26 de maio de 2026

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Ricardo Mussa agora investe em biometano e biofertilizantes na Flying Rivers

Economia Investimentos 26/05/2026 09:39 Italo Bertão Filho agfeed.com.br

Ricardo Mussa, que foi chefe da Raízen, virou sócio de uma empresa que investe em projetos que ajudam o meio ambiente. Ele está procurando novos negócios na área de energia limpa e adubos naturais, focando no agronegócio. A empresa dele, a Flying Rivers, quer levantar muito dinheiro para aplicar nesses projetos.

Depois de passar todo o ano de 2025 viajando por diferentes países como uma espécie de 'embaixador' da iniciativa privada na COP 30, levando a agenda da sustentabilidade adiante na posição de chair da SB COP, iniciativa da CNI para levar as posições do setor empresarial à conferência do clima da ONU, Ricardo Mussa está de crachá novo.

O executivo, que comandou a Raízen entre 2020 e 2024 antes de assumir a função na SB COP, tornou-se recentemente sócio da gestora Flying Rivers Capital, fundada por Luciana Antonini Ribeiro.

  • O que é biometano É um gás produzido a partir de restos de plantas e animais, que pode ser usado como combustível no lugar do gás natural, poluindo menos.
  • O que são biofertilizantes São adubos feitos de matéria orgânica, como esterco e restos de plantas, que ajudam a alimentar o solo sem usar produtos químicos.
  • Quem é Ricardo Mussa Ele foi o presidente da Raízen, uma das maiores empresas de energia do Brasil, e agora trabalha com investimentos que ajudam o meio ambiente.
  • O que é a Flying Rivers É uma empresa que junta dinheiro de investidores para aplicar em negócios que combatem as mudanças climáticas, como energia limpa e agricultura sustentável.
  • Quanto dinheiro está em jogo A Flying Rivers já tem R$ 1 bilhão para investir e está atrás de mais R$ 1,7 bilhão para novos projetos.

Lançada no ano passado, a casa tem foco em investimentos em descarbonização e soluções climáticas e é um spin-off da eB Capital, gestora de Eduardo Sirotsky Melzer, o Duda Melzer, absorvendo investimentos da vertical de clima da eB.

O Novo Trabalho de Mussa

A nova fase também marca a retomada mais frequente do executivo em eventos relacionados a investidores, algo comum em seus tempos de Raízen. Na semana passada, por exemplo, o executivo foi um dos principais nomes a participar do Converge Capital Conference, parte da programação da Brazil Climate Investment Week, evento voltado aos principais nomes do mercado de capitais ligados à agenda ESG.

No palco, Mussa ainda preferiu dar foco às suas percepções sobre o momento pós-COP 30 e suas perspectivas em relação à sustentabilidade e transição energética. Nos bastidores, porém, o executivo conversou com o AgFeed sobre o novo momento da carreira e os planos na gestora.

'Chego com a missão de fazer a gestão dos ativos e trazer um pipeline novo para investimentos. Nosso foco é ter bons projetos para investir', resume Mussa, que se diz animado com a nova posição.

O executivo conta que, antes mesmo de se tornar sócio da gestora, já integrava o conselho da Flying Rivers e contribuía ativamente para a estratégia da casa. Agora, ao lado de Luciana Antonini Ribeiro na sociedade, afirma conseguir reunir 'o melhor dos dois mundos'.

'A Lu é do mercado financeiro, eu sou da operação. A gente conseguiu formar uma dupla muito legal e o time é forte. Acho que estou no lugar certo', diz.

Os Investimentos da Flying Rivers

Por ser um spin-off da divisão de clima da eB Capital, que já tinha lançado um fundo chamado Climate Fund I que foi absorvido pela nova casa, a Flying Rivers nasceu grande, com R$ 1 bilhão de ativos sob gestão. Ao todo, são quatro investidas. Entre elas, estão empresas como Cirklo, empresa de reciclagem de PET, Bioo, plataforma pioneira na geração de biometano a partir de resíduos agroindustriais, e Blue Health, que atua na área de locação, manutenção e distribuição de equipamentos médicos.

Agora, a casa está captando seu segundo veículo, um Fundo de Investimento em Participações (FIP), que já garantiu um compromisso de R$ 500 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), após ser selecionado em uma chamada pública voltada a investimentos climáticos. A expectativa, no entanto, é levantar um volume ainda maior. O fundo tem a meta de captar até US$ 350 milhões (R$ 1,7 bilhão, no câmbio do dia), de acordo com Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para a Transformação Ecológica - BIP, do governo federal. 'Estamos finalizando a parte regulatória do BNDES e captando mais recursos', diz Mussa.

