Saiba como a tecnologia usada nos campos de futebol da Copa do Mundo pode ajudar o agronegócio brasileiro a depender menos de fertilizantes importados. O artigo mostra que os mesmos cuidados com o solo e as plantas nos estádios também são aplicados nas lavouras, e destaca uma nova lei que pode impulsionar a produção nacional de adubos.
Na maior Copa do Mundo de todos os tempos a que estamos assistindo, os gramados, organismos tão vivos quanto os atletas, também são protagonistas, pois têm impacto direto no desempenho dos times, na velocidade do jogo, na rolagem da bola e na redução do risco de lesões.
O que pouca gente lembra é que, para isso, há um trabalho técnico sofisticado, conduzido por engenheiros agrônomos especializados em manejo agrícola, fertilização e nutrição vegetal. As mesmas tecnologias utilizadas em sistemas agrícolas de alta produtividade hoje também são aplicadas na preparação dos melhores campos de futebol.
- Gramados de estádios usam as mesmas técnicas de agricultura de ponta, como fertilização e irrigação de precisão.
- O Brasil importa 85% dos fertilizantes que consome, o que gera grande dependência de outros países.
- Uma nova lei, chamada Profert, quer incentivar a produção nacional de adubos e o uso de bioinsumos.
- Bioinsumos são adubos naturais, feitos com bactérias, algas e restos de plantas, que melhoram o solo sem agredir o meio ambiente.
- A tecnologia usada nos gramados pode servir de exemplo para reduzir a dependência de fertilizantes importados no campo.
A ciência por trás dos gramados
A evolução dos gramados nas últimas décadas ajudou a explicar parte da evolução tática do esporte e da performance das equipes. A fertilização deixou de ser uma atividade secundária e passou a ocupar papel estratégico na sua preparação.
O manejo deve ser contínuo e envolver a combinação de adubos granulados e líquidos, além do equilíbrio rigoroso entre nitrogênio, fósforo e potássio (NPK), para fortalecer a grama, estimular o crescimento uniforme e manter o padrão visual exigido pelas competições internacionais.
Outro aspecto que vem ganhando espaço é o uso de compostos orgânicos, bioestimulantes, aminoácidos, extratos de algas e condicionadores de solo. Esses insumos ajudam os gramados a suportarem calor excessivo, uso intenso, deficiência hídrica e o desgaste provocado por partidas sucessivas. Também contribuem para melhorar as condições físicas, químicas e biológicas do solo.
A construção dos campos
A própria construção dos campos segue critérios rigorosos da engenharia agronômica. Nos grandes estádios, é comum a utilização do chamado topsoil, uma composição de areia e matéria orgânica desenvolvida para garantir drenagem eficiente, infiltração adequada da água e desenvolvimento saudável das raízes.
O equilíbrio entre retenção de nutrientes e escoamento da água é decisivo para manter a estabilidade do piso. Também é relevante o aspecto ambiental presente na gestão dos campos, com o uso de bioinsumos e adubos provenientes da compostagem de materiais orgânicos.
Lições para o agronegócio brasileiro
O exemplo dos gramados da Copa do Mundo nos remete a um fator impactante para o agro brasileiro, que, assim como as derrotas de um time, tem causado fortes emoções aos produtores: a importação de 85% do total consumido de fertilizantes minerais.
Tamanha dependência aflige ainda mais os campos rurais, como um pênalti contra nossa seleção, no presente cenário de guerras envolvendo nações produtoras, dificuldades logísticas e atitudes como a da China, de restringir suas exportações de adubos, e da Rússia, de proibir o transporte do insumo enxofre para o Cazaquistão fabricar o MAP (Fosfato Monoamônico), rico em nitrogênio e fósforo.
Por isso, esperamos que a Lei 699/2023, que institui o Profert (Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes), aprovada pela Câmara dos Deputados em maio último, seja rapidamente votada no Senado e receba sanção presidencial.
É um avanço, pois, dentre outras medidas, cria um fundo de apoio à produção nacional, institui mistura percentual obrigatória de insumos brasileiros nos compostos comercializados em nosso território e estimula a produção no País dos adubos minerais.
Também é muito significativo o fato de que preveja o fomento e ampliação do uso de bioinsumos, biofertilizantes e mineralizadores, cuja eficácia pode ser comprovada na qualidade dos melhores gramados do futebol mundial.
Bioinsumos: a solução natural
Dentre as tecnologias de bioinsumos, destacam-se: bactérias fixadoras de nitrogênio, que reduzem sua aplicação de 80 quilos por hectare para apenas 20 no plantio da soja; digestato, produzido a partir da digestão anaeróbica da matéria orgânica, que tem alto teor de NPK; e mineralizadores, também conhecidos como pó de rocha ou rocha moída, utilizados na revitalização do solo.
Há, também, o micro-organismo rizóbio, a bactéria do bem, muito eficiente na cultura da soja para a fixação biológica de nitrogênio, que permite substituir totalmente a adubação nitrogenada química.
Nas lavouras da cana-de-açúcar, usamos a torta de filtro, rica em fósforo, potássio e nitrogênio, e a vinhaça, abundante em potássio. Há, ainda, a cama de frango, adubo orgânico de alto valor, composto pelos dejetos das aves.
Tudo isso evidencia como a agronomia extrapola os limites do setor rural. Ademais, do mesmo modo que, na Fórmula 1, a tecnologia testada nas pistas é depois aplicada na indústria automotiva, também podemos aproveitar o aprendizado referente aos gramados para turbinar a adubação e reduzir a dependência de fertilizantes importados.
Afinal, quando um passe sai perfeito e a bola desliza livre, leve e solta pelo gramado, existe ali algo além das jogadas de efeito, dos passes de três dedos, dos dribles desconcertantes e do talento esportivo.
Há uma competente atividade profissional, ciência, tecnologia, nutrição do solo e bioinsumos que ajudam a consolidar o futebol como esporte mais amado do planeta e a colocar o agronegócio brasileiro no pódio global da segurança alimentar e das commodities agrícolas.

João Guilherme Sabino Ometto


