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29 de maio de 2026

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Citricultura gigante usa pesquisa pública moderna para crescer e gerar mais renda

Economia citricultura 29/05/2026 16:01 Alessandra Mello agfeed.com.br

A citricultura brasileira, especialmente a produção de laranja, gera 10 vezes mais renda por hectare do que a soja. O Centro de Citricultura Sylvio Moreira, em São Paulo, usa pesquisa e parcerias com empresas privadas para desenvolver novas variedades de laranja mais resistentes a doenças e ao clima. Na Expocitros, feira do setor, o centro anunciou novas mudas e um modelo de gestão que atrai recursos e prêmios.

Como diz o ditado, enquanto muitos choram, outros vendem lenços. Nos últimos anos, órgãos públicos ligados à pesquisa agropecuária têm sido assunto frequente em manchetes sobre falta de dinheiro e cortes no orçamento.

No tradicional Centro de Citricultura Sylvio Moreira (CCSM), que faz parte do Instituto Agronômico (IAC) do governo de São Paulo, a proposta é diferente.

  • A laranja gera 10 vezes mais renda por hectare do que a soja, ocupando só 600 mil hectares.
  • O Brasil é o maior exportador mundial de suco de laranja, com 85% da produção vinda de São Paulo e Minas Gerais.
  • 95% das mudas de laranja usadas no Brasil foram criadas pelo Centro de Citricultura Sylvio Moreira.
  • O centro captou R$ 36 milhões em 5 anos com parcerias privadas para novas pesquisas.
  • Uma nova variedade de laranja, a IAC Gabriela, será lançada em 2027 para ajudar contra pragas e seca.

Como a gente transforma uma instituição pública Você começa a preparar pessoas, a estabelecer métodos de gestão, estabelece os KPIs, você realiza a pesquisa e você comunica o setor sobre aquilo que você faz. Então, esses quatro eixos passam pela estruturação de uma instituição moderna, explicou o engenheiro agrônomo Dirceu Mattos Jr, diretor do Centro de Citricultura.

Números impressionantes da laranja

No início da conversa ele destaca os números da citricultura brasileira, principalmente da laranja. O Valor Bruto da Produção (VBP) do setor foi de R$ 28,5 bilhões em 2024, ficando em sexto lugar, atrás de soja, milho, café e algodão.

Mas há uma diferença importante. Enquanto a soja ocupa 48 milhões de hectares, a laranja usa apenas 600 mil hectares de cultivo. Isso significa que a laranja vale 10 vezes mais do que a soja por hectare. A cadeia completa da laranja, incluindo a indústria, movimenta US$ 15 bilhões.

A maior parte da produção brasileira de suco de laranja cerca de 85% está no chamado cinturão que envolve o interior de São Paulo e parte de Minas Gerais.

Três grandes indústrias Cutrale, Citrosuco e Louis Dreyfus (LDC) dominam esse mercado, mantendo o Brasil como maior exportador mundial de suco de laranja.

Pesquisa pública e privada de mãos dadas

Mas e a pesquisa para novas tecnologias da laranja Será que é dominada por grandes grupos privados Não necessariamente. Dedicar anos estudando uma molécula ou genes, sem saber se terá sucesso no final, é algo que as empresas preferem não fazer.

Por isso, um instituto agronômico criado por D. Pedro II (o IAC nasceu em 1892!) ainda é muito importante na geração de pesquisas e desenvolvimento de variedades para algumas culturas. Em algumas delas, como no algodão, essa pesquisa virou passado o início do plantio no Cerrado era com variedades IAC, hoje são multinacionais que dominam.

Na citricultura, a relevância do instituto paulista permanece. Em 1928 foi criada a área dedicada à citricultura, que virou o Centro Sylvio Moreira, décadas depois, com sede em Cordeirópolis (SP).

O desafio agora é manter o trabalho dos pesquisadores, que depende cada vez mais da participação do setor privado.

O CCSM já captou R$ 36 milhões nos últimos cinco anos para seus projetos de pesquisa. Mais de 30% dos recursos vêm da FUNDAG (Fundação de Apoio à Pesquisa Agrícola), que une o público e o privado.

Enquanto algumas instituições de pesquisa enfrentam queda nos recursos da FAPESP e CNPQ, Dirceu Mattos Jr garante que o Centro está mantendo um crescimento anual de 25% nas captações.

Nós não sofremos tanto com estes cortes porque a gente tem competência de propor projetos com envergadura de resultados e esses projetos têm sido aprovados, afirmou.

No ano passado, o orçamento com origem no setor privado foi de R$ 9 milhões no CCSM. Em 2026, espera mais um avanço de 25%. Já para 2027, o crescimento pode ficar entre 15% e 20%.

A nossa visão é de uma instituição pública moderna. Organizações públicas não têm que ser ineficientes.

A estimativa é de que 95% das variedades cítricas hoje usadas no Brasil tenham sido desenvolvidas pelo Centro de Cordeirópolis.

Pesquisas atuais e futuro

Entre os destaques das pesquisas atuais estão projetos que envolvem Inteligência Artificial, resiliência climática e soluções para as principais pragas e doenças da citricultura, como o greening, que vem dizimando a produção mundial.

