Enquanto Estados Unidos, China e Europa reorganizam o poder, o Brasil administra crises. O país sofre pressões de três grandes potências: tarifas dos EUA, cotas da China e regras da União Europeia. A falta de uma estratégia própria pode custar caro ao agronegócio e à economia brasileira.
Ainda não haviam desaparecido as fotografias dos brindes em torno da aproximação entre Mercosul e União Europeia quando Brasília recebeu de Bruxelas uma mensagem menos festiva. O Brasil continuava fora da lista de países considerados em conformidade com as novas regras europeias sobre antimicrobianos. Se o impasse não for resolvido, uma grande variedade de proteínas brasileiras pode perder acesso ao bloco a partir de setembro.
Neste 16 de julho, a pressão ganhou uma nova dimensão. Os Estados Unidos anunciaram uma tarifa extra de 25% sobre milhares de produtos brasileiros, com início em 22 de julho. Açúcar, etanol, máquinas, madeira e outros setores foram atingidos. Café, carne bovina, suco de laranja e alguns componentes aeronáuticos ficaram de fora.
- Os EUA cobrarão 25% a mais sobre vários produtos brasileiros, mas café e carne ficaram isentos.
- A China limitou a carne brasileira que pode entrar no país, com tarifa extra de 55% sobre o que passar do limite.
- A União Europeia pode bloquear proteínas brasileiras se o Brasil não cumprir novas regras contra antimicrobianos.
- O Brasil tem recursos naturais enormes, mas ainda não tem uma estratégia para usar isso como poder de negociação.
- O país precisa diversificar seus compradores e investir em tecnologia para não depender tanto de poucos mercados.
A medida foi adotada após a investigação da Seção 301, que questionou políticas brasileiras relacionadas ao comércio digital, meios eletrônicos de pagamento, propriedade intelectual, etanol, tarifas preferenciais, combate à corrupção e desmatamento.
Na China, principal destino da carne bovina brasileira, existe uma salvaguarda que estabelece cotas nacionais e uma tarifa extra de 55% sobre os volumes excedentes. A cota brasileira para 2026, perto de 1,1 milhão de toneladas, ficou muito abaixo das cerca de 1,7 milhão de toneladas enviadas para aquele mercado em 2025.
Três pressões, três justificativas. Washington fala em reciprocidade. Pequim protege sua pecuária. Bruxelas usa a segurança sanitária como argumento.
Seria confortável denunciar apenas o protecionismo dos outros. Seria também ingênuo e insuficiente.
As três potências estão fazendo o que grandes potências fazem: usar mercado, regulação, tecnologia e capacidade de retaliação para defender seus próprios interesses.
O problema brasileiro não é que Estados Unidos, China e Europa tenham estratégias. É que o Brasil ainda não tem uma estratégia equivalente para os ativos que controla.
Recursos naturais não garantem poder
Poucos países têm tanta terra, água, clima tropical, energia renovável, biodiversidade, florestas, minerais e capacidade de produzir alimentos em grande escala. Essa abundância leva a uma conclusão tentadora: num mundo ameaçado por guerras, mudanças climáticas e insegurança alimentar, o Brasil se tornará inevitavelmente mais poderoso.
Não necessariamente.
A história está cheia de países ricos em recursos e pobres em influência. Ter o que os outros desejam é apenas o começo. Poder significa influenciar as condições da relação, aguentar a perda de um mercado, aumentar o custo da substituição, controlar conhecimento relevante e ter alternativas.
A China precisa importar carne. Isso não a impediu de limitar o produto brasileiro. A Europa precisa diversificar fornecedores. Isso não a impediu de ameaçar nossas proteínas. Os Estados Unidos têm superávit no comércio de bens com o Brasil. Isso não os impediu de usar a Seção 301.
O anúncio americano traz uma lição importante. O Brasil não é uma vítima isolada. O governo Trump ampliou o uso de investigações comerciais contra dezenas de economias, transformando a política comercial em instrumento de segurança econômica, política industrial e pressão geopolítica.
Segundo levantamento de Marcos Troyjo, os países afetados por diferentes procedimentos americanos corresponderiam a quase toda a atividade econômica realizada fora dos Estados Unidos.
Isso não diminui a importância do caso brasileiro. Pelo contrário. O Brasil se tornou um dos primeiros laboratórios da nova estratégia tarifária americana baseada na Seção 301. Não se trata apenas de proteger uma indústria específica. Trata-se de usar o acesso ao maior mercado importador do mundo para influenciar políticas adotadas dentro de outros países.
