Com juros altos e crédito caro, muitas empresas estão descobrindo que o maior desperdício de dinheiro está dentro da própria operação, em estoques excessivos, processos ineficientes e falta de planejamento. Uma pesquisa mostra que 80% das indústrias reclamam do acesso ao crédito, mas especialistas afirmam que resolver problemas internos pode liberar recursos sem precisar de empréstimos.
Com a taxa Selic em patamar elevado e o crédito mais caro para as empresas, a busca por dinheiro disponível se tornou prioridade para empresários brasileiros. Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que 80% das indústrias reclamam das dificuldades para conseguir crédito e investir.
Ao mesmo tempo, os juros para empresas continuam altos, pesando no bolso de quem depende de capital de fora.
- 80% das indústrias brasileiras têm dificuldade para conseguir crédito e investir.
- O custo do crédito para empresas ainda está muito alto no Brasil.
- Muitas empresas perdem dinheiro com estoques parados, retrabalho e falhas operacionais.
- Especialista diz que dinheiro preso dentro da operação pode ser maior que o impacto dos juros.
- Resolver problemas internos pode liberar recursos sem precisar de novos empréstimos.
Murillo Oliveira, especialista em finanças internacionais e diretor da empresa Saygo, explica que muitas companhias estão tão preocupadas em conseguir financiamento que esquecem de olhar para o dinheiro que perdem dentro da própria empresa. "Existe uma preocupação com juros, crédito e câmbio, mas poucas empresas calculam quanto dinheiro está sendo perdido com estoques excessivos, retrabalho e falta de planejamento. Em muitos casos, esse custo invisível é maior do que o impacto do financiamento bancário", afirma.
O dinheiro que fica preso dentro da empresa
Muitas pessoas pensam que a falta de dinheiro vem de fatores externos, como juros e inflação. Mas especialistas alertam que uma parte importante da perda de liquidez está ligada a decisões tomadas dentro da própria organização.
Segundo o especialista, é comum ver empresas que pegam empréstimos para pagar contas enquanto têm dinheiro parado em estoques desnecessários, processos burocráticos ou ciclos financeiros mal planejados. "Muitas organizações recorrem ao crédito para resolver problemas que nasceram dentro da operação. Quando isso acontece, elas passam a pagar juros por uma ineficiência que poderia ter sido evitada com gestão, planejamento e acompanhamento de indicadores", explica.
Na prática, isso significa que recursos que poderiam ser usados para crescer, inovar ou ganhar competitividade acabam perdidos em desperdícios que raramente recebem atenção dos chefes.
Capital travado aumenta dependência financeira
O problema fica ainda maior em setores que trabalham com cadeias de suprimentos complexas, importação, exportação, indústria e distribuição. Nessas áreas, qualquer atraso logístico, erro de planejamento ou excesso de estoque pode consumir milhões de reais em dinheiro que poderia estar disponível.
O profissional observa que muitas empresas acompanham indicadores comerciais com frequência, mas não monitoram direito o ciclo financeiro da operação. "Existe uma obsessão por faturamento, mas pouca atenção à velocidade com que o dinheiro volta para o caixa. Uma empresa pode vender mais e ainda assim enfrentar dificuldades financeiras se os recursos continuam presos ao longo da operação", afirma.
O executivo destaca que compras feitas sem planejamento, recebimentos demorados e falta de integração entre áreas como financeiro, logística, compras e operações costumam aumentar a necessidade de capital externo. "Quando cada departamento toma decisões sozinho, o resultado aparece no caixa. Uma compra feita no momento errado ou um estoque superdimensionado pode gerar um impacto financeiro muito maior do que uma variação pontual do câmbio ou dos juros."
Eficiência operacional virou estratégia financeira
O aumento do custo do dinheiro está fazendo as empresas olharem com mais atenção para eficiência operacional, produtividade e gestão financeira integrada. O objetivo é reduzir a dependência de crédito e liberar recursos que já existem dentro da própria estrutura.
Para Murillo, as empresas que conseguem crescer com mais consistência são aquelas que enxergam a operação como uma ferramenta de geração de caixa e não apenas de execução. "Hoje, a competitividade não depende apenas de vender mais. Depende de transformar recursos em resultado com mais velocidade, reduzir desperdícios e aumentar a previsibilidade financeira. A eficiência operacional deixou de ser apenas uma questão de produtividade e passou a ser uma estratégia financeira."
Essa mudança de mentalidade também tem impulsionado investimentos em tecnologia, automação e inteligência de dados. Ferramentas capazes de integrar informações financeiras, logísticas e operacionais ajudam gestores a identificar gargalos antes que eles se transformem em problemas de liquidez.
A liquidez do futuro começa dentro da operação
Na avaliação dele, o ambiente econômico continuará exigindo disciplina financeira das empresas nos próximos anos. Por isso, a capacidade de identificar capital travado e corrigir ineficiências tende a se tornar um diferencial competitivo cada vez mais relevante. "Muitas empresas procuram dinheiro fora quando a primeira oportunidade está dentro da própria operação. Antes de buscar uma nova linha de crédito, vale analisar quanto capital está parado em processos ineficientes, estoques desnecessários ou falhas de gestão. Em muitos casos, essa resposta muda completamente a saúde financeira do negócio", conclui.

Carolina Lara - Lara Comunicação


