O autor explica que o seguro paramétrico, que paga com base em índices climáticos, pode ser útil, mas não deve ser usado como solução apressada para problemas estruturais do agronegócio. Ele alerta que, sem regras claras e planejamento, a expansão desse tipo de seguro pode aumentar a vulnerabilidade dos produtores em vez de protegê-los.
A discussão sobre como unir o seguro paramétrico, o crédito rural e as políticas do governo tirou o assunto dos bastidores técnicos e o colocou no centro das conversas do agro brasileiro. Isso é bom. O Brasil precisa modernizar seu sistema de proteção contra riscos no campo e criar mais opções para um setor que sofre com mudanças climáticas frequentes.
Mas existe um erro comum quando novas tecnologias ou modelos financeiros ficam populares: achar que são a solução mágica para todos os problemas. No caso do seguro paramétrico, o perigo está em tratá-lo como uma resposta rápida para um desafio que é muito mais complexo e estrutural.
- O seguro paramétrico funciona com índices pré-definidos, como quantidade de chuva ou temperatura, e não precisa de perícia para pagar. Isso pode ser mais rápido e barato que o seguro tradicional.
- O maior risco desse seguro é o "risco de base": quando o índice usado não corresponde à perda real do produtor, gerando pagamento sem prejuízo ou prejuízo sem pagamento.
- O agronegócio brasileiro enfrenta riscos sistêmicos: uma seca ou geada pode afetar milhares de produtores ao mesmo tempo, algo que seguros simples não conseguem cobrir bem.
- O governo está testando o Zarc Níveis de Manejo, um sistema que usa dados agronômicos para dar subsídios maiores a quem adota boas práticas no solo, uma ideia mais integrada que o seguro paramétrico sozinho.
- Especialistas alertam que, sem regras estáveis e dinheiro garantido do governo, uma expansão apressada do seguro paramétrico pode quebrar a confiança dos produtores e piorar a situação.
Por que o seguro paramétrico é uma ferramenta útil, mas não é a solução final
O seguro paramétrico tem vantagens claras. Ele funciona com base em índices previamente definidos, como volume de chuva, temperatura, seca ou excesso de precipitação. Em alguns casos, também usa indicadores de produtividade de regiões inteiras. Isso permite que os pagamentos sejam feitos mais rápido e evita muitas discussões com peritos, ao contrário do seguro tradicional. Em um momento de crédito apertado, custos altos de produção e eventos climáticos extremos mais frequentes, faz sentido que esse tipo de seguro ganhe espaço na conversa sobre como proteger o bolso do produtor rural.
O problema de querer substituir em vez de complementar
O problema aparece quando o debate passa de "como complementar" para "como substituir". O risco no agro brasileiro não é comum. Ele é altamente concentrado e catastrófico. Uma seca forte no Centro-Oeste, uma geada localizada no Sul ou chuvas demais em regiões importantes não afetam apenas um produtor. Afetam ao mesmo tempo várias fazendas, operações de crédito, cadeias de fornecimento e a capacidade de pagamento de todo um setor. Isso é chamado de risco sistêmico.
A cautela necessária com modelos simplificados
É por isso que modelos simples de expansão do seguro paramétrico precisam ser tratados com cuidado, e não como atalhos. A própria nota técnica do Observatório do Crédito e Seguro Rural da FGV alerta que, se o seguro paramétrico se tornar obrigatório e ligado ao crédito subsidiado, isso seria uma mudança estrutural enorme na gestão de risco do agro. Isso teria impactos fiscais, prudenciais, concorrenciais, jurídicos, atuariais e operacionais. A nota também diz que é preciso uma transição planejada, com regras estáveis e um prazo de implementação maior do que doze meses.
O risco de base: o calcanhar de Aquiles do seguro paramétrico
Esse ponto merece atenção porque existe a tentação de ver no seguro paramétrico uma forma de aumentar a cobertura com menor custo. Mas o sucesso dele depende de a relação entre o índice usado e a perda real do produtor ser muito precisa. Quando isso falha, surge o chamado risco de base: uma situação em que o evento climático dispara o pagamento sem que haja um dano econômico proporcional, ou, pior, o produtor tem uma perda grande, mas o seguro não paga. Em larga escala, esse desalinhamento pode acabar rapidamente com a confiança do produtor, especialmente em um setor onde a previsibilidade financeira é essencial para planejar a safra.
A fragilidade do orçamento do seguro rural
Há ainda um ponto muitas vezes ignorado: a previsibilidade do dinheiro do próprio sistema. O seguro rural brasileiro já tem dificuldades para crescer de forma consistente por causa das incertezas sobre os recursos públicos de subvenção. A CNseg (Confederação Nacional das Seguradoras) revisou sua projeção para o mercado de seguro rural em 2026, passando de uma expectativa de crescimento para uma queda de 3,9%. Isso é reflexo direto da falta de dinheiro no orçamento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural. Os dados mostram também uma retração de 12,2% na arrecadação do segmento logo no início do ano, reforçando a fragilidade do atual ambiente de expansão. Se o sistema já enfrenta obstáculos para sustentar modelos consolidados, imaginar uma expansão do seguro paramétrico ligado ao crédito rural, sem garantias sólidas de financiamento e capacidade operacional, parece um exercício muito otimista.
O caminho mais inteligente: integração com dados e tecnologia
Isso não significa rejeitar a inovação. Pelo contrário. O que se desenha hoje no Brasil sugere uma direção mais sofisticada e tecnicamente consistente para a política pública do agro. O avanço do Zoneamento Agrícola de Risco Climático em Níveis de Manejo (Zarc Níveis de Manejo) mostra um caminho de maior integração entre ciência agronômica, gestão de risco e incentivos econômicos. Embora o Zarc não seja um produto paramétrico, ele aponta uma direção importante: a política pública agropecuária tende a incorporar cada vez mais dados, critérios técnicos e diferenciação de risco. O Ministério da Agricultura ampliou recentemente o programa, expandindo sua aplicação territorial e aumentando os percentuais de subvenção do seguro rural para produtores que adotam melhores práticas de manejo do solo.
A mensagem final: coordenação, previsibilidade e confiança
Nesse cenário, o seguro paramétrico faz sentido quando entendido como parte de uma infraestrutura maior de proteção, e não como um mecanismo isolado. Seu potencial é real quando conectado ao crédito rural, ao planejamento produtivo, ao resseguro, aos instrumentos de subvenção e a modelos robustos de dados climáticos e produtivos. O Brasil provavelmente seguirá nessa direção, porque o aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos reduz o espaço para modelos tradicionais operarem sozinhos. Mas a velocidade dessa transformação precisa respeitar a complexidade do problema. O debate atual é importante justamente porque desloca a discussão da tecnologia para a arquitetura institucional.
O ponto central não é saber se o seguro paramétrico é moderno ou eficiente. Em muitos casos, ele é. O ponto é entender que a política agrícola não se sustenta apenas em boas ferramentas. Sustenta-se em coordenação, previsibilidade e confiança. Sem estabilidade regulatória, governança atuarial, clareza operacional e alinhamento entre seguradoras, resseguradoras, produtores e Estado, qualquer expansão acelerada corre o risco de criar mais vulnerabilidade do que proteção. No agro, soluções rápidas costumam ser as primeiras a falhar quando o clima deixa de colaborar.
Daniel Miquelluti é cofundador e Head de Novos Mercados da Picsel.