As três grandes exportadoras de suco, segundo Mattos Jr, hoje são responsáveis por cerca de 50% da área de laranja no País. Por isso, também apoiam ou demandam pesquisas do IAC.

Ainda que nós tenhamos um setor centralizado, diferente de outros, que tem muitos players, a demanda por material genético, como é de longo prazo, acaba sendo atribuída ao nosso trabalho. Assim como outras estratégias que a gente começa a criar a competência e se tornar especialista num determinado assunto que a nossa visão antecipa algumas questões que são de uso deles (tradings). Então, a gente se torna um vínculo de consumidor e fornecedor, disse.

Ele pondera que há pesquisas espontâneas, onde o pesquisador leva a descoberta para os elos da cadeia, e também as induzidas, quando empresas ou produtores pedem ajuda para resolver um problema.

Os grandes desafios hoje, como estresse por clima, o desafio fitossanitário, eles são grandes demandadores dessas soluções. Eles (os players) estão buscando novas variedades tolerantes à doença, mais resistentes ao estresse do clima, que tenham mais qualidade de fruta.

O orçamento público ainda domina o pagamento dos colaboradores do Centro de Citricultura. São atualmente 12 pesquisadores (já foram 16), 15 servidores e 75 bolsistas.

O sucesso da Expocitros

Mais de 10 mil pessoas passaram pela pequena cidade de Cordeirópolis ao longo desta semana. O objetivo era visitar a 51ª edição da Expocitros, evento promovido pelo Centro de Citricultura.

Entre os 87 expositores estavam grandes multinacionais dos setores de fertilizantes, defensivos químicos e biológicos, além de máquinas agrícolas apropriadas para citricultores.

Trata-se de uma ação que aproxima o instituto público das empresas privadas e ajuda a garantir o sustento do presente e os projetos futuros de Dirceu Mattos Jr e sua equipe.

Nós saímos de um número lá de 6 mil visitantes e fomos para 12 mil no ano passado. Foi um salto imenso. Melhoramos a participação dos expositores e tivemos 85% de fidelidade, disse o diretor.

Em parte, o sucesso foi impulsionado pela alta expressiva nos preços da laranja até meados de 2025.

A caixa de laranja chegou a valer R$ 110 e hoje está em R$ 25. Isso fez praticamente dobrar a demanda, que chegou a 20 milhões de mudas no mundo, segundo ele.

Um dos destaques da Expocitros deste ano foi a presença da Secretaria de Agricultura de Mato Grosso do Sul. Grandes empresas do setor vêm fazendo investimentos no estado, buscando alternativas em regiões menos afetadas pelo greening.

Dirceu Mattos Jr acredita que a expansão para outros estados também abrirá oportunidades para o Centro de Citricultura, que detém um banco de germoplasma com 1.800 espécies e variedades de citros.

Nos últimos cinco anos, foram lançadas 24 novas copas e 15 novos porta-enxertos pelo CCSM/IAC. Entre os destaques estão aqueles tolerantes à seca. Houve um ganho de 40% na produtividade e uma economia de 20% no consumo de água, segundo o diretor.

Para 2027, está previsto o lançamento de uma nova variedade chamada de IAC Gabriela, que está em fase de registro no Ministério da Agricultura.

O Centro de Citricultura Sylvio Moreira poderá um dia se transformar no CTC da laranja O diretor acredita que é um cenário um tanto remoto, mas não impossível. Na cana, o centro de desenvolvimento de variedades acabou se transformando numa empresa.

Dirceu Mattos Jr diz que tudo vai depender do amadurecimento da instituição, que depende da própria cultura interna.

A gente olha desenvolvimento de pessoas e cultura organizacional, preparando esse time para ter uma governança e estrutura institucional e para cumprir com a nossa missão, que é a pesquisa, acrescentou.

O trabalho já gerou frutos. O Centro alcançou uma premiação da FAO em 2025, pelo desenvolvimento de variedades na adaptação climática, e possui certificações internacionais ligadas à qualidade e sustentabilidade.

Roberto Rodrigues homenageado

Uma curiosidade sobre o Centro de Citricultura é que o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, nasceu em Cordeirópolis, na mesma área onde hoje é realizada a Expocitros.

Rodrigues, atualmente professor emérito da Fundação Getúlio Vargas, foi homenageado na 51ª edição da feira. Ele recebeu a Medalha de Mérito Científico Dom Pedro II e defendeu mais investimentos em pesquisa.

É lamentável que os governos e, de certa forma, a sociedade brasileira, não contemplem a ciência e a tecnologia, que é uma plataforma central para o futuro do País, disse ele.

Ele concordou que uma das saídas será a maior participação do setor privado e lembrou a iniciativa liderada por ele da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) para criação de um fundo de R$ 100 milhões para financiar pesquisas na agropecuária.

Devemos inaugurar (o fundo) agora junho ou julho, eu vou coordenar. Então a ideia é colocar 100 milhões de reais por ano em pesquisa, não é no instituto, não é na instituição, é na pesquisa, no trabalho do pesquisador mesmo, ressaltou.