A ideia da Flying Rivers é concluir a captação do fundo entre o fim de 2026 e o início de 2027, diz Mussa. Antes disso, porém, ele diz que a gestora pretende começar a anunciar os primeiros investimentos do veículo nos próximos meses, mesmo com o novo fundo em captação. 'Devemos fazer os primeiros anúncios já por volta de julho', afirma.

Foco no Agronegócio

A Flying trabalha com três teses de investimento: transição energética, com foco em biocombustíveis, segurança alimentar e minerais críticos. O agronegócio, naturalmente, aparece no centro dessa estratégia. Na avaliação de Mussa, o atual ciclo de baixa vivido pelo setor abre espaço para aquisições em ativos maduros, em um momento considerado oportuno para entrada de capital.

'A agricultura está num ciclo mais pressionado, mas os fundamentos continuam muito fortes e, com isso, o setor ganha uma prioridade maior pra gente', avalia Mussa. 'É o momento de aproveitar, pois existem bons ativos no mercado e os juros estão altos - a gente não acredita que isso vai perdurar muito tempo.'

Hoje a preferência da Flying Rivers, segundo ele, é por operações menos dependentes de projetos greenfield, aqueles que começam do zero. A investida Bioo, por exemplo, é um caso de projeto greenfield que já exigiu investimentos de mais de R$ 200 milhões somente para a instalação de uma planta produtora de biometano em Triunfo (RS), que entrou recentemente em operação. Por isso, a ideia de Mussa é abraçar empresas que já tenham escala operacional ou estejam próximas de uma fase de consolidação.

É nessa lógica que entram segmentos como biometano e biofertilizantes, duas apostas que ganharam espaço no pipeline da gestora.

Biometano: Uma Nova Aposta

No caso do biometano, Mussa vê paralelos com o biodiesel, setor que acompanha desde os tempos de Cosan e que agora lamenta não ter dado tanta atenção no passado. 'Na minha vida pregressa, eu olhava para o biodiesel e não acreditava muito. Me arrependi muito', afirma, pesaroso. Para Mussa, o paralelo entre biodiesel e biometano está na previsibilidade regulatória.

Isso porque a lei do Combustível do Futuro prevê o avanço gradual da mistura de biometano ao gás natural já a partir deste ano, iniciando em 0,5%, como forma de reduzir as emissões de CO2. Situação parecida viveu o mercado de biodiesel a partir de 2005, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ainda em seu primeiro mandato, sancionou uma lei que previa adição obrigatória de 5% de biodiesel no diesel e que fomentou, a partir de então, esse mercado.

'O que a gente gosta no biometano é que existe um mandato claro de crescimento. É parecido com o biodiesel: não depende tanto de prêmio verde, mas de uma política estruturada para expansão do mercado', diz Mussa. Além disso, Mussa atenta para o fato de que, no biometano, o Brasil reúne vantagens competitivas naturais para que o mercado avance, especialmente pela disponibilidade de resíduos agroindustriais.

'Obviamente que tem uma dificuldade maior, porque o biometano viaja menos do que um combustível líquido, tem que escolher bem a localização da usina. Mas é uma indústria que tem vantagens competitivas claras para o Brasil continuar crescendo. Vamos continuar olhando com carinho para esse tema', diz.

Biofertilizantes: O Futuro da Agricultura

Nos biofertilizantes, o racional é parecido. Mussa acredita que o tema ganhará caráter cada vez mais estratégico para o País, independentemente de quem esteja no comando do governo federal. 'É muito difícil imaginar qualquer governo olhando para fertilizantes e não tratando isso como uma questão estratégica', diz. 'Os agricultores estão buscando alternativas competitivas, especialmente em biofertilizantes, e já existem empresas entrando numa fase de consolidação.'

O desafio nos biofertilizantes, na avaliação de Mussa, é encontrar projetos já mais maduros. 'A gente não quer ter tanto projeto em greenfield porque tem um risco associado muito maior. Não posso abrir muito, mas os biofertilizantes estão no meu pipeline', diz.

De certa forma, a entrada na Flying Rivers mantém Mussa na mesma trilha que ele já vinha desenhando desde os tempos de Raízen, com foco em transição energética e sustentabilidade. À frente da companhia sucroenergética, o executivo foi um dos principais defensores - e impulsionadores - de que a empresa investisse na produção de etanol de segunda geração (E2G), tecnologia tida como peça-chave para a descarbonização do setor de transportes, por ter uma pegada de carbono cerca de 30% menor que a do etanol de primeira geração e até 80% inferior à de combustíveis fósseis.

Mussa pretendia implantar 20 usinas produtoras de E2G na Raízen até 2030, que custariam pelo menos R$ 25 bilhões à companhia que tem Cosan e Shell como acionistas. No entanto, somente uma dessas plantas saiu do papel e entrou efetivamente em operação. O projeto acabou sendo congelado pela nova gestão da Raízen, que passou a focar na redução de endividamento da companhia, hoje em recuperação extrajudicial.