O mercado de venture capital está passando por uma grande transformação nos Estados Unidos. Grandes fundos, como Sequoia e Andreessen Horowitz, estão mudando a forma como operam. Eles querem mais liberdade para investir, menos burocracia e mais formas de devolver o dinheiro aos investidores, sem precisar esperar dez anos. Essa nova estratégia também abre caminho para mais liquidez e novas oportunidades. No Brasil, porém, a adaptação ainda é lenta e enfrenta barreiras legais.
O mercado de venture capital está mudando. Não é uma crise nem uma moda passageira, mas uma adaptação necessária a um cenário econômico que já não funciona mais como há dez anos.
- O modelo tradicional de venture capital não atende mais às necessidades atuais do mercado.
- Grandes fundos americanos estão trocando o formato antigo por estruturas mais flexíveis e permanentes.
- Em 2024, 71% das saídas de venture capital aconteceram no mercado secundário, e não em ofertas públicas.
- No Brasil, a regulação ainda é um grande entrave para a inovação nesse setor.
- Quem não se adaptar corre o risco de ficar para trás, com mais dificuldade para atrair investidores.
O modelo clássico de venture capital funciona assim: o fundo capta dinheiro de investidores, investe em startups por cerca de três anos e espera um retorno em até dez anos. Parece simples, mas na prática está cada vez mais difícil. As empresas demoram mais para vender ou abrir capital na bolsa. As janelas de venda são imprevisíveis. Os investidores querem mais controle e mais liquidez. E os próprios gestores perceberam que esse ciclo rígido de dez anos força decisões que nem sempre são as melhores para o portfólio.
A resposta veio de grandes nomes do setor. A Andreessen Horowitz se tornou uma empresa de consultoria de investimentos registrada em 2019. A Sequoia criou um fundo sem prazo para acabar, chamado evergreen. A Lightspeed fez o mesmo. A General Catalyst foi ainda mais longe: comprou um sistema de hospitais e tirou a palavra "venture" do próprio nome. Não são gestos simbólicos. São mudanças reais no modelo de negócio.
Essas empresas buscam mais liberdade para operar. A regra tradicional do venture capital nos Estados Unidos exige que mais de 80% dos ativos de cada fundo fiquem em empresas privadas. Isso impede que eles invistam em mercados secundários, criptomoedas, ações na bolsa ou façam fusões e aquisições mais complexas. Com o novo formato, essas limitações somem. O gestor pode manter os investimentos por mais tempo, resgatar investidores, usar dívidas, fazer aquisições e aumentar o dinheiro sob gestão sem ficar preso ao formato antigo.
O mercado secundário é uma das grandes novidades. Em 2024, 71% de todas as saídas de venture capital foram feitas por meio de vendas no mercado secundário, e não via oferta inicial de ações ou fusões tradicionais. Isso mostra que a liquidez nesse mercado virou regra. E quem tem a estrutura mais flexível consegue aproveitar melhor essas oportunidades.
O que isso significa para o Brasil
No Brasil, essa discussão ainda está no começo, mas não por falta de importância. Falta estrutura. O venture capital é um investimento difícil por causa dos juros altos, inflação e custo elevado do capital. Mas há um problema que pode ser resolvido: a regulação.
O formato mais comum de fundo de investimento no Brasil, chamado FIP, exige que o investidor seja qualificado e tem prazo médio de dez anos. Essas regras limitam o acesso e a flexibilidade. Juntas, criam uma estrutura que não acompanha a evolução global do setor.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) precisa agir. Não para afrouxar a proteção ao investidor, mas para permitir que o Brasil experimente modelos que já funcionam em outros países, como fundos sem data para acabar ou com mais liberdade de investimento. Um regulador que não acompanha essa evolução não protege o mercado: atrasa o seu desenvolvimento.
O risco de não se adaptar
Para os gestores brasileiros que ainda usam o modelo antigo, a pressão vai aumentar. Os investidores estão mais exigentes, o prazo para vender os negócios está mais longo e a concorrência por dinheiro qualificado é maior. Quem não conseguir gerar retorno dentro do prazo do fundo terá dificuldade para captar o próximo. No pior cenário, precisará estender os fundos ou criar fundos de continuação para não perder o portfólio.
Isso não significa que todos os gestores precisam mudar. Fundos menores, com foco bem definido e investidores alinhados, podem continuar no modelo tradicional. A transformação está acontecendo no topo, nas grandes firmas que precisam crescer e perceberam que o venture capital clássico tem um limite.
O que muda para todo o mercado é o ponto de referência. Quando as maiores empresas do mundo operam como plataformas completas, fazendo fusões, investimentos no mercado secundário, aquisições e compras de ações dentro do mesmo fundo, a definição de "fundo de venture capital" começa a não dar conta do que esses gestores realmente fazem.
O venture capital não está morrendo. Está crescendo além dos limites que ele mesmo criou.

Imagem ilustrativa sobre venture capital


