Pesquisa do Instituto Mulheres do Imobiliário (IMI) mostra que a participação feminina no mercado imobiliário cresceu: elas já representam até 49% dos financiamentos e mais de 35% compram imóveis com recursos próprios. Executivas de grandes bancos explicam como essa mudança influencia novos produtos e a forma de atender o público.
A participação feminina no mercado imobiliário brasileiro vem passando por uma transformação nos últimos anos. De consumidoras que influenciavam a decisão de compra, as mulheres passaram a ocupar um papel central como tomadoras de crédito, investidoras e protagonistas na construção de patrimônio. O movimento já influencia a forma como bancos e incorporadoras desenvolvem produtos, atendem clientes e enxergam o mercado.
- As mulheres já representam até 49% dos financiamentos imobiliários com recursos do FGTS no Minha Casa, Minha Vida.
- Mais de 35% das mulheres compram imóveis principalmente com recursos próprios.
- No Santander, as mulheres são cerca de 40% dos tomadores de crédito imobiliário.
- A renda média das mulheres que financiam imóveis no Santander subiu de R$ 13 mil para R$ 22 mil entre 2021 e 2025.
- Após o divórcio, 45% das pessoas que compraram um novo imóvel usaram recursos da divisão de bens.
A mudança também aparece no comportamento das consumidoras. Em pesquisa divulgada pelo Instituto Mulheres do Imobiliário (IMI) na revista O que 7 Anos Constroem, 35,7% das mulheres compram imóveis principalmente com recursos próprios, evidenciando um cenário de maior independência financeira e protagonismo na formação de patrimônio.
O tema foi debatido durante painel que reuniu lideranças femininas da Caixa Econômica Federal, Santander e BTG Pactual na celebração dos sete anos do Instituto Mulheres do Imobiliário (IMI), em São Paulo, na última semana de julho. O encontro discutiu como a maior autonomia financeira das mulheres vem modificando a relação com o crédito imobiliário, o desenvolvimento de novos produtos e a dinâmica de compra de imóveis no país.
Segundo Inês Magalhães, vice-presidente de Habitação da Caixa Econômica Federal, a mudança acompanha uma transformação social mais ampla, marcada pelo aumento da escolaridade feminina, maior participação das mulheres no mercado de trabalho, crescimento de famílias lideradas por mulheres e busca por independência financeira.
"A mulher passou a ser olhada como um agente econômico importante. A discussão não é apenas porque é bom para os negócios, mas porque as mulheres são atores políticos e sociais de relevância para o país", afirma.
Na Caixa, essa transformação já aparece nos indicadores de crédito habitacional. No programa Minha Casa, Minha Vida, considerando operações com recursos do FGTS, a participação feminina passou de 33% para 49%. Na carteira geral de crédito habitacional da instituição, as mulheres representam cerca de 30% das titulares dos contratos.
Segundo a executiva, políticas públicas também contribuíram para esse avanço, especialmente iniciativas que fortaleceram a titularidade feminina dos imóveis e ampliaram a proteção patrimonial das mulheres.
Mais renda, novos perfis e mudanças nos produtos
No mercado imobiliário fora dos programas habitacionais, a participação feminina também vem aumentando. Elisangela Perussi, Head de negócios imobiliários do Santander, destaca que as mulheres representam cerca de 40% dos tomadores de crédito imobiliário da instituição. "Entre 2021 e 2025, a renda média das mulheres que contrataram crédito imobiliário passou de R$ 13 mil para R$ 22 mil. No mesmo período, o valor médio financiado evoluiu de aproximadamente R$ 320 mil para R$ 450 mil. Ou seja, o papel da mulher mudou. Ela não está mais apenas compondo renda. Ela lidera famílias, empreende e participa diretamente da construção de patrimônio", afirma a executiva.
Na avaliação de Elisangela, esse novo perfil exige que as instituições financeiras compreendam melhor a jornada feminina de compra e desenvolvam produtos mais alinhados às necessidades desse público.
Essa mudança também já influencia o mercado imobiliário de alto padrão. Dora Swarc, do BTG Pactual, destacou durante o evento do IMI que o desenvolvimento dos empreendimentos passou a considerar transformações no perfil das famílias e das consumidoras. Entre as novas demandas estão espaços para trabalho remoto, ambientes integrados, áreas para receber convidados e maior valorização do conforto e do bem-estar.
"A mulher deixou de ser vista apenas como alguém que escolhia detalhes do imóvel. Hoje ela participa da decisão completa, desde a localização até o conceito do empreendimento", afirma. "Muitas famílias atualmente são lideradas por mulheres, seja por escolha, separação ou independência financeira, realidade que também influencia o desenvolvimento de novos produtos imobiliários", destaca Dora Swarc.
O cenário também se reflete nas decisões de compra após mudanças na estrutura familiar. Dados do IMI compilados na revista O que 7 Anos Constroem, sobre o impacto das separações na demanda por imóveis, apontam que 45% das pessoas que adquiriram um novo imóvel após o divórcio utilizaram recursos provenientes da divisão de bens para viabilizar a compra, evidenciando como a reorganização patrimonial também impulsiona novos movimentos no mercado imobiliário.
Para Elisa Rosenthal, fundadora e Presidente do Instituto Mulheres do Imobiliário (IMI), a evolução da participação feminina no crédito habitacional é consequência de uma transformação que vai muito além do acesso ao financiamento.
"Quando vemos mulheres assumindo a liderança na compra de imóveis e na construção do próprio patrimônio, estamos falando de uma mudança estrutural do mercado. Elas passaram a influenciar toda a cadeia imobiliária, das políticas de crédito ao desenvolvimento dos empreendimentos. Compreender esse novo perfil não é só uma questão de diversidade, mas também uma necessidade para quem deseja acompanhar a evolução do setor", conclui.

Foto: Inês Magalhães, Elisangela Perussi, Dora Swarc e Elisa Rosenthal - Crédito: Rui Sabino Fotografia