A inclusão do Pix é reveladora. Uma infraestrutura pública brasileira que reduziu custos, ampliou a inclusão financeira e aumentou a concorrência passou a ser tratada como possível problema comercial porque afeta interesses de empresas estrangeiras.
O Brasil deve mostrar que suas regras são transparentes e não discriminatórias. Mas não pode aceitar que toda inovação pública que bagunce modelos de negócios externos seja, por definição, considerada prática desleal. A disputa não é apenas sobre pagamentos. É sobre quem mantém a autoridade para desenhar as instituições econômicas brasileiras.
As exceções mostram o caminho
As exceções concedidas por Washington são tão instrutivas quanto as tarifas. Café, carne, suco de laranja e componentes aeronáuticos não foram poupados por educação diplomática. Foram preservados porque sua taxação aumentaria custos para consumidores e empresas americanas, pressionaria a inflação ou prejudicaria cadeias difíceis de reorganizar. As exceções representam cerca de US$ 11 bilhões em comércio anual.
Eis a diferença entre importância comercial e poder: um país ganha influência não apenas quando exporta muito, mas quando a interrupção de certas exportações impõe custos relevantes ao comprador.
Isso é indispensabilidade seletiva.
A China oferece a mesma lição por outro caminho. Sua salvaguarda sobre a carne não acaba com a parceria com o Brasil. Apenas confirma que o interesse chinês está acima da retórica da parceria. Pequim não sacrificará seus pecuaristas para preservar os resultados dos frigoríficos brasileiros. Nenhuma grande potência faria isso.
O erro foi permitir que uma parte tão grande das vendas dependesse de um único comprador. Diversificação não é um slogan diplomático. É uma forma de seguro. E seguros parecem caros até o dia do sinistro.
A União Europeia exerce poder principalmente por meio das regras. Normas sanitárias e ambientais podem proteger objetivos públicos legítimos e, ao mesmo tempo, aumentar o custo dos concorrentes. As duas coisas podem ser verdadeiras.
A resistência antimicrobiana é uma ameaça real à saúde pública. Também é real a pressão política dos agricultores europeus contra a concorrência externa. O Brasil continua fora da lista europeia de conformidade, cuja aplicação está prevista para 3 de setembro de 2026.
O erro brasileiro seria responder apenas com indignação. A acusação de protecionismo não substitui um sistema nacional capaz de comprovar, por meio de dados, auditorias e rastreabilidade, a qualidade de nossas cadeias produtivas.
No comércio contemporâneo, quem controla o padrão controla parte do mercado. Somente do alemão KfW recebemos a partir de 2018 cerca de R$ 380 milhões (dependendo da cotação do Euro) para produzir um sistema de rastreabilidade bovina e acelerar a implementação do CAR. Tudo ainda continua no papel. Não nos movemos por falta de recursos, mas por falta de competência, estratégia e vontade política.
Três ilusões que precisam acabar
Esses episódios deveriam acabar com três ilusões.
A primeira é acreditar que importância comercial oferece proteção política. A segunda é imaginar que competitividade garante acesso. A terceira é confundir exportação com poder.
O Brasil exporta grandes volumes, mas participa pouco da definição dos sistemas. Vende soja, mas não lidera as plataformas de biotecnologia que organizam seu uso. Exporta minério, mas processa pouco dos materiais críticos.
Possui biodiversidade extraordinária, mas transforma uma parcela mínima dela em patentes, medicamentos e biomateriais.
Fornece segurança alimentar, mas depende de genética, fertilizantes, máquinas, dados e tecnologias externas.
O Brasil tem o hardware. Outros ainda controlam parte relevante do software.
Isso não significa usar alimentos como arma. O país não deve ameaçar restringir exportações nem transformar abastecimento em chantagem. Isso destruiria uma de suas maiores vantagens: a reputação de fornecedor confiável.
Mas confiabilidade não significa passividade.
Carne congelada pode ser substituída. Um sistema de genética tropical, sanidade, rastreabilidade, marcas e logística é mais difícil de copiar. Minério bruto pode ser comprado de diferentes origens. Materiais processados com energia renovável são mais raros. Etanol é mercadoria. Uma plataforma de combustíveis sustentáveis, biotecnologia, certificação e financiamento constitui capacidade estratégica.
