financeiras e pode influenciar a arquitetura das reservas internacionais.