Empresas brasileiras adotam stablecoins em pagamentos internacionais para cortar custos em até 20% e acelerar transferências. Novas regras do Banco Central e a busca por eficiência financeira transformam a rotina das tesourarias corporativas.
A busca por maior eficiência financeira e a implementação de novas regras pelo Banco Central estão impulsionando o aumento no uso de stablecoins para pagamentos internacionais realizados por empresas brasileiras. Essa mudança pode gerar economias significativas, chegando a 20% nos custos operacionais.
Murillo Oliveira, da empresa Saygo, explica como essa tecnologia está otimizando o departamento financeiro corporativo, especialmente diante da nova Resolução BCB 521. A transição ocorre porque as empresas buscam formas mais rápidas e baratas de lidar com fornecedores no exterior.
Principais pontos sobre o uso de stablecoins no Brasil:
- Stablecoins já representam cerca de 80% do volume de criptomoedas declarados no país em 2025.
- A nova legislação do Banco Central incluiu atvos virtuais no mercado de câmbio a partir de 2 de fevereiro de 2026.
- Transferências podem ser concluídas em segundos, funcionando 24 horas por dia, semelhantes à velocidade do Pix.
- A redução de intermediários pode diminuir o custo final da operação em até 20% comparado ao câmbio tradicional.
- As transações são totalmente rastreáveis, o que agrada o control financeiro e a Receita Federal.
O avanço dos atvos digitais no mercado corporativo
Os dados da Receita Federal, divulgados em julho de 2025, mostram que as stablecoins correspondiam a aproximadamente 80% do total de criptoativos declarados no Brasil. Entre 2019 e o fim de 2025, somam-se cerca de R$ 1,13 trilhão em operações envolvendo essas moedas virtuais.
Esse crescimento agora se estende para as empresas, que avaliam o uso desses ativos para pagar serviços, licenças de software, assinaturas de plataformas e fornecedores especializados no exterior. O foco não é especulação, mas sim a lógica financeira do negócio.
Eficiência e custos das remessas internacionais
Murillo Oliveira, Head of Treasury da Saygo Group, destaca que o interesse das companhias está ligado à eficiência das transações. Ele afirma que as stablecoins entram na rotina financeira como uma alternativa viável. As stablecoins começam a entrar na rotina das tesourarias como uma alternativa para pagamentos internacionais. A discussão passa por prazo de liquidação, disponibilidade da operação, rastreabilidade e, principalmente, pelo custo total para fazer o dinheiro chegar ao beneficiário, diz o especialista.
Diferente do sistema bancário tradicional, essas operações funcionam 24 horas por dia, inclusive aos fins de semana e feriados. Além disso, a transferência é registrada em uma blockchain, possibilitando o acompanhamento em tempo real da viagem do dinheiro.
Vantagens financeiras e tributárias
O custo reduzido é um dos maiores atrativos. Segundo a Saygo, em determinadas estruturas, não há cobrança de IOF sobre a transferência feita com stablecoin. O Imposto de Renda Retido na Fonte ainda depende do tipo de pagamento e da legislação vigente para cada caso. A estimativa é de uma economia de até 20% frente ao câmbio convencional.
A procura é maior por pagamentos de serviços digitais, licenças de software e royalties. Já a importação de produtos físicos continua a exigir cuidados específicos de câmbio e documentação aduaneira. Murillo reforça o apelo prático da ferramenta: Quando uma empresa precisa pagar um fornecedor ou uma plataforma no exterior, velocidade faz diferença, mas custo também. Em determinadas operações, a stablecoin pode reduzir em até 20% o custo quando comparada ao caminho cambial tradicional, além de permitir uma transferência praticamente instantânea e rastreável. É essa combinação que tem despertado o interesse das tesourarias.
Regulação e segurança jurídica
Esse avanço tecnológico acompanha as mudanças regulatórias. Desde 2 de fevereiro de 2026, a Resolução BCB 521 incluiu formalmente as transferências internacionais com ativos virtuais no mercado de câmbio do Brasil. A regra também abrange a compra, venda e troca desses ativos referenciados em moedas comuns.
Essa mudança cria regras mais claras de identificação e documentação, o que aumenta a confiança das empresas. Para Murillo, ter clareza sobre a origem do dinheiro é essencial. Para uma tesouraria, não basta a transferência acontecer rapidamente. É preciso ter clareza sobre a origem e o destino dos recursos, documentação da operação e mecanismos de controle. Quando velocidade e rastreabilidade caminham junto com uma estrutura regulatória mais definida, a solução ganha espaço entre empresas que movimentam recursos internacionalmente.
O cálculo do custo final da operação
Para escolher a melhor forma de pagar, o departamento financeiro precisa analisar todos os custos envolvidos. Taxas de câmbio, tarifas de bancos e o tempo para o dinheiro cair na conta do beneficiário tornam a transferência internacional cara, especialmente para pagamentos que se repetem todo mês.
A estabilidade e a agilidade das stablecoins podem tornar o processo mais vantajoso financeiramente. No entanto, é preciso atenção tributária. O Imposto de Renda Retido na Fonte varia conforme o tipo de rendimento e o país do fornecedor. Pagamentos de serviços e licenças mantêm suas regras fiscais específicas.
Murillo enfatiza que a cotação da moeda é apenas uma parte do problema. É justamente por isso que não se deve olhar apenas para a cotação. Quando colocamos todos os componentes da operação na conta, é possível encontrar diferenças importantes de custo. Em determinados pagamentos, a estrutura com stablecoin pode ser significativamente mais eficiente do que o caminho tradicional, e essa economia tem chamado a atenção principalmente de empresas com volume ou recorrência de remessas internacionais.
Controle fiscal e futuro do mercado
Com mais uso, aumenta também a fiscalização. Desde julho, as transações com criptomoedas são informadas à Receita Federal por meio da regra DeCripto, que exige prestáveis de informações detalhadas.
A Saygo acredita que essas regras ajudam a legitimar o mercado. A stablecoin deixa de ser vista apenas como uma moeda especulativa e passa a ser tratada como uma infraestrutura logística de pagamento. A stablecoin não precisa ser vista apenas como um criptoativo. Para uma empresa, ela pode funcionar como infraestrutura para movimentar recursos entre países de maneira mais rápida, segura e eficiente. Quando existe redução de custo, liquidação em menos tempo e rastreabilidade da operação, há um ganho concreto para a tesouraria. É por isso que acreditamos que essa alternativa tende a ganhar cada vez mais espaço nos pagamentos internacionais, conclui o especialista.
Murillo Oliveira atua como Head of Treasury na Saygo Group, focando em gestão de caixa e proteção cambial global. Ele possui certificações internacionais de investimentos, é formado pela Escola Politécnica da USP e tem especialização em inteligência artificial. Sua experiência abrange a gestão de tesourarias e o mercado de fundos, com foco em fluxos de capital internacionais.

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