A influência não nasce da escassez artificial. Nasce da indispensabilidade construída.
O que o Brasil precisa fazer
O Brasil não será indispensável em tudo. Nem precisa ser. Deve escolher áreas nas quais recursos naturais, conhecimento científico e escala possam gerar capacidades difíceis de reproduzir: genética tropical, bioinsumos, proteínas de baixo carbono, combustíveis sustentáveis, biomateriais, minerais processados com energia renovável e tecnologias de adaptação climática.
Nessas áreas, o objetivo não deveria ser apenas exportar mais. Deveria ser controlar ciência, propriedade intelectual, padrões, dados, processamento e distribuição.
Também é preciso abandonar uma ideia superficial de país "pêndulo". Países competentes conseguem negociar com diferentes potências porque têm objetivos definidos, burocracias eficazes, ativos estratégicos e capacidade de cumprir compromissos.
Sem projeto, flexibilidade não é autonomia. É exposição.
O Brasil não precisa escolher entre Estados Unidos, China e Europa. Precisa saber o que deseja de cada um, quais contrapartidas exigirá e quais capacidades não aceitará entregar. Mas não pode continuar achando que boas relações com todos substituirão capacidade própria. Na nova ordem internacional, amizade sem alternativas vale pouco.
O acesso ao hardware brasileiro deve contribuir para a construção do software brasileiro. Investimentos estratégicos precisam ser avaliados pela pesquisa realizada no país, fornecedores brasileiros incorporados, profissionais formados, patentes compartilhadas, processamento local e segurança dos dados.
A China quer alimentos, minerais, energia e mercado. O Brasil deve negociar processamento, engenharia e pesquisa.
Os Estados Unidos querem acesso para suas empresas e menor presença chinesa em setores estratégicos. O Brasil deve buscar capital, inteligência artificial, biotecnologia e cooperação universitária.
A Europa quer segurança ambiental, minerais críticos e alimentos submetidos a seus padrões. O Brasil deve exigir reconhecimento de equivalência, transferência tecnológica e participação na formulação das normas.
Reciprocidade sem metas e prazos é apenas retórica diplomática.
Nada disso será obtido por improvisação. China, Estados Unidos e União Europeia integram comércio, tecnologia, segurança e política industrial. O Brasil ainda organiza esses temas em compartimentos burocráticos. Cada crise gera uma força-tarefa; a crise seguinte encontra praticamente as mesmas vulnerabilidades.
O país precisa de uma estrutura permanente de segurança econômica capaz de identificar concentrações, dependências críticas, tecnologias prioritárias e ativos com potencial de gerar influência. Não para copiar o protecionismo americano, o dirigismo chinês ou o "regulacionismo" europeu, mas para aprender a mesma lição: mercados não existem separados do poder.
O Brasil já descobriu que ser necessário pode render exceções. Ainda não aprendeu a transformar essas exceções numa estratégia.
O mais preocupante, contudo, talvez não esteja nas pressões externas, mas na pobreza do debate interno. Enquanto Estados Unidos, China e Europa reorganizam suas estratégias, o Brasil continua preso numa política de trincheiras, consumida por disputas eleitorais, ressentimentos e cálculos pessoais.
Num ano de eleição presidencial, seria razoável esperar uma discussão sobre que economia queremos construir, quais tecnologias pretendemos dominar, que dependências precisamos reduzir e qual lugar desejamos ocupar no mundo em cinco, dez ou vinte anos. Mas isso não tem espaço na nossa pobre agenda eleitoral.
Nada disso ocupa o centro da agenda. As elites políticas tratam o futuro como abstração; parte das elites empresariais limita-se ao trimestre; e boa parte da intelectualidade reage aos acontecimentos sem convertê-los numa visão nacional mobilizadora.
O risco não é apenas perder mercados ou sofrer novas barreiras. É atravessar uma transformação histórica sem projeto, coordenação ou consciência de nossa própria importância. Países não entram em decadência apenas porque lhes faltam recursos. Entram em decadência quando deixam de imaginar o que poderiam ser.
A mudança central está na passagem da ameaça tarifária para a tarifa efetivamente anunciada e no uso das exceções como prova concreta de que indispensabilidade, quando real, produz poder de negociação.
Marcello Brito é diretor acadêmico na FDC-Agroambiental.

(Imagem produzida por inteligência artificial)


