12 de julho de 2026

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Jovens de favelas do Rio mostram como ganhar dinheiro com a internet

Economia Influenciadores 12/07/2026 07:11 Marcos Furtado - Extra extra.globo.com

Victor Marinho e Carlos Matheus, sócios do canal 'Deu M' no YouTube, contam como transformaram o conteúdo produzido em comunidades em publicidade, palestras e até em uma empresa.

Começa hoje uma nova seção do Corre de Cria: a 'Crias nas Redes', que vai mostrar quem são os criadores de conteúdo nascidos e criados em favelas do Rio de Janeiro que conseguiram transformar a presença nas redes sociais em uma oportunidade de ganhar dinheiro. Para abrir a seção, trago a história de dois sócios do canal 'Deu M', no YouTube: os influenciadores Victor Marinho e Carlos Matheus.

  • Victor Marinho, de 30 anos, fundou uma produtora de vídeo na comunidade onde nasceu.
  • Carlos Matheus, de 34 anos, dá palestras sobre afeto preto e faz publicidades.
  • O canal deles, 'Deu M', tem mais de 74 mil inscritos e foca em histórias com protagonismo negro e LGBTQIA+.
  • Victor já fez propaganda para marcas grandes como Nivea e L'Oréal.
  • Um vídeo da mãe de Carlos com a atriz Paolla Oliveira rendeu um vale-compras de R$ 5 mil.

Os dois dividem um projeto audiovisual com protagonismo preto, LGBTQIA+ e periférico. Cada um ao seu modo, já conseguiu obter retorno financeiro por meio dos conteúdos publicados nas redes sociais.

Victor Marinho tem 30 anos e nasceu na comunidade da Primavera, em Cavalcanti, bairro da Zona Norte do Rio. Aos 7 anos, ganhou uma câmera de presente da avó. A partir daí, passou a filmar brincadeiras com os amigos usando câmeras simples. Ele chegou a ter uma TecPix que fazia vídeo e gravava em DVDs que acabaram se perdendo com o tempo.

Ele sempre gostou muito de audiovisual, de fotografia. Conforme foi crescendo e a tecnologia foi avançando, ele era aquele adolescente que pedia eletrônicos de presente.

Essa paixão por câmera e tela o levou a abrir seu primeiro canal na internet ainda adolescente, por volta dos 15 anos. Mas o que realmente mudou o rumo foi um vídeo imitando a Ivonete, personagem do comediante Paulo Gustavo. A gravação foi feita a pedido de uma amiga, que, sem avisar, publicou o vídeo no Facebook, que viralizou.

Canal 'Deu M'

Hoje, o canal 'Deu M' tem mais de 74 mil inscritos no YouTube e exibe produções próprias de filmes e séries focadas em histórias com protagonismo preto, LGBTQIA+ e periférico, com títulos como 'Você é Melhor Pra Mim', 'No Sigilo' e 'Raízes Perdidas'.

A decisão de produzir esse tipo de conteúdo, porém, nasceu de uma frustração. Victor fazia teatro na época e, apesar de ouvir elogios do professor, nunca ganhava os papéis de protagonista.

Ele ficava sempre por trás, num personagem secundário, num personagem que aparece só no segundo ato. Nunca era o personagem que aparecia na foto do cartaz. Ele pensou: 'Não vou ficar esperando, ficar frustrado tentando fazer testes e nunca passar, porque falam que pessoas pretas não vendem'.

Diante desse cenário, a solução foi reunir amigos pretos que passavam pela mesma situação e produzir suas próprias histórias. A produção que viralizou no canal, 'Você é Melhor Pra Mim', teve três temporadas de série e, segundo Victor, marcou uma geração de adolescentes LGBTQIA+ periféricos que não se viam representados.

Em seguida veio 'No Sigilo', um longa-metragem que passou de dois milhões de visualizações e foi premiado em festivais de audiovisual LGBTQIA+.

