A revista The Economist, uma das mais importantes do mundo, diz que, para entender o futuro do Brasil, é preciso olhar para Mato Grosso. O estado virou uma potência na produção de alimentos, usa tecnologia de ponta no campo e atrai gente, negócios e dinheiro. Mas também enfrenta desafios, como melhorar estradas e ferrovias e cuidar do meio ambiente. Será que o centro do crescimento brasileiro está se mudando do litoral para o interior?
A edição desta semana da revista The Economist traz uma provocação que desafia a visão tradicional sobre o desenvolvimento brasileiro. Em reportagem publicada em 16 de junho de 2026, a revista afirma que quem deseja enxergar o futuro do Brasil deveria visitar Mato Grosso.
A tese é ousada. Durante grande parte do século XX, o centro de gravidade da economia brasileira esteve concentrado no eixo Rio-São Paulo. Hoje, porém, a publicação sugere que algumas das transformações mais importantes do país estão ocorrendo no interior do Brasil, especialmente em Mato Grosso, estado que se tornou uma potência global na produção de alimentos.
- Mato Grosso produz cerca de 30% de toda a soja do Brasil e lidera a produção de milho e algodão.
- O estado tem um rebanho bovino com mais de 30 milhões de cabeças de gado.
- O agronegócio representa mais da metade de toda a riqueza gerada em Mato Grosso.
- A agricultura local usa máquinas que se guiam sozinhas, satélites e inteligência artificial.
- Cidades como Sorriso e Lucas do Rio Verde estão crescendo rápido e atraindo novos moradores e investimentos.
Os números ajudam a explicar essa conclusão. Mato Grosso responde por aproximadamente 30% da produção nacional de soja, lidera a produção brasileira de milho e algodão e possui um rebanho bovino superior a 30 milhões de cabeças. O agronegócio representa mais de 50% do PIB estadual e impulsiona uma economia que cresce acima da média nacional há vários anos.
A reportagem destaca ainda outro aspecto frequentemente ignorado nos debates nacionais: a incorporação de tecnologia. A agricultura mato-grossense opera com máquinas autônomas, sistemas de georreferenciamento, monitoramento por satélite, inteligência artificial e agricultura de precisão. Em muitas propriedades rurais, a tecnologia empregada rivaliza com a utilizada nos países mais desenvolvidos do mundo.
Outro fator relevante é a dinâmica demográfica. Enquanto diversas regiões brasileiras enfrentam envelhecimento populacional e baixo crescimento econômico, cidades do interior de Mato Grosso continuam atraindo trabalhadores, empreendedores e investimentos. Municípios como Sorriso, Lucas do Rio Verde e Primavera do Leste tornaram-se símbolos de uma nova fronteira de prosperidade.
Mas a matéria não ignora os desafios. O rápido crescimento pressiona a infraestrutura logística, exige investimentos em rodovias, ferrovias e armazenagem, além de intensificar o debate sobre sustentabilidade ambiental. A questão central é saber se o Brasil conseguirá transformar esse dinamismo regional em uma estratégia nacional de desenvolvimento.
O ponto mais interessante da análise da The Economist talvez seja a pergunta implícita que ela lança aos brasileiros: o futuro do país continuará sendo pensado a partir dos grandes centros urbanos do litoral ou já está sendo construído no coração do agronegócio, da tecnologia e da produção de alimentos
Se a revista estiver correta, Mato Grosso não é apenas um caso de sucesso regional. É um retrato antecipado das forças econômicas que poderão definir o Brasil nas próximas décadas.
Como mato-grossense por adoção, pelos laços afetivos que construí com essa terra através de minha esposa Silvia Rocha Pinheiro, acompanho com especial interesse a extraordinária transformação econômica do estado. E, como economista, considero que a provocação da The Economist merece reflexão. Afinal, quando uma das mais influentes revistas do mundo aponta Mato Grosso como uma janela para compreender o futuro do Brasil, não está apenas reconhecendo o sucesso do agronegócio. Está sinalizando que os novos vetores de crescimento, inovação e competitividade do país podem estar emergindo longe dos centros econômicos tradicionais. Talvez o Brasil do futuro já esteja sendo construído no coração do Centro-Oeste.
Antônio Augusto Pinheiro – Economista especialista em liquidação, Ex-chefe adjunto do Banco Central do Brasil e servidor aposentado

Antônio Augusto Pinheiro


