O governo comemora a redução da fila do INSS, mas será que isso significa que os pedidos estão sendo analisados com qualidade? Uma advogada alerta para o risco de velocidade virar sinônimo de problema resolvido e questiona o que acontece com os trabalhadores que têm benefícios negados.
Sabe o que me preocupa quando vejo o governo comemorar a redução da fila do INSS Não é a fila diminuir. Quem está doente e precisa de um benefício não pode esperar meses por uma resposta. O problema é começarmos a tratar a quantidade de processos analisados como sinônimo de qualidade da análise. Uma coisa não significa necessariamente a outra.
Em abril de 2026, chegamos a cerca de 3,1 milhões de pedidos represados. Em junho, o INSS anunciou que o estoque havia caído para 1,8 milhão de requerimentos, o menor patamar em 21 meses. O governo atribui a redução ao aumento da capacidade de análise e às medidas adotadas para acelerar a conclusão dos processos.
- Em abril de 2026, havia 3,1 milhões de pedidos de benefícios esperando análise no INSS.
- Em junho, esse número caiu para 1,8 milhão, o menor em 21 meses.
- Quase metade dos pedidos analisados em março de 2026 (47%) foram negados, totalizando cerca de 796 mil negativas.
- O principal motivo de indeferimento é a falta de comprovação da incapacidade para o trabalho.
- O Tribunal de Contas da União apontou falhas no sistema de concessão automática de benefícios.
É uma redução expressiva. Mas existe uma pergunta que precisa acompanhar esse número: o que está acontecendo com o segurado depois que o INSS analisa o pedido
Porque uma fila menor significa que mais requerimentos receberam uma resposta. E essa resposta pode ser positiva ou negativa.
O Portal da Transparência Previdenciária mostra a dimensão das negativas. Em março de 2026, foram registrados 796.798 benefícios indeferidos, correspondentes a 47% das decisões. Entre os principais motivos de indeferimento do benefício por incapacidade temporária aparece a não comprovação da incapacidade para o trabalho ou para a atividade desempenhada.
Esse número, sozinho, não permite afirmar que todas essas negativas sejam indevidas. Mas permite fazer uma pergunta que considero indispensável: estamos medindo apenas a produtividade do sistema ou também a qualidade das decisões
O problema não termina na negativa
Quem chega ao INSS por incapacidade já percorreu uma longa trajetória. Existe uma doença, tratamento, exames, atestados e, muitas vezes, meses tentando continuar trabalhando apesar das limitações.
Por isso, a análise da incapacidade não pode ser tratada como uma simples etapa burocrática. Uma pessoa pode estar doente há meses ou anos e ter poucos minutos para explicar sua situação. Os documentos médicos e o histórico do adoecimento são fundamentais para que essa realidade seja compreendida.
O Tribunal de Contas da União identificou problemas no sistema de concessão automática de benefícios do INSS e apontou que os resultados esperados de redução da fila e do tempo de análise não foram plenamente alcançados. A auditoria também identificou situações em que o segurado não tinha oportunidade de corrigir determinados documentos antes da análise automática.
A busca por eficiência é necessária. Mas velocidade não pode substituir análise adequada.
Quando o benefício é negado, o trabalhador continua doente. E então pode precisar compreender o motivo da decisão, reunir documentos, apresentar recurso, fazer um novo requerimento ou procurar a Justiça.
É nesse ponto que a redução da fila pode esconder outro problema. Um processo que deixou a fila do INSS pode simplesmente ter migrado para o Conselho de Recursos ou para o Judiciário.
Antes de culpar o advogado ou o segurado pela judicialização, precisamos fazer uma pergunta muito mais importante: por que essas pessoas chegaram à Justiça
A fila diminui. O caminho do trabalhador continua
Foi justamente esse percurso que me levou a escrever Burnout Tem Lei. O livro acompanha a trajetória da pessoa adoecida desde a documentação e o afastamento até a avaliação do INSS, a negativa do benefício, a reabilitação, o retorno ao trabalho e, quando necessário, a busca pela Justiça.
Quando o benefício é negado ou cessado, a história não termina. É preciso entender o que foi considerado na análise, identificar possíveis erros e avaliar qual caminho o trabalhador deve seguir.
Por isso, quando olho para a redução da fila, não consigo enxergar apenas processos que deixaram de estar represados. Enxergo também os trabalhadores que estão por trás desses números e me pergunto: o que aconteceu com eles depois que o sistema deu uma resposta
Não sou contra reduzir a fila. Sou contra transformar fila menor em sinônimo de problema resolvido.
Precisamos saber não apenas quantos processos foram encerrados, mas quantos trabalhadores que realmente tinham direito conseguiram receber o benefício de forma correta e em tempo adequado.
Porque o trabalhador doente não é o número de um requerimento.
A fila pode diminuir. A qualidade da decisão não pode diminuir junto.

Imagem ilustrativa - Freepik





