Um grupo de trabalho do governo federal, que está procurando fornecedores de fertilizantes no mundo todo, também recebeu um pedido da indústria para ajudar a pagar o enxofre usado na fabricação de adubos fosfatados.
A geopolítica é algo que sempre afeta o mercado de fertilizantes no mundo todo. Toda vez que acontece uma guerra ou um país grande decide algo sozinho sobre as matérias-primas desses produtos, os preços sobem e fica difícil ter certeza se vai ter produto suficiente. Isso tira o sono de empresas e agricultores.
Com a guerra no Irã, por exemplo, o preço do petróleo e seus derivados subiu. Além disso, a logística do setor virou um problema por causa do fechamento do Estreito de Ormuz.
- O preço do enxofre, usado para fazer ácido fosfórico, disparou por causa da guerra no Irã.
- O Brasil depende muito de fertilizantes importados, principalmente os nitrogenados (mais de 90%).
- A indústria brasileira de fosfatados está com dificuldade de produzir porque o enxofre está mais caro que o próprio fertilizante.
- O governo criou uma espécie de sala de crise para discutir como evitar a falta de fertilizantes para a próxima safra.
- Uma das ideias em discussão é usar dinheiro de um imposto sobre o frete marítimo para ajudar a indústria nacional de fosfatados.
Um dos efeitos foi a disparada no preço do enxofre. Esse produto é essencial para fazer o ácido fosfórico, que é a base dos principais fertilizantes fosfatados usados na agricultura do mundo todo, como o MAP e o SSP. O preço do enxofre, que antes da guerra era de US$ 100, está sendo oferecido hoje a US$ 1,2 mil para a indústria brasileira, segundo uma fonte do setor.
Dos três fertilizantes mais usados na agricultura, os fosfatados são o tipo em que o Brasil dependia menos de importação, cerca de 70%. Já nos nitrogenados, a dependência chega a mais de 90%. No ano passado, as entregas de fosfatados somaram 5,6 milhões de toneladas. A produção nacional foi de 1,7 milhão de toneladas, o que representa 30% da demanda do país.
A situação atual da produção
A tendência é que, com essa crise, o Brasil fique quase 100% dependente do fertilizante importado. A produção desses produtos no primeiro trimestre deste ano já caiu 8%, antes mesmo do maior efeito da guerra. Empresas importantes do setor, como a Mosaic, pararam de produzir porque ficou inviável comprar uma matéria-prima que chega a ficar mais cara que o produto final, por causa do desequilíbrio entre oferta e demanda.
O que o governo está fazendo
Por causa disso, o governo brasileiro montou uma espécie de gabinete de crise para discutir medidas que possam evitar a falta de fertilizantes para a safra 2026/2027. Uma das ideias que a indústria apresentou ao governo é criar um mecanismo que ajude a pagar o enxofre para as fábricas que produzem fertilizante fosfatado. O objetivo é impedir que mais unidades parem de funcionar.
O setor diz que outras áreas, como a de combustíveis, receberam incentivos para diminuir os efeitos da guerra. A indústria de fertilizante já tem alguns benefícios, mas seria preciso encontrar outras formas de ajudar as empresas agora. Uma possibilidade é usar o Profert, que é um projeto de lei que está no Congresso. Esse projeto prevê um fundo para incentivar a produção nacional. Mas a indústria tem medo de que novos impostos e taxas sejam criados para alimentar esse fundo, o que pioraria ainda mais a situação.
Outras ideias em discussão
Segundo fontes do setor, outra ideia em discussão tem a ver com o AFRMM, um imposto federal sobre o frete marítimo. Hoje, o dinheiro desse imposto vai para um fundo que cuida da infraestrutura da marinha. Uma proposta seria mudar o destino desse dinheiro e usá-lo para criar um fundo de apoio à produção nacional de fosfatados. Mas essas são apenas ideias que estão sendo levantadas pelo grupo.
O grupo do governo também está sendo pressionado a fazer uma busca emergencial por fertilizantes no mundo todo. As fontes ouvidas dizem que o Itamaraty, o BNDES, o Ministério de Minas e Energia e outras áreas do governo estão se esforçando para encontrar esses fornecedores. No entanto, a resposta de outros países tem sido que eles também não têm fertilizantes disponíveis, porque a oferta mundial está baixa e a demanda está alta.
Pode faltar fertilizante para a safra 2026/2027, que começa a ser plantada em setembro O risco existe, mas ninguém pode afirmar com certeza. Isso porque o preço está tão alto que muitos agricultores estão desistindo de comprar e podem reduzir a adubação. Por causa disso, ainda há um pouco de estoque disponível no mercado.

Alessandra Mello


