29 de junho de 2026

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Moradia: Um passo à frente e outro para trás

Economia Habitação 29/06/2026 10:26 Anderson Lopes Morais (Diretor Comercial da BRZ Empreendimentos) - NB Press Comunicação

O governo mudou as regras do programa Minha Casa Minha Vida para ajudar mais famílias de classe média a comprar a casa própria. Mas, ao mesmo tempo, quer liberar o uso do FGTS para pagar dívidas, o que pode tirar dinheiro importante para a construção de novas moradias. Isso cria um problema: de um lado, mais pessoas podem tentar comprar casa, mas do outro, há menos recursos para construir. Além disso, muitas famílias estão muito endividadas, o que dificulta conseguir um financiamento.

O governo fez mudanças recentes no programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) para ajudar mais pessoas a terem sua casa própria. Mas, na prática, isso só beneficiou quem tem renda mais baixa dentro da classe média. Ao mesmo tempo, o governo quer autorizar o uso do FGTS para pagar dívidas, o que tira dinheiro importante para a construção de moradias. O resultado é uma política que não se sustenta.

  • O endividamento das famílias brasileiras está muito alto: 80,4% das famílias estão endividadas.
  • Isso significa que sete em cada dez brasileiros têm dívidas, muitas delas com juros altos, como no cartão de crédito.
  • Para piorar, cada família compromete, em média, 70,5% da sua renda para pagar essas dívidas.
  • Com tanto dinheiro indo para dívidas, sobra pouco para conseguir um financiamento imobiliário de longo prazo.
  • O governo quer usar dinheiro do FGTS para aliviar essas dívidas, mas isso pode impedir a construção de até 50 mil moradias.

Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, o nível de endividamento das famílias em março de 2026 chegou a 80,4%, o maior desde 2015. Ao mesmo tempo, o Brasil tem cerca de 70 milhões de pessoas com o nome sujo, de acordo com a Serasa Experian. O mais preocupante é que essas dívidas são de curto prazo e com juros muito altos, como as do cartão de crédito. Isso faz com que as famílias gastem até 70,5% da sua renda para pagar essas contas, restando pouco dinheiro para um financiamento de longo prazo, como o da casa própria.

O que mudou no Minha Casa Minha Vida

As novas regras do MCMV aumentaram as faixas de renda para famílias que podem participar do programa. Isso é bom porque reconhece que a classe média está com menos dinheiro. Por exemplo, famílias que antes estavam na Faixa 3 (renda de R$ 4.700,01 a R$ 5.000,00) agora podem pagar juros menores, de 5% a 7%. Já as que estavam na Faixa 4 (renda de R$ 8.600,01 a R$ 9.600,00) agora têm acesso a juros de 7,66% a 8,16%.

Mas o efeito é mais no papel do que na prática

O problema é que, ao mesmo tempo, o valor máximo dos imóveis financiados também aumentou. Mas isso não adianta muito, porque os juros continuam altos e a classe média está muito endividada. Na prática, aumenta o limite teórico de quanto se pode gastar em uma casa, mas não a capacidade real de pagar por ela.

E o FGTS

Paralelamente, o governo quer permitir que as pessoas usem o dinheiro do FGTS para pagar dívidas. Isso pode parecer um alívio, mas na verdade desvia recursos que são fundamentais para o financiamento da casa própria. Segundo a Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias), se o governo tirar cerca de R$ 7 bilhões do FGTS para isso, pode impedir a construção de até 50 mil moradias e afetar empregos e a economia como um todo. Nos últimos anos, mais de R$ 140 bilhões do FGTS já foram usados para outros fins, enfraquecendo o sistema de crédito imobiliário.

Duas políticas que se atrapalham

Fica claro que as duas medidas do governo não combinam. De um lado, ele tenta ampliar o acesso ao crédito mudando as regras do MCMV. De outro, ele reduz a capacidade de financiamento do sistema ao desviar recursos que são essenciais para a habitação. É como empurrar o carro para frente e puxar o freio de mão ao mesmo tempo.

Na prática, a única faixa que realmente se beneficiou foi a Faixa 2 do programa. As outras continuam enfrentando dificuldades. E com o alto endividamento das famílias e a possível redução dos recursos que sustentam o MCMV, o risco é que o crédito imobiliário não consiga crescer de forma consistente.

Mais do que criar limites maiores ou dar alívios temporários, o verdadeiro desafio é outro: é preciso equilibrar o acesso à moradia com a sustentabilidade do sistema que financia esse acesso. Se o governo não enfrentar o problema do endividamento das famílias e não proteger o papel do FGTS, qualquer avanço será parcial e, no máximo, temporário.