Com mais de 74 milhões de brasileiros com dívidas, o país enfrenta um problema: nunca se consumiu tanto conteúdo sobre dinheiro nas redes sociais, mas isso ainda não ajudou a melhorar a vida financeira das pessoas. Especialistas explicam que saber sobre finanças é diferente de colocar em prática.
Mais de 74 milhões de brasileiros estão com dívidas, segundo um levantamento feito pelo CNDL e SPC Brasil em 2026. Ao mesmo tempo, vídeos sobre investimentos, organização financeira e como juntar dinheiro têm milhões de visualizações todos os dias em plataformas como TikTok, Instagram e YouTube. Essa diferença chama a atenção de especialistas: nunca foi tão fácil encontrar informações sobre dinheiro, mas os problemas para controlar o orçamento e fazer um planejamento financeiro ainda são muito comuns na vida de grande parte da população.
- Mais de 74 milhões de brasileiros estão com dívidas, mesmo com tanto conteúdo sobre finanças nas redes.
- Vídeos sobre dinheiro têm milhões de views, mas isso não significa que as pessoas estão sabendo usar o que aprendem.
- Especialistas dizem que saber sobre finanças é diferente de ter o hábito de controlar os gastos.
- Muitas pessoas se sentem perdidas com tanta informação diferente ao mesmo tempo.
- O segredo para uma vida financeira saudável é colocar em prática o que se aprende, e não só assistir a vídeos.
Para Ricardo Hiraki, especialista em educação financeira e CEO da Plano Fintech, empresa que ajuda famílias a organizar o orçamento e se planejar, esse fenômeno mostra uma mudança importante na forma como as pessoas aprendem sobre dinheiro. Assuntos que antes eram tratados apenas por consultores, bancos e instituições financeiras agora aparecem todos os dias em vídeos curtos, podcasts e publicações de influenciadores, fazendo com que o tema chegue a públicos que antes não se interessavam por planejamento financeiro.
O crescimento desse tipo de conteúdo acompanha uma mudança maior no comportamento digital dos brasileiros. De acordo com o relatório Digital 2026, da DataReportal, o Brasil continua entre os países que mais usam redes sociais no mundo, mostrando como essas plataformas são importantes como fonte de informação sobre vários temas, incluindo finanças pessoais, investimentos e organização financeira.
O perigo de confundir informação com educação financeira
Segundo Hiraki, o aumento da educação financeira nas redes sociais é um avanço importante para que mais pessoas tenham acesso ao conhecimento, mas isso não elimina os riscos de ter informação demais. "As redes sociais ajudaram muita gente a aprender sobre finanças, mas também criaram a ideia de que assistir a um vídeo sobre dinheiro é a mesma coisa que praticar educação financeira. Existe uma diferença grande entre conhecer conceitos e criar hábitos financeiros de verdade", afirma.
A popularização dos chamados "finfluencers" (influenciadores de finanças) ajudou a tornar assuntos que antes pareciam complicados mais fáceis de entender para milhões de pessoas. Conceitos como reserva de emergência, juros compostos, diversificação de investimentos e planejamento financeiro agora fazem parte das conversas do dia a dia de uma parcela maior da população. Ao mesmo tempo, a velocidade das redes sociais favorece mensagens simplificadas, promessas de ficar rico rápido e recomendações que nem sempre levam em conta a realidade financeira de cada um.
"Muitas pessoas conseguem explicar conceitos de investimento porque consomem conteúdo todos os dias, mas ainda têm dificuldade para organizar o próprio orçamento, construir uma reserva financeira ou manter disciplina nos gastos. O conhecimento financeiro ficou mais fácil de ter. O desafio agora é transformar informação em comportamento", explica.
O excesso de informação pode atrapalhar
Na avaliação do especialista, um dos maiores riscos é confundir entretenimento com orientação financeira. Conteúdos feitos para gerar engajamento costumam mostrar histórias de sucesso, ganhos altos e estratégias que prometem resultados rápidos. Enquanto isso, aspectos fundamentais da saúde financeira, como controle de despesas, planejamento de longo prazo e gestão de riscos, recebem menos atenção.
Outro ponto observado por ele é o excesso de referências ao mesmo tempo. A facilidade de acesso faz com que muitas pessoas acompanhem dezenas de criadores de conteúdo ao mesmo tempo, recebendo orientações diferentes sobre investimentos, consumo, crédito e como construir patrimônio. "O excesso de informação pode fazer com que a pessoa fique paralisada ou tome decisões por impulso. Em vez de ter clareza, ela começa a acumular opiniões contraditórias e perde a capacidade de criar uma estratégia que combine com seus objetivos financeiros. Educação financeira não é a quantidade de conteúdo que você consome. É a capacidade de tomar decisões melhores de forma consistente", afirma.
Para Hiraki, a tendência é que as redes sociais continuem sendo importantes para espalhar a educação financeira nos próximos anos. O desafio será desenvolver senso crítico para avaliar informações, encontrar fontes confiáveis e transformar o aprendizado em prática. "Os conteúdos financeiros podem ser um ótimo ponto de partida para despertar o interesse pelo tema. Mas construir uma vida financeira saudável continua dependendo de planejamento, disciplina e da capacidade de aplicar o conhecimento à realidade de cada pessoa. O patrimônio não é construído pelo que se assiste, mas pelo que se faz de forma repetida", conclui.

Ricardo Hiraki



