Com a facilidade do Pix, as apostas online se tornaram uma grande armadilha financeira para muitas pessoas. Mesmo com menos desemprego, a inadimplência não para de crescer. As bets (apostas) estão criando uma nova crise de dívidas, principalmente entre a classe C, que vê no jogo uma chance de mudar de vida. Entenda como isso funciona e o que pode ser feito.
Todo mundo se pergunta por que a inadimplência continua subindo mesmo quando o desemprego está baixo. O cartão de crédito é apontado como o grande vilão, sendo responsável por cerca de 60% das dívidas no Brasil. Mas será que ele está sozinho nessa história
Primeiro vem a ilusão de poder de compra, depois os juros altos que consomem a renda. Essa festa do descontrole é uma grande ilusão, já que o brasileiro tem, em média, cinco cartões de crédito diferentes. É aí que o risco de se afogar em dívidas fica escondido.
- Pix e bets viraram uma combinação perigosa: O Pix é usado em mais de 30% das transações financeiras do país, e as bets (sites de aposta) usam essa facilidade para criar um ciclo de recompensa rápida que vicia.
- Mais de 25 milhões de brasileiros apostam: Em 2025, o setor de apostas movimentou R$ 37 bilhões e tem cada vez mais gente tentando a sorte.
- Quase metade do país está com dívidas: De acordo com o Serasa, mais de 81 milhões de pessoas estão inadimplentes, ou seja, com o nome sujo.
- A classe C aposta para tentar sair do buraco: Muita gente vê nas apostas uma chance de ganhar dinheiro rápido e pagar contas, mas acaba se endividando ainda mais.
- Muitos não tinham dívidas antes de começar a apostar: Uma pesquisa mostrou que 57% das pessoas endividadas não tinham restrições no CPF antes de começarem a jogar.
O que os indicadores antigos estão demorando a perceber é uma grande mudança no comportamento do consumidor: as bets. Elas estão criando uma nova bola de neve no orçamento familiar e afetando a saúde mental dos apostadores, que podem desenvolver um vício chamado ludopatia. Por isso, bancos, escolas e até lojas precisam rever quem é o devedor no Brasil.
A ilusão do dinheiro fácil e a dopamina do Pix
O Pix é usado em mais de 30% das transações financeiras do país, superando os cartões de crédito e débito. Mas essa mesma facilidade de pagamento, combinada com a recompensa rápida e viciante dos sites de aposta, criou um ciclo de dopamina (uma substância do cérebro ligada ao prazer) que prende a pessoa.
A digitalização fez com que o jogo passasse a morar no bolso do brasileiro, a um clique de distância. E o resultado disso Segundo uma pesquisa, em 2025 o setor movimentou R$ 37 bilhões, alcançou mais de 25 milhões de apostadores e investiu R$ 1,4 bilhão em propaganda. O efeito colateral é que quase metade da população (49,7%) está inadimplente, ou seja, mais de 81 milhões de pessoas com o nome sujo, de acordo com o Serasa.
O impacto social no Brasil
O problema deixou de ser só a oferta de crédito. Ele se tornou estrutural e social. A classe C passou a ver as bets como uma forma de mudar de classe social ou sair das dificuldades financeiras.
O Serasa pesquisou e descobriu que 44% das pessoas apostaram como uma tentativa desesperada de ganhar dinheiro para pagar dívidas. Por outro lado, 57% dos endividados não tinham restrições no CPF antes de começar a jogar. Fica claro que, quando a sobrevivência vira jogo, a dignidade é a primeira coisa a desaparecer.
Eu sempre defendo a ideia de que ninguém deve porque quer. Quem deve de propósito tem outro nome. A grande maioria das pessoas fica inadimplente por falta de condições, desorganização ou, como vemos agora, por armadilhas do comportamento.
Muita gente fala sobre educação financeira. Mas tentar educar alguém no momento em que a pessoa já está em desespero não funciona; afinal, você não ensina alguém a nadar enquanto a pessoa está se afogando.
O próximo grande foco de atenção
A busca por dinheiro rápido impacta diretamente no poder de consumo, na capacidade de pagamento e até no orçamento da saúde pública. É hora do mercado acordar e adotar uma nova estratégia. Afinal, a inadimplência atual, impulsionada pelas bets, não se resolve ajustando taxas de juros ou usando robôs de atendimento comuns.
Não quero ditar uma solução única, mas sugerir alguns passos:
1º passo: Reconhecer que bet não é apenas entretenimento e mapear os diferentes tipos de devedores para adaptar a abordagem.
2º passo: Atualizar as ferramentas de relacionamento e buscar tecnologias conversacionais com inteligência artificial que sejam profundamente analíticas, principalmente quanto ao comportamento.
Temos um fato que todo líder concorda: a nova abordagem de cobrança exige dados atualizados e um diálogo com mais qualidade. Nesse contexto, a verdadeira inovação é preservar o vínculo com o cliente, em vez de constrangê-lo ainda mais.
É sempre bom lembrar: conversar com qualidade é construir uma ponte enquanto se caminha sobre ela.

Thiago Oliveira, CEO e fundador da Monest


