21 de maio de 2026

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Lula acelera novas medidas para ajudar a economia antes das eleições

Economia Eleição 21/05/2026 08:49 Bernardo Lima e Thaís Barcellos extra.globo.com

Faltando menos de cinco meses para as eleições, o governo do presidente Lula está criando novas medidas de ajuda para pessoas de baixa renda e da classe média a cada 3,5 dias. Especialistas alertam que esses estímulos podem aumentar a inflação e a dívida pública, dificultando a queda dos juros. O impacto total dessas ações pode chegar a R$ 188,7 bilhões na economia do país.

Faltando menos de cinco meses para o primeiro turno das eleições presidenciais, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva está acelerando a criação de medidas para ajudar a população de baixa renda e a classe média. Desde o fim de março, com o aumento da guerra no Oriente Médio e a chegada das eleições de outubro, o governo lançou novas ações a cada 3,5 dias, em média.

  • O governo lançou 15 medidas em menos de dois meses, uma a cada 3,5 dias
  • O impacto total pode chegar a R$ 188,7 bilhões, segundo a XP Investimentos
  • As medidas podem aumentar a dívida pública em 0,7 ponto percentual
  • O governo quer melhorar a economia para ganhar popularidade antes das eleições
  • Especialistas alertam que os estímulos podem elevar a inflação e os juros

Cálculos da XP Investimentos mostram que parte dessas propostas pode ter um impacto de até 1,4 ponto percentual do PIB do Brasil neste ano, o que equivale a R$ 188,7 bilhões.

O governo tem medo de a economia desacelerar. O Ministério da Fazenda defende as propostas e diz que os efeitos das medidas devem aparecer aos poucos ao longo do ano, com mais força no quarto trimestre, quando a queda dos juros começar a chegar ao crédito.

A conta da XP é ampla e inclui estímulos à economia anunciados nos últimos meses, como crédito, subsídios e medidas de renda. O impacto fiscal é diferente, porque parte das ações é voltada ao crédito.

Impacto na dívida pública

Os subsídios para combustíveis anunciados pelo governo para reduzir os efeitos da guerra no Irã não foram incluídos no cálculo, pois não teriam impacto na atividade.

O anúncio do primeiro subsídio para o diesel, em 30 de março, marcou o início de uma série de medidas de estímulo. Desde então, o governo lançou 15 ações, com uma média de um anúncio a cada 3,5 dias.

Essa sequência de lançamentos acontece porque o governo quer transformar o bom desempenho da economia em mais popularidade. Uma grande preocupação é o endividamento das famílias, que está em níveis recordes em 2026. É por isso que foram criadas medidas como o Desenrola 2.0, para renegociar dívidas.

Segundo o economista Rodolfo Margato, responsável pelo estudo, a expectativa é que grande parte desse efeito se transforme em consumo e investimento, algo em torno de 1 ponto percentual.

O principal impulso vem da ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, com ganho parcial para rendas de até R$ 7.350. O crédito subsidiado para motoristas de aplicativo e taxistas comprarem carros, chamado de Move Brasil, é a medida mais recente.

O impacto das medidas foi calculado já considerando a execução de cada programa, exceto a linha de financiamento de R$ 30 bilhões para motoristas, lançada na terça-feira.

Esse impulso sustenta a projeção da XP de crescimento do PIB de 2% neste ano, que pode até ser revisada para cima, já que há outros planos na mesa do governo, como um novo programa de renegociação de dívidas e um estímulo à construção civil.

Esse "risco de alta" na projeção por causa do pacote de estímulo ocorre mesmo com os efeitos negativos da guerra no Oriente Médio, que aumenta a inflação e reduz o alívio nos juros.

Se não fosse o mercado de trabalho forte e essas iniciativas, provavelmente estaríamos falando de um crescimento do PIB perto de 1% em 2026, e não na casa de 2%, disse Margato.

IFI: impacto de R$ 295 bilhões

Em um cálculo mais amplo, que inclui subsídios e crédito para motoristas, a Instituição Fiscal Independente (IFI) projeta um impacto de até R$ 295,29 bilhões. O diretor do IFI, Alexandre Andrade, diz que, mesmo que a maior parte das ações não tenha impacto direto nas contas públicas, pode afetar a dívida bruta, por envolver despesas financeiras.

O aporte em fundos garantidores, por exemplo, constitui uma despesa primária. Em caso de inadimplência, o impacto fiscal pode ser maior, pois pode exigir novos aportes nos fundos, ressaltou.

O economista Tiago Sbardelotto, da XP, afirma que o potencial de elevar a dívida pública este ano é de 0,7 ponto percentual. A instituição espera que 2026 termine com o endividamento em 83,4% do PIB, contra 78,6% no ano anterior, mas a projeção deve ser revisada para algo próximo de 84%.

Mais duas ações previstas

Com o financiamento para carros, o BNDES já opera medidas recentes de crédito que somam R$ 62,5 bilhões em recursos do Tesouro Nacional neste ano eleitoral.

Quando um banco de desenvolvimento investe em algo que é consumo rápido, para gerar mais dinamismo na economia, isso já parece um pouco equivocado, disse Rodolpho Sartori, da Austin Rating.

O economista Vitor Vidal vê efeito limitado das medidas anunciadas sobre a atividade econômica. Ele estima que o crescimento do PIB do primeiro trimestre, bastante impulsionado pelo agronegócio, deve decepcionar e ficar em 0,7%, contra 1% previsto pelo governo.

Se isso acontecer mesmo, deveremos ter mais pressão para novas medidas.