Publicidades no Instagram

Para além do canal, Victor sempre cultivou o perfil pessoal. Foi ali que começou a falar sobre identidade e cuidado com cabelo black, ensinando meninos pretos a deixar o cabelo crescer naturalmente. Rompendo, segundo ele, o paradigma de que homens negros precisam sempre ter cabelo raspado.

Com o tempo, o foco do perfil pessoal mudou. Atualmente, com 16.800 seguidores no Instagram, Victor tem falado sobre saúde, especialmente com alerta sobre tuberculose, doença associada a condições frequentes em muitas favelas, como moradias pequenas e pouco ventiladas.

Infelizmente, a favela não tem essa estrutura de saneamento básico, de estrutura de casas. São muitas casas coladas umas nas outras, explica.

Além da saúde, Victor fala sobre moda consciente com brechó e troca de peças entre amigos e autocuidado. E mesmo com temas delicados no feed, as marcas chegaram. Ele conta que já fez inúmeras publicidades pelas redes.

As mais relevantes foram para Unicarioca, Nivea, que foi o melhor pagamento de todos, e L'Oréal, quando ele tinha cabelo grande.

O retorno financeiro mais expressivo veio de outra fonte. Ao entrar no programa Vozes Negras, do YouTube, Victor conta que o canal recebeu um apoio em dinheiro, que permitiu trocar todo o equipamento de produção.

Ele conseguiu investir e fazer da criação de conteúdo uma grande aliada no seu trabalho atualmente.

Produtora periférica

Foi justamente essa experiência acumulada com o canal e com as publicidades que abriu caminho para algo maior. Hoje, a fonte de renda principal de Victor é a Web Cine Produções, empresa audiovisual que toca ao lado do namorado, Luiz Guilherme, de 28 anos.

Victor chegou a trabalhar numa agência que atendia a Warner Music, mas quando os trabalhos próprios começaram a se acumular, decidiu sair para tocar o negócio. O estúdio fica na própria comunidade da Primavera, em Cavalcante.

Entre os clientes estão nomes importantes do carnaval, como as rainhas de bateria Evelyn Bastos, da Mangueira, Bianca Monteiro, da Portela, e Mayara Lima, do Tuiuti, além de médicas, dentistas, lojas de roupa e trabalhos institucionais. A produtora também atende criadores digitais de favelas, com condições facilitadas.

Eles fazem pacotes de produção de conteúdo para facilitar o pagamento desses criadores, explica Victor. Muitas marcas não olham para criadores de conteúdo periféricos, principalmente sendo preto e LGBTQIA+. Dentro da favela, a gente também consegue fazer conteúdo de boa qualidade e com responsabilidade.

De Brasília pro Dendezinho

Se Victor encontrou nas redes o caminho para montar uma empresa, o outro sócio do canal 'Deu M' trilhou uma rota diferente, mas também já faz a internet render. Carlos Matheus, de 34 anos, é cria do Dendezinho, em Engenheiro Leal. Nascido em Brasília, ele veio para o Rio ainda criança com a mãe, Glória Maria Matheus, e o irmão, Ismael Carlos Moreira.

O pai de Carlos havia falecido quando ele tinha apenas um ano e meio. Para criar os dois filhos sozinha, a mãe trabalhou numa fábrica de salgados, fez limpeza em casas de família e ainda pegou serviço numa academia antes de se aposentar.

A vida no Dendezinho, porém, começou a ficar insustentável. Aos 14 anos de Carlos, quando a violência na região cresceu, a mãe tomou uma decisão. A família voltou para o entorno de Goiás.

Carlos ficou lá durante toda a adolescência. Começou a trabalhar cedo, aos 16 anos, no McDonald's. E aos 18, ao terminar o ensino médio, resolveu enfrentar algo que estava mal resolvido desde os 12, quando uma trupe de teatro visitou a escola dele. Foi quando ele decidiu tirar um ano para experimentar as artes cênicas. Quando pisou no palco pela primeira vez, soube o que queria.

