30 de junho de 2026

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Reciclável não é reciclado: entenda a diferença que importa

Economia Reciclagem 30/06/2026 10:42 Luiz Grilo, Diretor Institucional e Novos Negócios da Yattó

O Brasil tem o melhor índice de reciclagem de latinhas do mundo, mas menos de 9% do lixo total é reaproveitado. Entenda por que reciclável não é o mesmo que reciclado e como isso afeta empresas e o meio ambiente.

Uma embalagem reciclável é tecnicamente apta a ser reprocessada. Uma embalagem reciclada, de fato, percorreu toda a cadeia: foi coletada, triada, processada e virou matéria-prima nova. A diferença parece semântica, mas não é. É o eixo em que a economia circular brasileira está hoje.

  • O Brasil recicla 97,3% das latinhas de alumínio, mas menos de 9% de todo o lixo urbano.
  • 40% do material que chega a cooperativas volta para aterros.
  • Material reciclado paga mais impostos que o plástico novo.
  • Muitas embalagens modernas não podem ser recicladas nas máquinas disponíveis.
  • A latinha é reciclada porque dá lucro, não por consciência ambiental.

O Brasil recicla 97,3% das latinhas de alumínio que consome, há 16 anos consecutivos acima de 96%, segundo a Recicla Latas. No mesmo país, menos de 9% do total de resíduos sólidos urbanos é efetivamente reaproveitado, conforme a Abrema. E 40% do material que chega a uma cooperativa de catadores volta para o aterro, segundo estudo da Yattó de 2025. Três números que sintetizam o problema: reciclável não é o mesmo que reciclado.

Falha de design econômico

O problema não é falta de consciência ambiental. É uma falha de design econômico em camadas. A primeira é tributária: o material reciclado é bitributado em relação à resina virgem. A segunda é de infraestrutura: a cadeia logística de retorno não fecha financeiramente fora dos grandes centros. A terceira é o equívoco de origem no produto. Muitas empresas migraram para embalagens flexíveis monomaterial reduziram plástico, cortaram custos. Ganhos reais. Mas chegam a cooperativas sem esteira adequada e vão para o aterro.

Créditos de compensação e o risco de atalho

Há ainda o mecanismo de crédito de compensação, legítimo como instrumento de financiamento, mas que em alguns casos virou atalho para quem quer o selo sem percorrer a rota. A meta de reciclagem subiu de 10% para 32%, e a taxa geral permanece estagnada abaixo de 9%. Os recursos circulam, o material não. Quem paga a conta é o município, e a própria cooperativa, que desconta esse custo do rendimento já mínimo.

Tecnologia como auditora, não como redenção

A tecnologia entra não como redenção, mas como auditora. O Brasil já tem dados para mapear quais materiais são efetivamente reciclados em quais municípios. Mas aplicar inteligência artificial onde catadores trabalham no chão batido, sem teto, é instalar software em empresas sem energia elétrica. A demanda mais urgente das cooperativas hoje não é IA: é piso, é teto, é esteira.

A latinha prova que o motor é o lucro

O caso da latinha prova que o Brasil sabe construir cadeias circulares eficientes, e que o motor não é consciência: é margem. A latinha tem 97,3% porque tem valor de mercado consolidado. Se a embalagem de salgadinho tivesse o mesmo valor, ninguém a deixaria no chão. Digitalizar a cadeia de resíduos, criar subsídios e endurecer as regras de comunicação nas embalagens são passos concretos. A questão é se vamos esperar a crise ou antecipar a transição.