28 de agosto de 2026

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Cenário dos mercados mistura cautela, petróleo caro e incertezas políticas

Economia 28/08/2026 09:34 Olívia Flôres de Brás, Magno Investimentos

Resumo acessível sobre o cenário global e brasileiro, destacando cautela, petróleo acima de 80 dólares, juros altos e impactos políticos nos ativos.

Bom dia. Tudo bem

Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, comenta o cenário dos mercados nesta sexta-feira: cautela, petróleo caro, juros longos elevados e política ocupando espaço no preço dos ativos. A seguir, a visão da analista sobre o que pode acontecer nos próximos dias.

A sexta-feira começa com uma combinação rara: cautela, petróleo caro, juros altos e política influenciando os preços. Na Ásia, o Nikkei avançou 0,38%, enquanto o Kospi caiu 1,79% e Xangai recuou 0,11%. O mercado não está pessimista o suficiente para vender tudo, nem confiante o bastante para comprar. Quem sabe onde não pisar leva o prêmio.

Nos Estados Unidos, atenção ao discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole. Os Treasuries continuam ditando o tom para as bolsas. O título de 10 anos fica perto de 4,67% e o de 30 anos em torno de 5,20%, o que eleva o custo de capital de empresas, famílias e do governo. Juros longos não geram crise, mas cobram o preço. O mercado discute narrativa, enquanto o Tesouro trabalha com orçamento real.

A leitura de payroll, a próxima atualização, pode mudar a percepção sobre o mercado de trabalho americano e o espaço para cortar juros. A estimativa de inflação da Universidade de Michigan fecha o diagnóstico, enquanto Nasdaq futuro cai 0,32% e o S&P 500 fica estável. O Fed não precisa derrubar a economia para controlar a inflação; basta convencer o mercado de que pode fazer isso. O desafio é que a credibilidade custa mais caro que a taxa de juros.

O petróleo adiciona uma camada geopolítica: Brent perto de 88 dólares e WTI acima de 83 dólares, com o estresse no Estreito de Ormuz mantendo o prêmio de risco. Qualquer interrupção na rota pode aumentar a inflação, fretes e cadeias globais. O petróleo acompanha a inflação que viaja por navio e a geopolítica parece distante até aparecer na conta de combustível.

Na Europa, o sentimento econômico da zona do euro melhorou para 98,4 pontos em agosto, acima do esperado, mas a França mostrou que confiança e crescimento nem sempre andam juntos: o PIB francês ficou parado no segundo trimestre, frustrando a previsão de alta de 0,2%. A Europa aprende que melhorar o humor nem sempre rende dinheiro. Economias sorriem para a foto antes de olhar o extrato.

No Brasil, o IGP-M caiu 0,22% em agosto, melhor que julho (-1,16%), mas abaixo da expectativa de -0,30%. Dentro do índice, IPA-M caiu 0,34% e IPC-M caiu 0,41%, ajudando a aliviar parte da pressão inflacionária enquanto o país aguarda o Caged e sinais sobre a atividade. Inflação menor ajuda o Copom, mas não resolve tudo. A discussão fiscal ganhou peso após Lula dizer que uma dívida pública próxima de 80% do PIB não seria elevada em comparação a outras economias. A comparação é possível, mas economicamente incompleta, pois os países não pagam o mesmo prêmio de risco nem têm as mesmas condições de financiamento.

Politicamente, a sabatina de Lula na TV Globo expôs pontos sensíveis justamente no início do período eleitoral. Pesquisas mostram cenários variados entre os candidatos. A eleição não entra no valuation porque o mercado gosta de política: ela muda impostos, gastos, juros e confiança. A urna não negocia na B3, mas pode mudar o preço de quase tudo que se negocia.

No aspecto operacional, o minério de ferro em Cingapura sobe cerca de 0,70%, ajudando o setor de commodities, embora a Vale enfrente nova percepção de risco após decisões recentes sobre tributação. Petrobras convive com Brent elevado e com a prorrogação por 60 dias do imposto sobre exportações de petróleo, enquanto o Banco do Brasil registra maiores provisões no agro e o GPA tenta uma recuperação extrajudicial contestada pelo Ministério Público. A lição é simples: para vencer em mercados difíceis, é preciso que o cenário, o crédito, a inflação e a liquidez conversem entre si. O resultado é o que sustenta a sobrevivência no longo prazo.