Receitas de família e sabores regionais ganham novas apresentações para atrair consumidores mais jovens sem perder identidade e memória afetiva. O setor de panificação e confeitaria cresceu 3,24% entre janeiro e maio de 2026, e a produção própria já responde por 70,59% da receita das padarias.
O faturamento do setor de panificação e confeitaria cresceu 3,24% entre janeiro e maio de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo o Instituto de Desenvolvimento das Empresas de Alimentação. A produção própria já responde por 70,59% da receita das padarias, a maior participação da série histórica do levantamento. Às vésperas do Dia do Folclore, celebrado em 22 de agosto, os números ajudam a colocar a confeitaria brasileira dentro de outra discussão: como receitas tradicionais, sabores regionais e preparos transmitidos entre gerações podem ganhar espaço nos cardápios atuais sem perder sua origem.
Felipe Noronha, CEO e sócio da Doce Magia, rede de confeitaria artesanal com mais de 30 anos de atuação e sete unidades próprias em São Paulo, São Bernardo do Campo e Guarulhos, avalia que trazer um clássico de volta exige mais do que reproduzir uma receita antiga. "A confeitaria brasileira tem uma força que vem dos sabores que as pessoas reconhecem. É possível atualizar a apresentação e criar novas formas de consumo, mas existe uma essência que precisa continuar presente para que aquele doce ainda desperte identificação", afirma.
- O setor de panificação e confeitaria cresceu 3,24% no primeiro semestre de 2026.
- A produção própria já representa 70,59% da receita das padarias.
- Existem 179.044 padarias e confeitarias no Brasil, segundo a ABIA.
- A Mintel aponta a valorização do passado como tendência global para 2026.
- Receitas tradicionais e sabores regionais são diferenciais no mercado.
O movimento encontra respaldo nas tendências globais de alimentos e bebidas para 2026. A Mintel colocou a valorização do passado entre suas três principais previsões para o setor e aponta que marcas tendem a atuar como guardiãs culturais ao preservar ou modernizar conhecimentos tradicionais. A consultoria também identifica oportunidades para reinterpretar alimentos e ocasiões de consumo capazes de manter essas referências relevantes para as gerações Z e Alpha.
A dimensão econômica ajuda a mostrar o tamanho dessa disputa pelas vitrines. Levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos, a ABIA, em parceria com a Wise Sales, contabilizou 179.044 padarias e confeitarias no Brasil em 2025, equivalentes a 14,5% dos estabelecimentos de food service do país. Apenas as confeitarias somavam 115.619 unidades.
Receitas tradicionais voltam a ganhar valor na confeitaria brasileira
O retorno de sabores conhecidos não ocorre apenas por nostalgia. Em um setor com grande oferta de produtos, receitas de família, técnicas artesanais e ingredientes ligados a determinadas regiões também funcionam como elementos de diferenciação.
A própria relação entre alimentação e cultura ajuda a explicar esse valor. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, reconhece saberes, ofícios e modos de fazer transmitidos entre gerações como manifestações do patrimônio cultural imaterial. São conhecimentos constantemente recriados pelas comunidades e associados à construção de identidade e continuidade cultural.
Na confeitaria, essa transmissão aparece em receitas preservadas em cadernos familiares, preparos associados a determinadas regiões e doces que atravessaram décadas nas mesas brasileiras. Para o CEO da Doce Magia, o desafio começa justamente quando uma empresa tenta atualizar aquilo que já carrega reconhecimento.
"Nem toda mudança representa inovação. Quando uma receita atravessa gerações, existem sabor, textura e memória envolvidos. É possível modernizar a experiência, o tamanho ou a apresentação, mas descaracterizar o produto pode eliminar justamente o motivo pelo qual ele permaneceu relevante", ressalta o executivo.
Inovar sem apagar a origem virou o desafio
A retomada dos clássicos também muda a forma como as confeitarias trabalham com inovação. Em vez de depender exclusivamente da criação de sabores inéditos, negócios do setor podem encontrar novidades na forma de apresentar produtos conhecidos, criar novas ocasiões de consumo e aproximar receitas tradicionais de públicos que não tiveram contato com elas na infância.
A Mintel chama esse movimento de renovação do passado e aponta que a busca dos consumidores não está necessariamente ligada à reprodução de uma época específica. O interesse está na conexão emocional e cultural proporcionada por ingredientes, técnicas e referências reconhecíveis.
"A nova geração não precisa ter a mesma lembrança de quem consumia determinado doce há 20 ou 30 anos. Ela pode construir uma memória própria a partir daquela receita. É aí que a tradição e a inovação conseguem conviver", aponta o sócio da rede.
Produção própria ajuda a preservar os clássicos
Para negócios que crescem e ampliam o número de unidades, preservar uma receita também se torna uma questão operacional. O avanço da produção própria no setor reforça essa discussão: mais de 70% da receita das padarias analisadas pelo Ideal já vem de itens fabricados internamente.
A Doce Magia inaugurou uma fábrica de cerca de 2.000 metros quadrados para atender às sete unidades e ampliar sua capacidade produtiva. Para Noronha, crescer sem perder características de produtos consolidados depende de processos capazes de reproduzir o mesmo resultado em escala.
"Quando uma receita tradicional passa a ser produzida em maior volume, o cuidado precisa aumentar. Padronizar não é transformar o artesanal em algo genérico. É criar processos para que o consumidor encontre as características que espera daquele produto independentemente da unidade em que compra", destaca o CEO.
Ao aproximar receitas antigas de novas ocasiões de consumo, a confeitaria brasileira transforma tradição em um ativo que também pode gerar diferenciação. O desafio está em atualizar formatos e experiências sem retirar dos produtos aquilo que fez com que atravessassem gerações.
Sobre Felipe Noronha
Felipe Noronha é CEO e sócio da Doce Magia, rede de confeitaria artesanal com mais de 30 anos de atuação no Alto Tietê, em São Paulo. Ele lidera o atual ciclo de transformação da empresa, conduzindo o processo de profissionalização, estruturação e expansão da marca.
À frente do negócio, atua na padronização de processos, no desenvolvimento de lideranças e na ampliação da capacidade produtiva, com a implantação de uma nova fábrica. Também conduz a expansão geográfica, com a recente abertura de unidades em Guarulhos e São Bernardo do Campo.
Como porta-voz, defende o crescimento com consistência operacional e preservação da essência da marca, com foco na experiência do cliente.
Sobre a Doce Magia
A Doce Magia é uma rede de confeitaria artesanal com mais de 30 anos de história, fundada no Alto Tietê, em São Paulo. A empresa nasceu de um negócio familiar e inaugurou sua primeira loja em 1993.
Atualmente, conta com sete unidades próprias na região de São Paulo, São Bernardo do Campo e Guarulhos. A empresa inaugurou uma fábrica de cerca de 2.000 m², ampliando sua capacidade produtiva e estruturando a operação para crescimento.
Mesmo com o avanço, a empresa mantém como diretriz a preservação de sua essência, baseada na entrega de experiências que combinam conveniência, indulgência e celebração.

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