31 de julho de 2026

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Mercados globais: Recuperação histórica na Ásia e desafios fiscais no Brasil

Economia Mercados 31/07/2026 09:33 Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos

O mercado financeiro encerrou julho com uma forte recuperação, especialmente na Ásia, onde as bolsas subiram após perdas recentes. Nos Estados Unidos, a Amazon surpreendeu com bons resultados, enquanto a Apple decepcionou. No Brasil, as contas públicas mostram um aumento da dívida, deixando os investidores preocupados. O petróleo também se destaca, com riscos geopolíticos no Oriente Médio.

Bom dia. Tudo bem

Estou com uma análise de Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, sobre o cenário dos mercados no encerramento de julho.

Para Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos:

Julho chega ao fim com os mercados globais novamente dispostos a comprar risco, mas sem abandonar a cautela. Os futuros de Nova York avançam, as bolsas europeias operam no campo positivo e a Ásia protagonizou uma recuperação histórica, impulsionada pelos balanços de tecnologia e pela expectativa de que os bilhões investidos em inteligência artificial finalmente comecem a gerar resultados concretos. O capital pode até se encantar com o futuro, mas exige que ele apareça na demonstração de resultados.

  • Na Coreia do Sul, o Kospi disparou 17,91%, a maior valorização diária de sua história, após perder mais de 17% nos dias anteriores.
  • A Amazon subiu cerca de 12% no pré-mercado após superar as expectativas com sua divisão de nuvem, enquanto a Apple caiu 7% por projeções mais fracas.
  • O PIB dos EUA cresceu menos que o esperado no segundo trimestre, sinalizando uma desaceleração que pode aliviar os juros.
  • O Japão manteve os juros em 1%, mas sinalizou que pode apertar a política monetária se a inflação aumentar.
  • No Brasil, a dívida bruta chegou a 81,9% do PIB, gerando preocupações com as contas públicas e o impacto nos investimentos.

Na Coreia do Sul, o Kospi disparou 17,91%, maior valorização diária de sua história, depois de perder mais de 17% nas três sessões anteriores. Samsung Electronics avançou 26,8% e SK Hynix saltou 30%, enquanto o Nikkei ganhou 4,03% e o índice de Taiwan subiu 7,98%. O movimento é espetacular, mas deve ser visto como uma recuperação após uma queda igualmente espetacular. Quando o mercado cai como se a inteligência artificial tivesse acabado e sobe como se ela tivesse descoberto a cura da pobreza, talvez o problema não esteja na tecnologia.

Nos Estados Unidos, a Amazon chegou a avançar cerca de 12% no pré-mercado após apresentar crescimento da divisão de nuvem acima das expectativas, enquanto a Apple recuava aproximadamente 7% diante de projeções consideradas mais fracas. O Nasdaq futuro operava em alta superior a 1%, ampliando a recuperação iniciada ontem, quando o índice subiu 2,8% e as empresas de semicondutores ganharam 8,2%. Balanço continua sendo a única inteligência artificial que o mercado realmente respeita: receita entra de um lado, desculpa sai do outro.

A economia americana, porém, recomenda menos euforia. A primeira leitura do PIB do segundo trimestre apontou crescimento anualizado de 1,5%, abaixo dos 2% esperados, enquanto dados de consumo, renda e inflação vieram mais moderados. Hoje, o Índice de Custo do Emprego, o PMI de Chicago e a confiança do consumidor da Universidade de Michigan ajudam a medir se a desaceleração é suficiente para aliviar os juros sem comprometer a atividade. O mercado chama isso de pouso suave porque queda elegante vende melhor do que perda gradual de altitude.

No Japão, o Banco Central manteve os juros em 1%, mas sinalizou disposição para acelerar o aperto monetário caso os riscos inflacionários aumentem. O iene oscilou violentamente após movimentos atribuídos a uma possível intervenção das autoridades, enquanto o mercado passou a precificar aproximadamente 40% de probabilidade de nova alta na próxima reunião. Depois de décadas procurando inflação, o Japão finalmente a encontrou e agora precisa fingir que não estava com tanta saudade.

A geopolítica voltou a contaminar o preço da energia. Relatos de bloqueios de petroleiros no Estreito de Ormuz e ataques na região fizeram o petróleo inverter as perdas, com o WTI próximo de US$ 84 e o Brent ao redor de US$ 88 por barril. Como uma parcela relevante do comércio mundial de petróleo atravessa a região, qualquer interrupção prolongada pode reacender a inflação, pressionar juros longos e reduzir margens corporativas. No mercado, seis navios parados conseguem movimentar mais dinheiro do que seis meses de apresentações de estratégia.

No Brasil, o cenário externo positivo encontra uma bolsa que encerrou ontem em alta de 1,9%, aos 177 mil pontos, enquanto o dólar recuou para aproximadamente R$ 5,06. Tecnicamente, o Ibovespa preserva a tendência de alta acima dos 173.800 pontos e pode buscar a região de 184 mil, mas o avanço doméstico dependerá da combinação entre fluxo estrangeiro, commodities, balanços corporativos e percepção fiscal. Bolsa sobe com expectativa; patrimônio permanece com estrutura. Confundir as duas coisas é transformar entusiasmo de pregão em planejamento financeiro.

Os números das contas públicas lembraram por que o investidor brasileiro não pode terceirizar prudência. A dívida bruta alcançou 81,9% do PIB em junho, acima dos 81,5% esperados e dos 81,1% do mês anterior. A dívida líquida subiu de 67,9% para 68,5% do PIB, o setor público registrou déficit primário de R$ 55,3 bilhões e o déficit nominal chegou a R$ 166 bilhões, bem pior que os R$ 133,2 bilhões projetados. O próprio Banco Central já aponta trajetória ascendente para a dívida nos próximos anos. Governo gasta no presente, o mercado recalcula o futuro e o contribuinte descobre que sempre esteve na planilha.

O Índice de Preços ao Produtor caiu 0,77% em junho, após recuo de 0,30% em maio, oferecendo algum alívio na formação de preços industriais. Ainda assim, o debate sobre um corte de apenas 0,25 ponto percentual na Selic mostra que desinflação não é sinônimo de licença para abandonar disciplina, sobretudo com dívida crescente, petróleo pressionado e incerteza eleitoral no horizonte. Na Magno Investimentos, essa leitura se traduz em arquitetura patrimonial, liquidez e risco bem remunerado, não em apostas sobre a próxima manchete. O mercado muda de opinião todos os dias. Patrimônio bem estruturado não deveria precisar fazer o mesmo.