02 de julho de 2026

?? ºC São Paulo - SP
?? ºC Salvador - BA
?? ºC Cuiabá - MT

Cazé TV mostra falha nas regras de propaganda de apostas no Brasil

Economia Apostas 02/07/2026 09:42 Alice Rodrigues - Agência Brasil agenciabrasil.ebc.com.br

Uma investigação do governo descobriu que a Cazé TV, durante a Copa do Mundo, misturou informações sobre o jogo com propagandas de apostas, o que é proibido para outros meios de comunicação. Especialistas explicam que isso acontece porque as regras para internet são mais fracas, colocando em risco a saúde financeira das pessoas.

A investigação aberta pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) para apurar irregularidades na divulgação de apostas esportivas durante a transmissão da Cazé TV, nos jogos da Copa do Mundo de 2026, reacendeu o debate entre especialistas sobre os limites entre conteúdo jornalístico, entretenimento e propaganda em plataformas digitais.

  • Durante a Copa, narradores da Cazé TV recomendaram odds, que são as chances de um resultado acontecer, como se fosse um palpite comum.
  • Em 61% dos jogos analisados, a previsão dos narradores não se confirmou, mostrando que a dica não era garantia de acerto.
  • O interesse por bets no Brasil cresceu 496% nos últimos cinco anos, e o setor lucrou R$ 37 bilhões em 2025.
  • A Cazé TV é a única plataforma que transmite todos os 104 jogos da Copa, misturando entretenimento com propaganda de apostas.
  • Dois projetos de lei no Congresso querem proibir a propaganda de bets em todos os meios de comunicação, assim como já é feito com o cigarro.

A Cazé TV se tornou uma das principais plataformas de transmissão da Copa e passou a disputar espaço com emissoras tradicionais. O canal assumiu o protagonismo na cobertura esportiva nacional e é a única plataforma que vai transmitir todos os 104 jogos da competição.

Na última quinta-feira (25), a empresa foi citada em uma investigação da Senacon, órgão do Ministério da Justiça, para averiguar ilegalidades na propaganda de apostas esportivas, as chamadas bets. A investigação reacendeu o debate entre especialistas sobre os limites entre informação, entretenimento e responsabilidade social.

Durante as transmissões e pré-jogos, narradores do canal recomendaram odds, indicadores das probabilidades e do retorno potencial das apostas, indicando que determinados resultados eram prováveis. Dicas de como e em quem apostar também eram passadas na tela.

Um levantamento feito pelo portal ICL Notícias monitorou 48 partidas transmitidas pela Cazé TV e identificou 74 sugestões de apostas. Em 61% dos casos, o resultado previsto não se confirmou. As ofertas eram feitas por três bets que aparecem na lista de anunciantes da Cazé TV durante a Copa: Bet365, Betnacional e KTO.

Propaganda de apostas

Empresas de aposta esportiva se tornaram a segunda maior categoria anunciante durante a Copa, atrás apenas do setor de alimentos e bebidas. Nas transmissões oficiais, compartilhadas entre Rede Globo, Cazé TV e SBT, todas contam com empresas de bet no quadro de anunciantes.

Para o professor Anderson Santos, da Universidade Federal do Alagoas, a diferença da Cazé TV está no estilo de transmissão. Esse formato em que informação, entretenimento e merchandising circulam dentro da mesma chamada combina bem para marcas de consumo comum, mas representa um limite mais sensível quando envolve apostas esportivas.

Essa tentativa de interagir como algo natural com a mercadoria eles conseguem fazer bem, mas caíram no problema sério porque aposta esportiva é um problema de saúde coletiva, de saúde financeira, corpo físico e mental. E transformar isso como algo do dia a dia é extremamente perigoso, disse Santos.

Janaine Aires, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta que, com regras mais rígidas de propaganda nos veículos tradicionais, a internet acaba se tornando um terreno fértil, uma zona cinzenta a ser explorada.

Segundo ela, na televisão aberta, a propaganda é um bloco separado do conteúdo editorial, já o modelo de transmissão da Cazé TV integrou as duas coisas. O formato expõe uma lacuna dos órgãos de fiscalização, que ainda estão entendendo como lidar com formatos digitais e abre espaço para uma investida mais agressiva das marcas.

