Mesmo com dados e inteligência artificial, padrões mentais podem levar líderes a tomar decisões ruins e limitar o crescimento das empresas. Especialista explica como vieses cognitivos afetam a gestão.
Empresas ampliam o uso de inteligência artificial, automação e análise de dados para ganhar produtividade, reduzir custos e tomar decisões mais rápidas. Mas a tecnologia não elimina uma variável capaz de interferir diretamente no crescimento da empresa: o cérebro do empreendedor. Vieses cognitivos, respostas emocionais e padrões de comportamento podem afetar desde a contratação de profissionais até investimentos, definição de prioridades e mudanças de estratégia.
Para Thiago Shimada, bacharel em Comunicação Social, com pós-graduação em Neurociência e especialista em neuromodulação aplicada ao mecanismo decisório de donos de negócio e profissionais da alta liderança, parte dos obstáculos ao crescimento surge quando a empresa evolui mais rapidamente do que a forma de pensar de quem está no comando. “O cérebro do empreendedor pode se tornar o principal gargalo da empresa quando decisões que funcionaram no passado passam a ser repetidas automaticamente. O negócio muda de tamanho, aumenta a complexidade, mas o líder continua respondendo aos problemas com as mesmas referências”, afirma Shimada.
- Vieses cognitivos são atalhos mentais que podem distorcer a percepção de riscos e oportunidades.
- O viés de confirmação faz o empreendedor buscar apenas informações que reforçam suas crenças.
- A aversão à perda pode fazer o líder manter projetos que não dão mais retorno.
- A inteligência artificial não elimina decisões ruins; ela apenas oferece mais dados.
- O autoconhecimento é essencial para melhorar a tomada de decisão empresarial.
Quando a experiência começa a atrapalhar
Uma das explicações está nos vieses cognitivos, atalhos utilizados pelo cérebro para processar informações e fazer escolhas. O mecanismo faz parte do comportamento humano, mas pode distorcer a percepção sobre riscos, oportunidades e resultados quando não é reconhecido por quem decide.
O viés de confirmação é um exemplo. Ele leva uma pessoa a valorizar informações que reforçam aquilo em que já acredita e a dar menos peso às evidências contrárias. Na gestão empresarial, isso pode fazer um empreendedor insistir em uma estratégia porque procura dados que confirmem sua decisão, mesmo quando outros indicadores apontam a necessidade de mudança.
A aversão à perda também pode levar empresários a manter projetos e estratégias que já não entregam o retorno esperado. “A experiência ajuda a reconhecer padrões, mas também pode criar certezas difíceis de questionar. Quando o líder acredita que já sabe como uma situação vai terminar, aumenta o risco de interpretar os fatos pelas experiências anteriores”, explica o estrategista de Business Performance.
A discussão ganha relevância à medida que a inteligência artificial ocupa mais espaço na gestão das empresas. Segundo o AlixPartners Disruption Index 2026, realizado com 3.200 CEOs e executivos seniores de 11 países, 45% dos CEOs afirmam ter ficado para trás em conhecimentos e competências, enquanto 80% dos executivos estão otimistas com o impacto da inteligência artificial nas companhias. O contraste expõe um desafio para a liderança: as ferramentas conseguem cruzar dados, identificar padrões e produzir projeções rapidamente, mas a decisão sobre como interpretar essas informações e quais caminhos seguir continua nas mãos dos gestores.
Inteligência artificial não elimina decisões ruins
Para o especialista em neuromodulação, adotar ferramentas mais sofisticadas não garante melhores decisões se o comportamento de quem está no comando continuar fora da análise. Um gestor pode receber indicadores contrários à própria percepção e, ainda assim, ignorar esses dados ou buscar justificativas para manter uma escolha anterior.
“A inteligência artificial pode entregar uma análise sofisticada, mas não obriga ninguém a aceitá-la. Se o empresário procura apenas informações que confirmem aquilo em que já acredita, pode usar uma tecnologia nova para continuar tomando decisões antigas. O cérebro do empreendedor continua sendo parte central dessa equação”, ressalta o especialista em neuromodulação.
Na prática, melhorar a tomada de decisão empresarial passa por estabelecer critérios objetivos antes de escolhas importantes, confrontar percepções com indicadores, ouvir opiniões divergentes e identificar comportamentos que costumam se repetir diante de pressão, risco ou necessidade de mudança.
A dificuldade tende a ficar mais evidente conforme a companhia cresce. Uma escolha que antes afetava poucas pessoas passa a envolver equipes maiores, investimentos, fornecedores, clientes e planejamento financeiro. A capacidade do empresário de revisar convicções deixa de ser apenas uma característica individual e passa a interferir diretamente na estratégia e na performance da organização.
“O comportamento que levou uma empresa até determinado patamar não necessariamente será o mesmo que permitirá chegar ao próximo. Existe um momento em que o empresário precisa deixar de perguntar apenas o que deve mudar no negócio e começar a observar o que precisa mudar na própria forma de decidir”, aponta Shimada.

Neurociência Imagem gerada por IA


