23 de setembro de 2026

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Empresas vendem muito, mas falham por falta de dinheiro em caixa

Economia Inadimplência 23/09/2026 11:16 José Renan Vallim / Assessoria de Imprensa UNIASSELVI

Mesmo com a queda da Selic, o Brasil tem recorde de 9,2 milhões de empresas inadimplentes. Especialistas alertam que lucro no papel não garante a supervivência do negócio, pois o crescimento exige mais capital de giro do que muitas empresas conseguem gerenciar.

Com o número de empresas endividadas batendo recorde no Brasil, muitos donos de negócio enfrentam uma situação estranha: aumentam as vendas e mostram lucro nos relatórios, mas não têm dinheiro suficiente para pagar as contas do dia a dia.

Para ajudar os gestores a entender e evitar essa armadilha financeira, mesmo com a redução da taxa Selic, o professor Fernando Eduardo Cardoso, doutor em Administração e coordenador do curso de Administração da UNIASSELVI, compartilhou dicas importantes. A seguir, veja os principais pontos do alerta sobre a saúde financeira das empresas brasileiras.

Quais são os principais pontos do alerta financeiro



  • Lucro não é dinheiro: uma empresa pode dar lucro no papel, mas quebrar por falta de caixa para pagar contas.

  • Recorde de dívidas: 9,2 milhões de CNPJs estão negativados, totalizando R$ 238,6 bilhões em dívidas.

  • Crescimento exige caixa: vender mais aumenta a necessidade de capital de giro para custear vendas a prazo.

  • Sinais de alerta: margens de lucro caindo e falta de dinheiro para despesas rotineiras indicam crise próxima.

  • Gestão de fluxo: decidir com base apenas no saldo bancário é perigoso; é preciso analisar o fluxo de caixa futuro.

O Banco Central reduziu a taxa Selic, que passou de 14% para 13,75% ao ano na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) realizada em 16 de setembro. Apesar dessa flexibilização na política monetária, o custo do crédito segue alto e representa um grande desafio. As empresas brasileiras atingiram a maior marca de inadiplência de sua história. Diante disso, o professor Fernando Eduardo Cardoso alerta: ter lucro e crescer não significa que o CNPJ está financeiramente saudável.

Essa foi a quinta redução seguida dos juros, com uma queda acumulada de 1,25 ponto percentual desde março. Porém, os números de inadimplência continuam preocupantes. Segundo a Serasa Experian, 9,2 milhões de empresas estavam com o nome sujo em julho, o maior número já registrado, totalizando R$ 238,6 bilhões em dívidas. Esse valor representa um aumento em relação aos 9,1 milhões de empresas negativadas em junho.

Esses dados mostram um paradoxo enfrentado por muitos donos de empresa no Brasil. É possível vender mais, mostrar no balancete que a empresa teve lucro e, ao mesmo tempo, não ter dinheiro para pagar fornecedores, funcionários, impostos e outras contas. Isso acontece porque lucro é apenas um número contábil, diferente do dinheiro real que está disponível no caixa para pagamento imediato.

A situação parece contraditória, mas o próprio crescimento pode gerar essa pressão. Segundo Fernando Eduardo Cardoso, professor da UNIASSELVI e especialista em gestão financeira: O crescimento pode esconder um paradoxo. Quanto mais a empresa vende, maior pode ser sua necessidade de capital de giro. Crescer sem planejamento financeiro aumenta a pressão sobre o caixa.

Vender mais geralmente exige ter mais estoque, contratar mais pessoas e investir na operação. A empresa precisa ter recursos para manter essas despesas até receber o dinheiro das vendas. Se a empresa vende a prazo (30, 60 ou 90 dias), ela continua pagando salários, fornecedoras, tributos e aluguel durante esse tempo. Nesse período, o capital de giro é a peça fundamental para a operação não parar.

O perigo de olhar apenas para o lucro e o saldo bancário

Por causa disso, vender muito e ter lucro não garantem que a empresa está bem financeiramente. Fatores como descontos dados aos clientes, clientes que não pagam e problemas no transporte das mercadorias podem fazer as vendas subirem, enquanto o lucro real e o dinheiro entrando diminuem. Como destaca Cardoso: Lucro garante desempenho no papel. Caixa garante a sobrevivência da empresa.

O mesmo cuidado é necessário ao olhar o saldo na conta bancária. Ter dinheiro na conta hoje não mostra as contas que vencerão amanhã, os valores que ainda devem entrar, o nível de endividamento ou a necessidade de rodar o negócio. O professor explica: O saldo bancário mostra uma fotografia do momento. A gestão financeira precisa assistir ao filme inteiro. Decidir apenas pelo dinheiro disponível na conta significa enxergar apenas uma pequena parte da realidade financeira da empresa.

Os juros menores não acabam com a pressão sobre a caixa. Para as empresas, manter a organização financeira é essencial mesmo quando os juros estão caindo. Negócios que tomam emprestado o tempo todo para pagar despesas do dia a dia estão usando o crédito para tapar buracos, como falta de capital de giro ou fluxo de caixa desorganizado. Cardoso afirma: O crédito deve acelerar o crescimento da empresa, nunca sustentar sua sobrevivência.

Os dados da Serasa Experian reforçam esse ponto. Ao analisar os dados de junho, a empresa indicou que muitas companhias ainda dependem do crédito para se manterem no ar. Entre as empresas que não pagam as contas, a maioria é composta por micro e pequenas empresas.

Sinais de alerta antes da crise financeira

Problemas financeiros raramente aparecem do nada. Queda lenta no lucro, aumento dos empréstimos, dificuldade em fechar as contas do mês, falta de liquidez e crescimento sem planejamento costumam aparecer antes da falta de dinheiro se tornar óbvia.

Alguns sinais merecem atenção redobrada. O faturamento pode crescer, mas o lucro não melhora na mesma proporção. As margens de lucro podem ficar cada vez menores. A empresa pode precisar de empréstimos para despesas comuns. Os valores a receber podem aumentar, mas o dinheiro em caixa não acompanha. Pode haver dificuldade para pagar contas, mesmo em meses de vendas altas.

Monitorar o fluxo de caixa futuro, a liquidez, o lucro real, o quanto a empresa deve e o prazo médio de pagamentos ajuda a ver esses problemas antes que fiquem difíceis de resolver. Cardoso destaca: Empresas raramente entram em dificuldade por falta de informações. Na maioria das vezes, os sinais estavam presentes, mas não foram acompanhados ou interpretados no momento certo.

Para o especialista, a mudança essencial é deixar de ver faturamento e lucro como sinônimos de sucesso. Mesmo com juros mais baratos, gerar dinheiro em caixa é o que mantém o crescimento saudável. Cardoso conclui: O empresário não deve perguntar apenas se sua empresa dá lucro. A pergunta mais importante é se ela gera caixa suficiente para sustentar seu crescimento e enfrentar os desafios do mercado.