Mato Grosso já está com problema de falta de biomassa sustentável, e o crescimento da agroindústria pode piorar a situação. Um especialista explica que é preciso aumentar o reflorestamento no estado.
O crescimento acelerado das indústrias em Mato Grosso e a busca por energia renovável estão trazendo um novo problema: garantir biomassa sustentável suficiente para abastecer as fábricas. Esse é o tema de um novo episódio do podcast Agro de Primeira MT, que conversou com o engenheiro florestal Fausto Takizawa, diretor da Associação de Reflorestadores de Mato Grosso (Arefloresta).
Segundo Fausto, o problema já não é mais uma preocupação para o futuro, mas algo que já está acontecendo. A maior dificuldade está na produção de madeira de florestas plantadas, principalmente de eucalipto, que é a principal fonte de biomassa usada pelas usinas de etanol de milho e outras indústrias de Mato Grosso.
- Falta oferta de biomassa em Mato Grosso: já existe um déficit de 33 mil hectares de eucalipto para atender a demanda atual das indústrias.
- O crescimento das usinas de milho aumentou muito a necessidade de biomassa, e a tendência é que o consumo continue subindo.
- Muita da biomassa usada hoje vem de fontes que não são renováveis, como a retirada de vegetação nativa, o que não é seguro para o futuro.
- O plantio de eucalipto demora de 6 a 7 anos para ser colhido, o que exige planejamento de longo prazo.
- Ampliar as florestas plantadas pode gerar novas oportunidades de negócios, como a produção de móveis, papel e construção civil.
Hoje já existe esse déficit da biomassa de florestas plantadas em Mato Grosso. Se todas as usinas de etanol de milho usassem 100% de biomassa sustentável de plantações, seriam necessários cerca de 198 mil hectares de eucalipto. Mas hoje temos aproximadamente 165 mil hectares, ou seja, já existe um déficit de 33 mil hectares, afirma.
O diretor explica que o rápido crescimento das agroindústrias, principalmente das usinas de etanol de milho, fez a demanda crescer mais rápido do que a capacidade de formar novas florestas comerciais. O grande boom veio com as usinas de etanol de milho. Mato Grosso passou a industrializar cada vez mais sua produção agrícola e, com isso, aumentou muito a necessidade de biomassa. A tendência é que esse consumo continue crescendo nos próximos anos, destaca.
Dependência de fontes temporárias preocupa
Enquanto a área de florestas plantadas não acompanha essa expansão, boa parte da biomassa usada pelas indústrias ainda vem da retirada vegetal autorizada, de resíduos de planos de manejo florestal e de resíduos agrícolas. Para Takizawa, esse modelo não oferece segurança no longo prazo. A supressão vegetal é um estoque que só diminui. É como um copo cheio que vai sendo esvaziado. Se não houver planejamento para ampliar as florestas plantadas, o risco é faltar biomassa para abastecer as indústrias, alerta.
Além do risco de faltar matéria-prima, o especialista afirma que a situação pode trazer problemas jurídicos e prejudicar a imagem do estado e das empresas, especialmente por causa das exigências cada vez maiores dos mercados por produtos mais sustentáveis.
Produção exige planejamento de longo prazo
Diferente das culturas anuais, como soja e milho, a produção de biomassa com eucalipto leva tempo. O ciclo entre o plantio e a colheita varia de seis a sete anos, o que exige planejamento adiantado e segurança para investidores e produtores. Segundo o diretor da Arefloresta, esperar o problema piorar pode tornar a solução ainda mais difícil. O plantio do eucalipto é para ontem. São de seis a sete anos entre plantar e colher. Se deixarmos para agir apenas quando a demanda aumentar ainda mais, vamos enfrentar dificuldades para abastecer a agroindústria, afirma.
Ele acrescenta que o estado tem áreas hoje pouco usadas que poderiam ser destinadas ao reflorestamento comercial, permitindo ao produtor diversificar a renda sem competir diretamente com as principais culturas agrícolas.
Oportunidade para produtores e para a economia
Além de garantir segurança energética para a agroindústria, Takizawa acredita que a expansão das florestas plantadas pode abrir novas oportunidades econômicas para o estado. Além da produção de biomassa, a madeira pode abastecer setores como construção civil, papel, celulose, móveis, tecidos e vários produtos industriais de maior valor agregado. A biomassa é apenas o primeiro passo. Quando Mato Grosso amplia sua base de florestas plantadas, abre um enorme portal de oportunidades para novas indústrias, gera renda, empregos e fortalece uma economia de base florestal sustentável, conclui.
Na avaliação do especialista, a combinação entre planejamento, segurança jurídica, incentivos ao reflorestamento e compromisso das agroindústrias será determinante para evitar um déficit ainda maior no futuro e garantir o crescimento industrial de Mato Grosso.

Agro de Primeira MT


