Relatório da PwC aponta que a indústria jurídica global começa a atrair capital de private equity para ganhar escala; no Brasil, advogados debatem a necessidade de profissionalizar a gestão sem perder a independência do profissional.
Um novo relatório internacional indica que os serviços jurídicos estão se tornando um alvo estratégico para grandes fundos de investimento. A tendência, identificada pela PwC, sugere que a advocacia começará a atrair capital financeiro não mais apenas como um serviço intelectual, mas como uma indústria que precisa de tecnologia e gestão para crescer. Essa mudança levanta debates importantes sobre como equilibrar a necessidade de investimento com a ética e a independência dos advogados no Brasil.
- A PwC prevê que a advocacia será um setor de alto crescimento para o private equity em 2026.
- No Reino Unido, já foram investidos cerca de £1,2 bilhão em escritórios de advocacia.
- No Brasil, leis atuais impedem a compra de escritórios por investidores não advogados.
- A especialização e o domínio de tecnologia são vistas como chaves para valorizar o profissional.
- A meta é tornar a advocacia mais eficiente sem abrir mão de sua natureza ética e humana.
O Novo Rumo da Advocacia Global
De acordo com o documento Global M&A Trends in Industrials and Services: 2026 Outlook, a PwC observa que o setor jurídico vive uma transição. O modelo tradicional, que dependia quase que exclusivamente do capital e da reputação dos sócios, está dando lugar a estruturas que buscam escala. Isso é impulsionado pela necessidade de padronizar processos e integrar tecnologias avançadas. A tendência é mais evidente no Reino Unido e na Europa, onde a consolidação de mercado acelera. Nos Estados Unidos, embora existam restrições legais à propriedade de terceiros, novos formatos societários despertam o interesse de investidores em busca de eficiência.
Dados Demonstram o Interesse dos Fundos
Um levantamento conjunto da MHA e da Law Society reforça essa movimentação. A pesquisa ouviu líderes de mais de 60 escritórios de médio porte na Inglaterra e no País de Gales. O resultado surpreendeu: quase 70% dos entrevistados tiveram contato com investidores de private equity nos últimos 12 meses. Além disso, cerca de um quarto dos líderes já considera a possibilidade de abrir o capital de suas empresas para atrair esses recursos financeiros.
Os dados revelam também uma mudança na visão de crescimento. Apenas 3% planejavam fusões nos próximos meses, mas 17% pretendiam realizar aquisições. Entre aqueles que foram procurados por investidores, quatro em cada dez manifestaram abertura para uma eventual venda ou integração em um modelo financiado por fundos, sinalizando uma grande flexibilidade de mercado.
O Ponto de Vista do Especialista no Brasil
Para Rodrigo Baraldi, CEO da Baraldi Advogados e especialista em fusões e aquisições, o interesse dos fundos deve ser entendido dentro de uma transformação maior. Segundo ele, embora a reputação dos sócios continue fundamental, o mercado exige hoje capacidades novas, como domínio de dados e gestão de talentos. "Quando uma atividade passa a exigir capital para ganhar escala, é natural que investidores comecem a estudá-la", afirma Baraldi.
Enquanto o Reino Unido já investe bilhões na área, o Brasil enfrenta barreiras legais que restringem a participação de não advogados. Contudo, o especialista argumenta que a discussão é relevante. O mercado jurídico brasileiro é fragmentado e pressiona por profissionalização. "O ponto mais interessante não é imaginar um fundo comprando o escritório, mas understand o que faz investidores enxergarem valor econômico em uma atividade que tradicionalmente não fazia parte desse universo", explica.
Desafios e Oportunidades Locais
A expansão da advocacia no Brasil aumentou a competição e pressionou modelos pouco diferenciados. Baraldi defende que a valorização da profissão passa por construir organizações mais sólidas. "Temos muitos advogados, mas isso não significa excesso de conhecimento jurídico. Existe demanda por conhecimento sofisticado em áreas como tecnologia e compliance. O desafio é aproximar a atuação desses mercados", diz.
Em mercados fragmentados, os fundos buscam plataformas que permitam aquisições e ganho de escala. Porém, na advocacia, o ativo principal é o ser humano. "Capital pode financiar tecnologia, mas não substitui confiança e responsabilidade profissional. A advocacia não pode perder sua independência para se tornar mais eficiente", avalia o especialista. A ideia é incorporar inovação sem descaracterizar a essência da profissão.
Nos Estados Unidos, testes com estruturas chamadas MSOs tentam conciliar capital externo com a restrição de propriedade. Para o mercado brasileiro, a provocação é clara: não reduzir o Direito a uma mercadoria, mas elevar a capacidade dos profissionais de identificar onde sua formação gera valor real para a economia, compreendendo risco e segurança jurídica em decisões empresariais complexas.

Divulgação


