24 de julho de 2026

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Soja sobe e cria chance para produtor vender mais

Economia Soja 24/07/2026 07:41 Luiz Fernando Sá, AgFeed agfeed.com.br

A alta recente da soja no Brasil e no exterior está criando uma oportunidade para os agricultores brasileiros venderem sua produção. A consultoria Céleres orienta os produtores a garantirem os preços agora, pois a alta pode ser passageira.

O movimento já está medido nos relatórios semanais da consultoria Céleres, uma das mais respeitadas do país na análise das safras agrícolas. Nas duas últimas semanas, a venda da safra atual de soja subiu de 6 a 9 pontos percentuais. Esse ritmo é muito maior do que o de períodos anteriores, quando o mercado estava parado.

As vendas futuras, para o grão que ainda será plantado e colhido no início do próximo ano, também aceleraram, subindo de 4 a 5 pontos percentuais.

  • O preço da soja subiu 8,89% em julho, a maior média do ano.
  • A consultoria Céleres recomenda que os produtores travem os preços e vendam agora.
  • A alta é causada por fatores como clima nos EUA, guerra na Ucrânia e compras da China.
  • Os estoques globais de soja ainda estão altos e a tendência de longo prazo é de baixa.
  • O produtor brasileiro continua expandindo a área plantada, o que pode segurar os preços no futuro.

A gente está vendo como uma janela de oportunidade e o agricultor está correndo e vendendo. Safra velha, safra colhida este ano e avançando também na venda da safra 2026/2027, afirma Anderson Galvão, CEO da Céleres, em entrevista ao AgFeed.

No curto prazo, a recomendação que a gente tem dado a nossos clientes é: Trave, venda produção, faça caixa e defenda a receita, principalmente em reais', afirma Galvão.

A orientação, que alguns já estão seguindo, é aproveitar uma combinação momentânea de fatores. Nas últimas semanas, os preços das commodities agrícolas se recuperaram de um longo período de baixa e voltaram a ser mais atrativos para os agricultores.

Essa reação é vista tanto em índices globais quanto nos que acompanham as vendas nas principais regiões brasileiras.

O que está impulsionando a alta da soja

O Bloomberg Agriculture Spot Index, que acompanha dez grandes culturas no mundo, atingiu na quarta-feira, 22 de julho, o maior nível desde julho de 2023, depois de sete semanas seguidas de alta.

No Brasil, a soja foi o destaque. O indicador Cepea/Esalq para o porto de Paranaguá (PR) fechou a R$ 145,45 a saca de 60 kg no mesmo dia, uma valorização de 8,89% no mês. O preço médio de julho, de R$ 139,10, é a maior média do ano e zerou as perdas acumuladas em 2026.

No Mato Grosso, referência da produção nacional, os preços para a safra futura (com entrega de março a maio de 2027) voltaram a ser sinalizados na casa dos R$ 105 por saca no eixo da BR-163, depois de terem caído a R$ 90.

No mercado físico, o patamar atual já supera os R$ 120 no estado. Para Galvão, esses preços voltam a permitir preços para a safra nova na casa acima de R$ 100 no saco, nível que, embora ainda apertado diante da alta dos insumos, já permite projetar alguma rentabilidade.

O movimento, segundo Galvão, não representa uma mudança estrutural de patamar, mas uma rara conjuntura que acumula fatores de pressão que estimularam a ação de investidores no mercado externo.

Fatores que explicam a alta

O primeiro desses fatores é o climático. Galvão explica que é normal, nesta época do ano, a entrada em cena do chamado mercado do clima dos Estados Unidos.

Vai chover, o preço desaba, se não choveu o preço sobe. É assim que fundo de investimento roda posições em Chicago, diz.

A presença do fenômeno El Niño ajuda a amplificar esse mercado. A Europa, por exemplo, já estima reduções relevantes em sua safra de grãos por conta de uma onda de calor extremo que afetou o rendimento de lavouras, principalmente de trigo e milho, em países como França e Alemanha.

A previsão é que a produção do continente atinja o menor nível em 19 anos, segundo a Bloomberg, que classificou o evento climático como o maior golpe em décadas para os grãos europeus.

Ao mesmo tempo, os ataques no Mar Negro voltaram a ameaçar o fluxo de exportação de grãos da Rússia e da Ucrânia, gerando volatilidade nos mercados futuros de Chicago.

O conflito Rússia e Ucrânia está afetando mais milho e trigo por conta das interrupções do fluxo de produto agrícola no Mar Negro, explica Galvão.

O agravamento das tensões no Oriente Médio acrescenta outra camada de pressão. A alta do petróleo e do diesel impulsiona os preços dos óleos vegetais e dos biocombustíveis, o que indiretamente sustenta a soja como matéria-prima.

Outro elemento que ajuda a explicar a recuperação de preços da soja em Chicago, de acordo com o consultor, é o fato de a China ter voltado a comprar a leguminosa nos Estados Unidos.

O que esperar para o futuro

Galvão faz questão de separar o que é conjuntural do que é estrutural. A seu ver, os elementos estruturais do mercado de soja seguem baixistas: estoques globais elevados, agricultor brasileiro ainda expandindo área (cerca de meio milhão de hectares adicionais nesta safra, segundo estimativas da Céleres, após 1 milhão na anterior) e fazendas que mudam de dono, mas não param de produzir.

Para fazer preço subir de forma estrutural, o agricultor do Brasil tem que parar de produzir para reduzir oferta, e não está acontecendo, afirma.

O câmbio também é, na sua visão, uma variável central. O real, que beliscou os R$ 4,90 há 40 dias e hoje orbita perto de R$ 5,10, ajuda a sustentar os preços em moeda nacional.

Mas Galvão alerta que esse fator pode se reverter rapidamente se o cenário político-eleitoral trouxer um candidato com discurso de disciplina fiscal, hipótese que, segundo ele, faria o real despencar para a casa dos R$ 4,60, comprimindo a receita do produtor em reais.

Por ora, a safra brasileira está colhida, a pressão de frete diminuiu e o agricultor, que enfrentou meses de preços no limite do custo de produção, enxerga, finalmente, uma luz no fim do túnel.

O desafio, alerta Galvão, é não confundir o clarão de uma janela que se abre com a chegada definitiva de um novo ciclo de alta.