06 de agosto de 2026

??ºC São Paulo - SP
??ºC Rio de Janeiro - RJ
??ºC Salvador - BA

Erro comum pode comprometer a sucessão de uma empresa familiar

Economia Sucessão 06/08/2026 10:18 Carolina Lara (Lara Comunicação)

Centralização das decisões, falta de indicadores e resistência a mudanças podem transformar a preservação do legado em obstáculo para a continuidade do negócio. Entenda como evitar esses erros na hora de passar o comando para a próxima geração.

O Dia dos Pais, celebrado em 9 de agosto, costuma reforçar a ideia de legado entre gerações. Nas empresas familiares, porém, a continuidade do negócio depende menos da transmissão do comando e mais da capacidade de reconhecer quais práticas devem permanecer e quais precisam ser transformadas. Dados da 29ª CEO Survey da PwC, divulgada em 2026, mostram que líderes desse perfil de empresa dedicam apenas 11% do tempo a temas de longo prazo, como planejamento sucessório, desenvolvimento de lideranças e governança, enquanto 56% da agenda permanece voltada às demandas imediatas.

  • Líderes de empresas familiares gastam só 11% do tempo em planejamento para o futuro.
  • Centralização das decisões e falta de indicadores são os principais vilões.
  • Resistência a mudanças pode ser confundida com preservação da cultura.
  • Sucessão deve começar antes da troca de comando.
  • Fundação precisa dar autonomia real para a nova geração.

Para Felipe Noronha, CEO e sócio da Doce Magia, rede de confeitaria artesanal com sete unidades na Grande São Paulo, o risco aparece quando a nova geração confunde respeito à trajetória da companhia com a obrigação de manter todas as práticas criadas no passado. "O maior desafio de herdar uma empresa é saber o que não deve ser herdado. Os valores e a relação construída com o cliente precisam ser preservados, mas a forma de decidir e organizar a operação deve acompanhar o crescimento do negócio", afirma.

Processos antigos podem limitar o futuro

O problema não costuma estar apenas na escolha de quem assumirá a liderança. A sucessão também expõe hábitos que permaneceram invisíveis enquanto a empresa tinha poucos funcionários, uma única unidade ou menor volume de vendas. Decisões concentradas no fundador, acordos verbais, funções mal definidas e controles baseados na memória podem funcionar durante os primeiros anos, mas perdem eficiência quando a estrutura se torna mais complexa.

A informalidade é um dos pontos mais delicados dessa transição. Quando procedimentos, responsabilidades e critérios de decisão não estão documentados, parte do conhecimento permanece restrita ao fundador ou a poucos familiares. A geração seguinte recebe o cargo, mas não encontra uma estrutura que permita compreender por que as decisões eram tomadas ou avaliar se elas continuam adequadas.

A ausência de indicadores amplia o risco. Sem dados sobre custos, produtividade, desperdícios, desempenho das unidades e comportamento dos clientes, a discussão sobre mudanças tende a ficar presa a impressões pessoais. O que deveria ser uma decisão de gestão pode se transformar em um conflito entre gerações, no qual uma parte tenta preservar a experiência acumulada e a outra busca alterar a operação.

"A sucessão fica mais difícil quando qualquer proposta de mudança é interpretada como crítica ao trabalho de quem fundou a empresa. Rever um processo não significa negar a história construída. Significa impedir que uma prática criada para uma realidade menor se torne um limite para o futuro", explica o CEO da Doce Magia.

A Pesquisa Global de Empresas Familiares 2026, realizada pela PwC com mais de 1.300 acionistas e líderes de 60 territórios, mostra que apenas 25% das organizações pesquisadas registraram crescimento de dois dígitos nas vendas em 2025, ante 43% dois anos antes. O resultado reforça a pressão para que esses negócios conciliem identidade, capacidade de adaptação e uma visão de longo prazo.

Preservar a cultura não é repetir a gestão

A resistência a mudanças costuma ganhar força quando os processos são tratados como parte da identidade da companhia. Cultura, no entanto, está ligada aos valores, ao propósito, à forma de relacionamento e aos princípios que orientam o negócio. Sistemas de controle, modelos de decisão e distribuição de funções são instrumentos de administração e precisam ser revistos conforme a empresa avança.

Na prática, uma passagem de comando estruturada exige a criação de regras claras, a definição de responsabilidades e a preparação das lideranças antes da saída do fundador. Também envolve conceder autonomia à nova geração, sem retirar de forma abrupta a experiência de quem conhece a operação desde a origem.

Segundo Noronha, na sua experiência uma das decisões mais importantes foi reduzir a dependência de controles informais e criar uma estrutura que permitisse acompanhar o desempenho da rede. "Enquanto a operação é pequena, o fundador consegue estar próximo de quase tudo. Quando a empresa cresce, essa centralização deixa de representar cuidado e passa a atrasar decisões. Foi necessário distribuir responsabilidades e criar processos que não dependessem apenas da presença de uma pessoa", ressalta o executivo.

Sucessão começa antes da troca de comando

Outro erro frequente é tratar o planejamento sucessório como uma medida necessária apenas quando o fundador decide se afastar. A preparação deveria começar antes, com a formação de lideranças, a organização das informações e a criação de mecanismos de governança que reduzam a dependência de relações pessoais.

A troca de gerações também exige clareza sobre o papel de cada familiar. Participar da sociedade não significa necessariamente ocupar uma função executiva. A ausência dessa distinção pode gerar sobreposição de autoridade, conflitos internos e decisões orientadas por vínculos afetivos, e não pelas necessidades da operação.

Na avaliação do empresário, o fundador continua tendo uma função relevante durante esse processo, mas precisa permitir que a próxima liderança assuma responsabilidades reais. "Não existe sucessão quando a nova geração recebe o cargo, mas todas as decisões continuam submetidas à mesma pessoa. A experiência anterior deve servir como referência, não como impedimento para que a empresa encontre novas respostas", aponta.

Mais do que transferir patrimônio ou escolher um sucessor, a continuidade de uma empresa familiar depende da capacidade de transformar conhecimento pessoal em processos, separar afeto de responsabilidade executiva e preservar a cultura sem congelar a gestão. A herança mais importante pode estar justamente na liberdade para mudar aquilo que já não acompanha o negócio.