Estudo internacional analisa como eventos climáticos em países que exportam alimentos influenciam os preços nas economias que importam, com impactos diferentes conforme calor, frio e seca.
Clima nos países exportadores influencia inflação de alimentos, aponta estudo da UFSCar
Pesquisa apresentada no Chile reúne docentes e egressos da universidade e mostra efeitos distintos de calor, frio e seca sobre preços
As condições climáticas enfrentadas pelos principais parceiros comerciais de um país podem afetar seus preços de alimentos com mais intensidade do que o clima registrado em seu próprio território. Essa é uma das principais conclusões de uma pesquisa desenvolvida por Diego Ferreira, egresso do curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e atualmente professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com Andreza Palma, docente do Departamento de Economia (DEc-So) do Campus Sorocaba da UFSCar; Ana Kreter, da Hochschule Rhein-Waal University of Applied Sciences (HSRW); e Jefferson Staduto, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste).
O trabalho foi apresentado por Ferreira na conferência internacional Nature and the Macroeconomy, realizada em Santiago, no Chile. O evento anual é promovido pelo Centre for Economic Transition Expertise (CETEx), da London School of Economics and Political Science (LSE), e, nesta edição, foi organizado em conjunto com o Banco Central do Chile.
A pesquisa analisa como eventos climáticos ocorridos em países exportadores de produtos agrícolas são transmitidos aos preços dos alimentos nas economias importadoras. Para isso, os autores combinaram dados climáticos da base ERA5, ponderados pelas áreas cultivadas nos países exportadores, com participações bilaterais predeterminadas nas importações.
A análise reúne informações mensais de 49 economias importadoras entre 2005 e 2023. Os resultados identificam três efeitos distintos, associados a diferentes mecanismos agronômicos.
Temperaturas elevadas produzem impact o praticamente imediato sobre os preços, pois o mercado antecipa e precifica possíveis perdas nas safras antes mesmo que ocorram ajustes nos embarques. Os efeitos do frio aparecem cerca de três meses depois e constituem o resultado mais robusto encontrado no estudo. Já os impactos da seca levam aproximadamente 12 meses para chegar aos consumidores, refletindo o tempo necessário para que a redução da umidade do solo percorra a cadeia produtiva até alcançar as prateleiras. Para o excesso de chuva, não foi identificado efeito estatisticamente detectável.
Outro resultado importante é que os impactos permanecem concentrados nos preços dos alimentos. A pesquisa não encontrou efeitos significativos sobre o núcleo da inflação, o índice geral de preços ou, em média, sobre as taxas de juros.
Com base nas estimativas empíricas, os pesquisadores também calibraram um modelo dinâmico estocástico de equilíbrio geral - conhecido como modelo DSGE - para uma pequena economia aberta. Os resultados indicam que o coeficiente climático ideal em uma regra de Taylor ampliada fica próximo de zero.
A conclusão reforça a estratégia de look-through adotada por bancos centrais, segundo a qual choques climáticos temporários e restritos aos alimentos não devem provocar automaticamente uma resposta da política monetária. O estudo contribui, assim, para o debate internacional sobre mudanças climáticas, inflação de alimentos e atuação dos bancos centrais em economias integradas pelo comércio exterior.
Seções e detalhes
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Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
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- Estudo analisa o efeito de temperatura alta em preços de curto prazo
- Impactos do frio aparecem com atraso de ~3 meses
- A seca leva cerca de 12 meses para impactar o consumidor
- Excesso de chuva não apresentou efeito estatisticamente significativo
- Resultados incentivam cautela na política monetária diante de choques climáticos limitados a alimentos

Trabalho apresentado por Diego Ferreira em conferência no Chile (Foto: Acervo pessoal)


