21 de julho de 2026

??ºC São Paulo - SP
??ºC Salvador - BA
??ºC Cuiabá - MT

Inteligência artificial deixa empresas mais rápidas, mas clientes menos fiéis

Economia Eficiência 20/07/2026 16:44 Bethel Lombardi, especialista em experiência do cliente

O uso da inteligência artificial (IA) em vendas, atendimento e comunicação está tornando as empresas mais produtivas, mas especialistas alertam que isso pode estar prejudicando a confiança e a fidelidade dos clientes. A tecnologia acelera processos, mas não substitui a conexão humana, que é essencial para construir relacionamentos duradouros e gerar novas oportunidades de negócio.

A inteligência artificial transformou a velocidade das empresas, onde respostas instantâneas, automação comercial, atendimento digital e produção de conteúdo em escala passaram a fazer parte da rotina corporativa. Mas, à medida que a tecnologia ganha espaço nas relações com clientes, cresce uma preocupação entre especialistas em experiência do cliente: a eficiência operacional pode estar avançando mais rápido do que a capacidade das empresas de construir confiança, diferenciação e fidelização.

  • A IA está sendo usada para automatizar atendimento, vendas e comunicação, mas isso pode tornar as empresas muito parecidas umas com as outras.
  • Uma pesquisa mostrou que 81% dos brasileiros confiam em empresas que usam IA, mas a confiança ainda é o principal motivo para escolher uma marca.
  • Especialistas dizem que a tecnologia acelera processos, mas não substitui a necessidade de contato humano para resolver problemas complexos.
  • Clientes querem ser ouvidos e compreendidos, e 96% deles valorizam isso mais do que a rapidez no atendimento.
  • Empresas que investem em confiança e relacionamento conseguem competir por preferência, e não apenas por preço.

Bethel Lombardi, especialista em experiência do cliente, fundador da Encantar Mentory e criador do método EPL (Encantar Para Lucrar), atua há mais de duas décadas com relacionamento, retenção de clientes e desenvolvimento de negócios. Para o executivo, a inteligência artificial representa uma das maiores oportunidades para as empresas nos últimos anos. O problema surge quando organizações passam a utilizar a tecnologia como substituta do relacionamento comercial, e não como ferramenta de apoio à experiência do cliente.

O que a pesquisa revela sobre a confiança dos consumidores

A discussão ganhou força nos últimos meses à medida que empresas ampliaram investimentos em inteligência artificial aplicada ao atendimento ao cliente, automação de vendas e comunicação corporativa. Pesquisa Global Happiness Index, realizada pela NiCE com 12 mil consumidores em diferentes países, mostra que 81% dos brasileiros afirmam confiar tanto quanto ou mais em empresas que utilizam inteligência artificial. Ao mesmo tempo, o levantamento evidencia que a confiança continua sendo um fator decisivo para a percepção de valor e para a experiência do consumidor.

A inteligência artificial acelera processos, reduz custos e melhora a produtividade. Mas relacionamento comercial não é uma atividade operacional. Quando a empresa automatiza excessivamente a comunicação, ela pode até ganhar eficiência, mas corre o risco de perder relevância, confiança e preferência na decisão de compra, afirma Bethel.

O avanço da IA está mudando a forma como clientes escolhem empresas

O crescimento da inteligência artificial no ambiente corporativo acontece em um momento em que consumidores demonstram expectativas cada vez maiores em relação à personalização e à qualidade do atendimento. Estudo da IBM sobre tendências em automação de atendimento aponta que organizações vêm combinando inteligência artificial e equipes humanas para elevar a produtividade sem comprometer a experiência do cliente.

Na avaliação do fundador da Encantar Mentory, esse equilíbrio será determinante para os resultados das empresas nos próximos anos.

Muitas organizações acreditam que o cliente quer apenas rapidez. Rapidez é importante, mas não é suficiente. Em negociações relevantes, problemas complexos ou decisões de compra mais estratégicas, as pessoas continuam buscando segurança, contexto e confiança. Esses fatores ainda são construídos por relações humanas.

A percepção é reforçada por pesquisas recentes sobre comportamento do consumidor. Levantamento divulgado pela Lehibou aponta que 96% dos consumidores valorizam ser ouvidos e compreendidos durante o atendimento, enquanto 91% consideram importante ter acesso a uma pessoa quando necessário.

Empresas correm o risco de automatizar a confiança

Para o especialista em experiência do cliente, um dos efeitos menos debatidos da expansão da inteligência artificial está na padronização das interações comerciais. Com o uso crescente de ferramentas de geração de conteúdo, atendimento automatizado e prospecção baseada em algoritmos, muitas empresas passaram a se comunicar de maneira semelhante.

Os consumidores estão cada vez mais expostos a interações produzidas por inteligência artificial. Quando todas as empresas utilizam as mesmas ferramentas, os mesmos fluxos e os mesmos modelos de comunicação, a diferenciação desaparece. A tecnologia que deveria aproximar pode acabar tornando as marcas indistinguíveis.

Segundo o especialista, esse movimento ajuda a explicar por que as empresas conseguem aumentar a produtividade, mas nem sempre conseguem elevar retenção, fidelização e recomendação espontânea.

Relacionamento não é despesa operacional. É um ativo de crescimento. Empresas que tratam experiência do cliente apenas como processo tendem a competir por preço. Empresas que investem em confiança conseguem competir por preferência.

A próxima vantagem competitiva pode ser justamente o fator humano

O fundador da Encantar Mentory acredita que a próxima etapa da transformação digital será menos focada na adoção de ferramentas e mais concentrada na forma como elas são utilizadas para fortalecer vínculos com clientes.

Para ele, a inteligência artificial continuará ocupando espaço cada vez maior nas áreas de atendimento, marketing, vendas e relacionamento. O diferencial competitivo, porém, estará na capacidade de combinar tecnologia, personalização e conexão humana.

As empresas que vão liderar os próximos anos não serão as que automatizarem tudo. Serão as que conseguirem combinar inteligência artificial, experiência do cliente e relacionamento comercial de forma inteligente. A tecnologia acelera respostas. A confiança continua sendo o que acelera negócios.

Na avaliação de Bethel em experiência do cliente, a inteligência artificial deve ampliar a capacidade das empresas de atender melhor seus clientes, e não substituir os elementos que sustentam a construção de credibilidade, lealdade e valor de marca.

A verdadeira vantagem competitiva não estará em quem responde mais rápido. Estará em quem consegue transformar cada interação em uma experiência capaz de gerar confiança, relacionamento e novas oportunidades de negócio.