Carlos se formou em teatro por uma faculdade particular em Brasília, paga com o salário de garçom num hotel, onde começou como auxiliar de serviços gerais e foi promovido até virar host do restaurante principal. Com o mesmo dinheiro, pagou carteira de motorista e curso de inglês. Juntou o que pôde e, em 2018, voltou ao Rio sozinho, com a ideia de complementar os estudos na área de audiovisual.

Início da produção na web

A volta, porém, não foi para a Zona Norte que ele conhecia da infância. Uma amiga de faculdade, de família de classe média alta, vinha para o Rio na mesma época, e os pais dela ofereceram que Carlos morasse junto, sem pagar aluguel, num apartamento na Barra da Tijuca. Ele aceitou e caiu no que descreve como um filme de terror.

Foi o lugar que ele entendeu, de fato, o que é racismo, na sua forma mais violenta. Ele não queria sair de casa. Eles moravam num condomínio, e tinha um mercado de frutas acoplado. Ele não queria ir lá, porque parecia que ele era uma atração. As pessoas olhavam assustadas. Era muito violento.

O desconforto só passou quando Carlos saiu da Barra e foi morar com uma tia em Realengo. A diferença foi imediata.

Ele foi na rua um dia comprar alguma coisa num mercadinho e ele só era mais uma pessoa na rua. Ele não se sentia estranho.

Com mais conforto para circular, Carlos começou a usar o Instagram, mas sem grande pretensão. Postava roupas, cursos e questionamentos sociais. Ele mesmo reconhece que o perfil não tinha narrativa definida. Essa fase durou até o Big Brother Brasil entrar na sua vida.

Nas edições de 2023 e 2024, Carlos passou a comentar o programa pelo recorte racial, e as coisas começaram a mudar.

Depois começou a chegar uma galera que falava: 'Ainda bem que eu te encontrei. Todo mundo que eu confio na opinião está falando outra coisa'.

Após o BBB 24, ele parou de falar sobre o programa e investiu no que define como seu conteúdo: pertencimento e afetividade preta. Hoje, seu perfil no Instagram soma 72.400 seguidores.

Gerando dinheiro com a rede

A monetização nas redes é recente: somente neste ano ele já fechou cerca de três publicidades, além de uma palestra a convite do Sesc, sobre afeto preto.

É recente, mas já é regular. Ele faz publicidades e palestras. É um negócio que está construindo para criar um portfólio.

Carlos também trabalha como analista de engajamento no Pacto Global da ONU, órgão que atua com sustentabilidade junto à iniciativa privada. Segundo ele, ter essa renda fixa é justamente o que garante liberdade criativa para falar o que quiser sem depender do algoritmo.

Ele tem planos de conseguir monetizar de alguma maneira, mas não transformando a sua rede no seu ganha-pão.

Sonho de mãe virou conteúdo

O marco que Carlos não esperava e que melhor ilustra o que a rede pode render além de dinheiro aconteceu em 2025. Ele registrou a mãe sendo cumprimentada pela atriz Paolla Oliveira em um ensaio técnico na Marquês de Sapucaí.

Os dois chegaram cedo ao ensaio técnico e conseguiram ficar na frisa. A Portela se apresentou na frente deles, e Paolla e outros artistas pararam para cumprimentar só dona Glória.

Carlos gravou o momento, fez uma edição brincando que a mãe era a pessoa mais importante da Sapucaí e publicou. Quando voltou a olhar o celular, a Portela já tinha comentado a publicação.

A escola convidou dona Glória para desfilar no ensaio técnico seguinte. Na sequência, ela realizou o sonho de sair na avenida. A própria Portela reconheceu o momento com um vale-compras de R$ 5 mil. O dinheiro ajudou na mudança da família, que saiu de Campo Grande e foi morar a uma rua da quadra, em Madureira, justamente para que dona Glória pudesse ir e vir sozinha.

Eles precisam morar num lugar onde ela vai conseguir fazer as coisas sozinha, conta Carlos sobre a decisão de mudar.

Hoje, dona Glória da Portela, como é conhecida nas redes, tem mais de cinco mil seguidores no Instagram e continua sendo parada na rua.

Essa semana ela foi ao mercado, e um menino a reconheceu.