13 de julho de 2026

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Empresas brasileiras gastam mais em tecnologia mas colhem menos resultados

Economia Tecnologia 13/07/2026 10:20 Mauro Rodrigues, Head da Selbetti Print Solutions

Um novo estudo mostra que as empresas no Brasil estão investindo cada vez mais em tecnologia da informação, mas a maturidade digital delas está caindo. Isso significa que elas compram muitos sistemas e ferramentas, mas não conseguem usá-los direito para melhorar seus negócios. O problema principal é que falta organização, dados de qualidade e uma estratégia clara, fazendo com que o dinheiro gasto não traga o retorno esperado.

Empresas brasileiras estão gastando mais em tecnologia, mas a maturidade digital delas está caindo. É o que mostra uma nova pesquisa, que levanta a questão: o que está acontecendo

Imagine uma empresa que contrata um novo sistema de gestão, aumenta a estrutura na nuvem, compra licenças de inteligência artificial e separa dinheiro para automação. No papel, parece que ela está avançando. Mas, na prática, os processos continuam desconectados, as áreas trabalham separadas, a organização não muda e, meses depois, descobre que gastou mais e entregou menos. Essa situação é mais comum do que se imagina.

  • O Índice de Transformação Digital do Brasil (ITDBr) mostra que a maturidade digital média das empresas brasileiras caiu de 3,7 para 3,6, em uma escala de 1 a 6.
  • Isso acontece justamente quando os orçamentos de TI estão crescendo: 60% das empresas planejam aumentar os investimentos, e 23% esperam um aumento superior a 10%.
  • O principal problema não é a falta de dinheiro, mas sim a falta de organização, dados de qualidade e uma estratégia clara de como usar a tecnologia.
  • As empresas estão comprando ferramentas antes de resolver os problemas básicos, como a integração entre áreas e a qualidade dos dados.
  • A reforma tributária está servindo como um teste de realidade, mostrando que muitas empresas não estavam preparadas para as mudanças, pois seus processos não estavam bem organizados.

Por que as empresas estão investindo mais e colhendo menos

Uma pesquisa feita pela PwC Brasil e pela Fundação Dom Cabral, em fevereiro deste ano, revelou que a maturidade digital das empresas brasileiras caiu. O número parece pequeno, mas o que ele mostra é importante: as organizações estão investindo mais em tecnologia e conseguindo menos resultado. Isso é um grande paradoxo.

Outro estudo, o IT Trends Snapshot 2025, mostra que a maioria das empresas brasileiras planeja aumentar os investimentos em tecnologia da informação. O dinheiro existe, a intenção é clara e a pressão para investir é grande. Mesmo assim, a maturidade digital encolheu. A explicação para isso é que a governança digital das empresas funciona mais como um organizador de processos do que como uma alavanca estratégica. Ela não está conseguindo integrar práticas de gestão de riscos, alinhar a inovação ao modelo de negócio e garantir que cada real investido gere retorno. O resultado é que a tecnologia chega antes que a empresa esteja preparada para usá-la.

Comprar ferramentas não é o mesmo que transformar o negócio

Um exemplo claro disso é a dimensão de clientes digitais do ITDBr, que caiu de 3,8 para 3,1. Isso significa que as empresas estão perdendo a capacidade de usar dados para personalizar a experiência do cliente, justamente quando mais investem em infraestrutura. A explicação é a desconexão entre a ferramenta comprada e o processo que deveria alimentá-la. Uma plataforma de análise de dados não gera insights se os dados são inconsistentes, duplicados ou não podem ser rastreados. Um sistema de CRM não melhora o relacionamento com o cliente se as áreas comercial, marketing e atendimento não trabalham com processos integrados.

Essa fragilidade não se limita ao relacionamento com o cliente. A pesquisa também mostrou que 70% das empresas brasileiras investem em inteligência artificial mais por pressão do mercado do que por uma estratégia clara. E apenas 30% conseguiram medir ganhos concretos de produtividade com seus projetos de IA. A questão não é se a tecnologia funciona, porque funciona. A questão é se a empresa construiu as condições para que ela funcione dentro daquele contexto, com aqueles processos, com aquelas pessoas e com aquela governança. É preciso criar uma estrutura central de dados confiáveis, que sirva de base para todas as soluções, como plataformas de atendimento, canais digitais e iniciativas de relacionamento com clientes. Esse centro garante unicidade, padronização e rastreabilidade das informações, criando uma base sólida para os negócios evoluírem.

A reforma tributária como teste de realidade

Se o paradoxo entre orçamento e maturidade parecia algo distante para alguns gestores, a reforma tributária sobre o consumo tornou a situação concreta. Desde janeiro deste ano, as empresas brasileiras precisam emitir documentos fiscais com novos tributos, mesmo que ainda em caráter de teste. Essa fase exige que os sistemas de gestão, emissão de notas fiscais e rotinas contábeis estejam adaptados. O que parecia uma simples atualização de software revelou-se, para muitas organizações, uma prova de que os processos internos não estavam preparados.

A transição tributária exige reclassificação fiscal de produtos e serviços, revisão de contratos, redesenho de fluxos de faturamento, treinamento de equipes e, acima de tudo, integração entre áreas que historicamente operam de forma independente. Empresas que trataram a adaptação como uma simples atualização de sistema estão descobrindo retrabalho, inconsistências e custos que não estavam no orçamento original. Isso acontece porque o diagnóstico dos processos, que deveria vir antes da implementação tecnológica, nunca foi feito. Esse padrão se repete a cada nova onda de tecnologia: uma parte das empresas compra a ferramenta antes de entender o problema que precisa resolver. E quando a ferramenta não entrega o resultado, a resposta costuma ser comprar outra, criando mais complexidade sem resolver a causa do problema.

Da compra ao retorno: a diferença está na direção

A queda no índice de maturidade digital não é uma sentença definitiva. Na verdade, ele é um sinal de que o mercado está fazendo uma autocrítica. As empresas brasileiras passaram por uma fase de compra acelerada, impulsionada pela pandemia, pela migração para a nuvem e pela onda de inteligência artificial generativa. O que o estudo mostra é que essa fase precisa dar lugar a um estágio de consolidação, onde o foco não está em adquirir mais tecnologia, mas em fazer a tecnologia já adquirida gerar o valor que foi prometido.

Essa transição exige uma mudança de postura que vai além da área de TI. É preciso que os líderes tratem a transformação digital não como um gasto com infraestrutura, mas como uma decisão de negócio. Os projetos de tecnologia devem ser avaliados pelo resultado que entregam, não pelo volume investido. E a consultoria estratégica, o redesenho de processos e a governança de projetos precisam deixar de ser vistos como custo e passar a ocupar o centro do investimento. A diferença entre uma empresa que se digitaliza e uma empresa que só gasta com tecnologia nunca foi o tamanho do orçamento. Sempre foi a clareza da direção.