14 de julho de 2026

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Copersucar faz primeiro abastecimento de navio com etanol no Brasil

Economia Etanol 14/07/2026 07:41 Gustavo Lustosa - AgFeed agfeed.com.br

Um navio cargueiro partindo para o Sri Lanka recebeu 635 mil litros de etanol em um teste inédito no Porto de Santos. A expansão desse combustível ainda depende da renovação da frota, de regras claras e de viabilidade econômica.

No Porto de Santos, na segunda-feira (13 de julho), aconteceu o primeiro abastecimento de um navio porta-contêineres com etanol no Brasil. A operação juntou a Copersucar, a CMA CGM, a Bunker One, a Santos Brasil e a AGEO Terminais para abrir caminho para o uso do biocombustível brasileiro na descarbonização do transporte marítimo.

  • Foram transferidas 500 toneladas (635 mil litros) de etanol de cana produzido pela Copersucar para o navio CMA CGM Iron.
  • O navio tem motor tricombustível, que funciona com bunker comum, metanol e etanol.
  • Depois de Santos e Paranaguá, o navio segue para o Porto de Colombo, no Sri Lanka, usando o etanol em parte do trajeto.
  • A operação é um marco e o primeiro passo para incluir o etanol na matriz energética do setor marítimo, que precisa reduzir emissões.
  • O presidente da Copersucar, Tomás Manzano, disse que isso mostra que a transição energética está saindo do papel.

Segundo Manzano, o etanol brasileiro tem vantagens: produção em grande escala, cadeia consolidada, menor emissão de carbono e preço competitivo. Para ele, a transição energética deixa de ser promessa e vira realidade.

A operação também é uma nova aposta da CMA CGM, grupo francês que controla a Santos Brasil desde 2025 e quer usar mais combustíveis alternativos. A empresa tem cerca de 150 navios prontos para combustíveis de baixo carbono e prevê mais de 200 até 2031.

Porém, o evento mostrou que é mais uma demonstração técnica do que o começo de um novo mercado. O abastecimento foi um piloto e precisou de muitas autorizações especiais. Manzano disse que a ideia é tornar esse modelo replicável, mas é preciso ampliar a infraestrutura, criar corredores verdes e melhorar a regulamentação.

As próprias empresas sabem que isso será gradual. Manzano calcula que, se apenas 10% do combustível marítimo mundial fosse substituído por etanol, surgiria uma demanda de 50 bilhões de litros por ano. Hoje, o Brasil produz cerca de 37 bilhões de litros, e o etanol já é muito usado em carros e na gasolina.

Ele pondera que o cenário depende da renovação da frota mundial. Novos navios que entram em operação já podem usar etanol, mas o número ainda é pequeno. Segundo a Bunker One, existem cerca de 70 navios que podem usar metanol (e etanol), com mais 400 em construção.

Ainda não se sabe qual será o consumo de etanol nesses navios. A CEO da CMA CGM no Brasil, Neusa Marcelino, disse que só depois da primeira viagem será possível avaliar o desempenho do combustível. Também há um desafio econômico: Manzano explica que, para ter a mesma energia de 1 tonelada de bunker fóssil, são necessárias 1,6 tonelada de etanol, o que exige mais espaço a bordo.

Em termos de preço, o etanol é mais caro que o bunker fóssil, mas Manzano acredita que, com escala, o custo cai. O etanol reduz as emissões em cerca de 70% em relação ao combustível comum, e essa vantagem ambiental pode valer dinheiro em mercados que precificam carbono. Ele estima que cada crédito de carbono por volta de US$ 100 pode equilibrar a conta.

Há também um problema de regulamentação internacional. A Organização Marítima Internacional (IMO) já reconheceu o etanol como alternativa de baixo carbono, mas cada mercado tem regras próprias. Na União Europeia, por exemplo, o FuelEU Maritime favorece combustíveis feitos de resíduos ou matérias-primas avançadas. O etanol de primeira geração (de cana ou milho) ainda enfrenta restrições, dependendo da certificação e da rota do navio.

Enquanto a IMO olha para a intensidade de carbono ao longo da vida do combustível, a UE considera a origem da matéria-prima, o que limita biocombustíveis de culturas alimentícias. O etanol de milho brasileiro saiu na frente: em abril, a IMO reconheceu o etanol de milho safrinha como elegível, por ser produzido em segunda safra sem abrir novas áreas. Manzano acredita que o etanol de cana deve receber o mesmo reconhecimento nos próximos meses.