O Banco Central se reúne hoje para decidir se vai reduzir a taxa básica de juros, a Selic, de 14,5% para 14,25%. A expectativa do mercado é que haja uma queda, mas a crise no Oriente Médio pode atrapalhar novos cortes no futuro.
O Banco Central (BC) deve promover nesta quarta-feira (dia 17) o terceiro corte seguido de 0,25 ponto percentual da taxa básica, a Selic, durante a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Com isso, os juros básicos da economia brasileira devem cair de 14,5% para 14,25%.
- A reunião do Copom decide hoje se a Selic vai cair de 14,5% para 14,25%.
- Se a queda for confirmada, os juros vão voltar ao mesmo nível de 2015 e 2016, época do impeachment de Dilma Rousseff.
- A guerra no Oriente Médio e a alta dos combustíveis preocupam e podem atrapalhar novos cortes.
- A maioria das instituições financeiras (94 de 112) espera a redução de 0,25 ponto.
- Mesmo com o acordo entre EUA e Irã, especialistas acham que a inflação e a economia ainda estão complicadas.
Se a nova queda for confirmada, a Selic se igualará ao patamar praticado entre julho de 2015 e outubro de 2016, em meio à crise do impeachment da presidente Dilma Rousseff.
Mesmo com o acordo preliminar entre EUA e Irã para um novo cessar-fogo no conflito no Oriente Médio, analistas financeiros veem que o espaço para reduções adicionais da Selic está cada vez mais apertado diante de dúvidas sobre o ritmo de crescimento da economia brasileira e aumento mais generalizado da inflação.
Para a reunião desta quarta-feira, liderada pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, a expectativa majoritária do mercado financeiro é de recuo de 0,25 ponto do juro básico. De acordo com pesquisa do Valor Pro, a queda para 14,25% é aguardada por 94 instituições financeiras das 112 consultadas. Outras 18 projetam que a autoridade monetária mantenha a taxa nos níveis atuais, de 14,5%.
Última reunião
No último Copom, em abril, o BC indicou que planejava continuar o ciclo de calibração dos juros, mas sem detalhar o ritmo e a extensão de seus próximos passos. Essa cautela foi adotada pelo colegiado em virtude das incertezas em relação à guerra no Oriente Médio, que levou a um aumento significativo de combustíveis no mundo, mas também sobre a velocidade de desaceleração da atividade econômica brasileira, essencial para a tarefa do BC de colocar a inflação na meta.
Mantido o compromisso fundamental de garantia da convergência da inflação à meta dentro do horizonte relevante para a política monetária, o Comitê estabeleceu que a magnitude e a duração do ciclo de calibração serão determinadas ao longo do tempo, à medida que novas informações forem incorporadas às suas análises, disse o BC, na ata do Copom de abril.
Essa decisão é compatível com o cenário atual, no qual a duração e extensão dos conflitos geopolíticos, assim como sinais mistos sobre o ritmo de desaceleração da atividade econômica e seus efeitos sobre o nível de preços, dificultam a identificação de tendências claras, completou.
Em abril, a projeção oficial do Copom para o IPCA era de 4,6% no fim de 2026 e de 3,5% no fim de 2027. O último horizonte é o prazo com o qual o BC trabalha atualmente para colocar a inflação na meta. O alvo é de 3,0%, com nível de tolerância entre 1,5% e 4,5%.
Expectativas
Agora, a expectativa majoritária entre os analistas econômicos é de que a projeção para o fim de 2027 aumente um pouco mais, para 3,6%. A projeção do BC considera a taxa Selic do Boletim Focus, que aumentou de 13% para 13,75% no fim de 2026 entre as duas reuniões do Copom e de 11% para 12% no fim de 2026.
A expectativa de inflação da Focus, por sua vez, está muito mais distante da meta. É de 5,30% para este ano e de 4,10% para o próximo.
Acordo EUA-Irã não altera quadro, diz economista
Para o economista Leonardo França Costa, do ASA, o anúncio do acordo entre EUA e Irã não altera a expectativa para o Copom. Ele acredita que o corte desta quarta, para 14,25%, deve ser o último do ciclo.
Segundo Costa, a deterioração do cenário externo não deve se reverter tão rapidamente, dado o aumento da incerteza causado pelo conflito e a dúvida sobre a duração do próprio acordo, considerando que os anteriores tiveram pouca eficácia.
Além disso, o alívio na inflação brasileira de uma queda relevante do petróleo no mercado externo deve ser pequeno, uma vez que as medidas do governo reduziram o impacto nas bombas do salto na cotação do barril provocado pela guerra.
Ainda que se deva celebrar a possível liberação do Estreito de Ormuz, com impacto relevante para o mercado de petróleo, Petrobras e Governo (via subsídio ou desoneração de imposto) seguraram boa parte do repasse da alta do petróleo aos combustíveis, o que deixa pouco espaço para a inflação se beneficiar de eventual recuo dos preços internacionais, disse, em relatório.
Costa ainda acrescentou que a atividade econômica doméstica e o mercado de trabalho continuam aquecidos, enquanto as expectativas de inflação seguem em deterioração, pontos de preocupação para o BC:
Boa parte desses riscos já era conhecida antes da reunião, que havia optado por seguir via calibragem de juros, o que sinalizava, implicitamente, um ciclo curto de cortes. Assim, a volatilidade externa é apenas mais uma fonte de informação num cenário já turbulento.

O edifício do Banco Central, em Brasília, onde acontece a reunião do Copom. Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo



