A Polícia Federal realizou uma operação nesta quinta-feira (25) contra suspeitos de fraudes contábeis na Americanas. Entre os alvos estão um dos maiores acionistas da empresa, o atual presidente do conselho e diretores de grandes bancos. A investigação apura crimes de manipulação de mercado e associação criminosa.
SÃO PAULO, SP - A Polícia Federal fez uma nova fase da operação Disclosure nesta quinta-feira (25). O alvo são pessoas que podem estar ligadas a fraudes contábeis na varejista Americanas.
- A Polícia Federal cumpre nove mandados de busca em São Paulo e no Rio de Janeiro.
- O Ministério Público Federal pediu o bloqueio de R$ 54 bilhões em bens dos investigados.
- As suspeitas são de fraudes em contratos com fornecedores e propaganda.
- Entre os alvos estão o acionista Beto Sicupira e o presidente do conselho Eduardo Saggioro Garcia.
- Diretores dos bancos Itaú, Bradesco e Santander também são investigados.
A Polícia Federal cumpre nove mandados de busca e apreensão nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Foram bloqueados, a pedido do Ministério Público Federal, R$ 54 bilhões em bens e valores dos investigados.
Segundo as investigações, os suspeitos teriam conhecimento das fraudes contábeis praticadas ao longo de anos. As fraudes estavam relacionadas a adiantamentos a fornecedores e a contratos de verba de propaganda cooperada (VPC) que não tinham lastro econômico. A PF aponta indícios dos crimes de manipulação de mercado e associação criminosa.
Dentre os alvos da operação estão um dos principais acionistas da Americanas, Beto Sicupira, e o atual presidente do conselho da empresa, Eduardo Saggioro Garcia. Além deles, diretores e ex-executivos dos bancos Itaú Unibanco, Bradesco e Santander.
Quem são os alvos da operação da PF
Carlos Alberto Veiga Sicupira - Conhecido como Beto Sicupira, está entre os 200 homens mais ricos do mundo. Ele é parceiro de investimentos de Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles na AB Inbev, a maior cervejaria do mundo, e na 3G Capital. Foi presidente do conselho da Americanas entre 1983 e 1991 e fez parte do conselho da empresa até 2024. Teve papel importante na recriação da marca da varejista.
Eduardo Saggioro Garcia - É membro e presidente do conselho de administração da Americanas. Também foi sócio administrador da LTS, empresa de investimentos criada por Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira. Formado em engenharia de produção pela UFRJ e mestre em engenharia de gestão pela Politécnica de Turim, é sócio-fundador da Visagio, de tecnologia, e fez parte do conselho da São Carlos Empreendimentos.
Paulo Alberto Lemann - Filho de Jorge Paulo Lemann. Foi integrante do conselho da Americanas de 2005 a 2024, onde também atuou como especialista financeiro nos comitês financeiro e de pessoas e sustentabilidade. Trabalhou na Andersen Consulting, Banco Marka e na Dynamo Asset. É fundador da Pollux Capital e da Vectis Partners, além de membro do conselho da AB Inbev.
Gustavo Balassiano - Foi superintendente do Unibanco até 2009, quando o banco foi comprado pelo Itaú. Tornou-se executivo do Itaú BBA, cargo que ocupou por 11 anos. Em 2020, foi para a XP Investimentos, onde atua como chefe do canal de atacado, área voltada a grandes empresas, governos e instituições financeiras.
Carlos Henrique Villela Pedras - É membro da diretoria do Bradesco, banco onde trabalha há 22 anos, e faz parte do conselho de administração da Alelo. Economista pela UFRJ, tem mestrado em economia financeira pela Universidade de Boston.
André Juaçaba de Almeida - É vice-presidente da área de corporate banking, voltada a atender médias e grandes empresas, instituições financeiras e governos, e diretor executivo do banco Santander. Ocupou cargos de gestão nos bancos americanos Goldman Sachs e Citibank.
Alexandre Lian Abdo - Há 16 anos no Santander, se apresenta no Linkedin como chefe do setor de indústria, aviação, logística e TMT (Tecnologia, Mídia e Telecomunicações).
José de Castro Araújo Rudge Filho - Há 20 anos no Itaú BBA, banco de investimentos do Itaú, foi diretor de corporate investment banking da instituição. Desde 2025, atua como co-head de infraestrutura e energia do banco.
O que dizem os envolvidos
Em nota, a Americanas informa que não foi alvo de mandados de busca na manhã desta quinta e que a Operação Disclosure se refere à fraude revelada em 2023. A companhia diz que seguirá colaborando com as investigações e é a maior interessada no esclarecimento dos fatos.
A LTS, holding do trio de bilionários Beto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles, os principais acionistas da Americanas, que também representa Paulo Alberto Lemann, informou em nota que "os acionistas de referência foram surpreendidos" pela operação de hoje. "As investigações conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal ao longo dos últimos anos, inclusive com base em acordos de colaboração premiada, indicam que o conselho de administração e os acionistas de referência foram continuamente enganados e induzidos a erro pela antiga diretoria da companhia", diz o texto. A nota informa que as defesas ainda não tiveram acesso à íntegra da decisão judicial que fundamentou a medida. "Os acionistas de referência entendem que a operação integra o curso regular das apurações em andamento e reiteram seu compromisso de colaborar plenamente com as autoridades competentes para o esclarecimento dos fatos, como vêm fazendo desde 11 de janeiro de 2023, quando tiveram conhecimento das fraudes contábeis".
O Santander informou, por meio da sua assessoria de imprensa, que "está ao lado das partes prejudicadas na apuração das fraudes envolvendo a Americanas e segue colaborando com as autoridades competentes, como tem feito desde o início das apurações".
O Itaú Unibanco, por sua vez, informou em nota que também "colabora ativamente com as autoridades desde 2023, prestando todas as informações sobre o caso Americanas". O banco diz ter sofrido perdas bilionárias com o episódio e que "já comprovou a lisura de sua conduta e da atuação de seus funcionários por meio de documentos apresentados à Justiça. Os registros deixam claro, por exemplo, que o Itaú recusou pedidos da antiga gestão da Americanas para alterar cartas de circularização de balanços".
Procurado, o Bradesco informou que "acompanha o caso e está à disposição das autoridades".

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