Diante da possibilidade de uma brecha, há uma migração para uma nova plataforma que não responde às regras impostas para o contexto tradicional. E aí os investidores, os financiadores, criam suas próprias regras até que, de alguma forma, existe algum tipo de freio para que as coisas não saiam do rumo, explicou.

De acordo com um estudo de junho da Agência Macfor, que acompanhou as buscas pelo termo bet antes da Copa do Mundo, foram registradas mais de 18 milhões de buscas no país. O levantamento também indica que seis em cada dez brasileiros pretendiam apostar. Nos últimos cinco anos, o interesse por bets subiu 496% no Brasil.

Dados do Ministério da Fazenda apontam que o setor teve um lucro bruto de R$ 37 bilhões em 2025. Em comparação com outros países, o interesse caiu 19,6% no Reino Unido, 53% em Portugal e 12,6% na Espanha. Na Argentina, avançou 268,8%, apurou a Agência Macfor.

Cazé TV

A Cazé TV foi fundada em 2022 por meio de uma parceria entre a empresa LiveMode, com mais de 20 anos de experiência no mercado de direitos de transmissão, e o streamer Casimiro Miguel, que ganhou fama fazendo lives descontraídas durante a pandemia de Covid-19.

A parceria ganhou força com a aprovação da Lei do Mandante em 2021, que deu aos clubes de futebol liberdade para negociar as transmissões dos jogos e enfraqueceu o monopólio da Rede Globo. Na Copa do Mundo de 2022, o canal fechou um pacote de transmissão de 22 jogos com a Federação Internacional de Futebol (Fifa).

Anderson Santos classifica esse estilo como uma cobertura esportiva voltada ao entretenimento, onde a preocupação é gerar engajamento, e não necessariamente jornalismo esportivo.

Você tem uma liberdade de conteúdo maior, e isso de vez em quando gera alguns problemas a partir dos comentários. Então, a gente está vendo em casa, no celular, como se estivesse encontrando os amigos numa mesa de bar para comentar do jogo.

Santos defende que é um erro pensar nessa reorganização como o fim da televisão tradicional, que ainda tem maior alcance no país. Ele acredita que o consumo vai continuar estável, com pequenas mudanças para atender o público.

Por conta mesmo do que virou o nosso ritmo de vida, especialmente depois da pandemia, a gente precisa estar em diferentes telas, trabalhando e fazendo outra coisa, trazendo essa flexibilidade do consumo.

Janaine Aires enxerga nesse modelo, onde as linhas entre informação e entretenimento são mais confusas, uma saída segura para o estilo adotado pela Cazé TV. E também uma tendência de desvalorização do mercado profissional.

O profissional do entretenimento é mais barato que o profissional do jornalismo. Fazer jornalismo é mais caro. Então dizer que não faz também é uma forma de precarizar, porque se eles dissessem que fazem jornalismo, teriam que obedecer às regras sindicais.

Regulamentação

Atualmente, dois projetos sobre o assunto estão em andamento: o PL 2.478/2026 na Câmara dos Deputados e o PL 2.470/2026 no Senado. Ambos com a mesma proposta de proibir propaganda e patrocínio de empresas de apostas esportivas em diferentes meios de comunicação e eventos no país. A proposta é da Frente Parlamentar Mista para a Promoção da Saúde Mental.

Janaine Aires faz uma comparação com o que ocorreu com a indústria do cigarro, cuja propaganda é proibida. Mas alerta como o patrocínio das empresas de bet em vários setores do país pode dificultar essas ações.

Se eu tenho uma empresa jornalística que é patrocinada por bet, e isso já é uma realidade no país, então essa discussão não vai ser tratada no jornalismo. Quando a gente traz essa informação, pesquisas já apontam que o próximo congresso vai somar mais um B aos Bs que a gente já tem, que é o boi, a bala, a Bíblia e agora a Bet. Então o cenário da democracia brasileira de alguma maneira está em risco, finalizou.