O uso de defensivos agrícolas nas lavouras brasileiras aumentou 7,6% em 2025, chegando a 2,6 bilhões de hectares. O gasto dos produtores foi de US$ 20,1 bilhões. Mas a guerra no Irã e o aumento dos fertilizantes podem encarecer a próxima safra, gerando incertezas para os agricultores.
Um levantamento realizado pela Kynetec Brasil, a pedido do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Vegetal (Sindiveg), mostrou que o uso de defensivos agrícolas nas lavouras brasileiras cresceu 7,6% em sua Área Potencial Tratada (PAT) em 2025, totalizando mais de 2,6 bilhões de hectares protegidos.
O número, que considera a soma das aplicações feitas com fungicidas, herbicidas, inseticidas e outros produtos na mesma área, cresceu mais do que a área em si, mostrando a pressão das pragas na lavoura. Em montantes financeiros pagos pelo produtor, foram US$ 20,1 bilhões, alta marginal de 0,7% em relação a 2024.
- A área tratada com defensivos no Brasil cresceu 7,5% em 2025, atingindo 2,6 bilhões de hectares.
- Soja foi a cultura que mais usou defensivos, respondendo por 55% das aplicações.
- Guerra no Irã fez preço de pelo menos 30 defensivos subir de 20% a 40%.
- Inadimplência dos agricultores está duas vezes maior que no ano passado.
- Sindiveg teme que custos mais altos dificultem o plantio da próxima safra.
Porém, não há tempo de comemorar. O ano de 2026 - em especial a safra 2026/2027 - será, na visão do Sindiveg, mais desafiador e coloca uma incógnita no comportamento do produtor em relação aos insumos.
Na visão de Julio Borges, vice-presidente da entidade, tanto os fertilizantes quanto os defensivos devem pesar mais na conta dos produtores para a próxima safra.
"Vocês não tem ideia do que vai ser o custo do produtor na próxima safra em relação aos fertilizantes. Não é nossa área, mas está interligado. Em alguns casos os produtos triplicaram de preço e isso será um problema sério para o produtor, que ainda tem a dificuldade de financiamento para tudo isso", disse o executivo, que também é membro do conselho de administração da Ihara no Brasil, para alguns jornalistas em coletiva na sede da entidade, em São Paulo, nesta sexta-feira, 15 de maio.
Nos defensivos, Borges cita que, após a eclosão da guerra no Irã, pelo menos 30 ativos já subiram de 20% a 40% no preço. "Ainda não há problema de disponibilidade, mas sim um impacto de custo imediato. Primeiro pelo frete marítimo e depois pelo preço do petróleo que impacta a cadeia de qualquer químico, seja pela energia quanto pelos derivados", disse.
Ele cita o glifosato (e os herbicidas como um todo) como uma classe de produtos que aumentou de preço nas últimas semanas, além dos derivados do fósforo. "Na pandemia o preço do glifosato foi para patamares muito acima da média histórica. Recuou muito e agora há esse movimento de alta, por ser a principal molécula em volume e pela logística.
Esse aumento, contudo, não significa mais margens para as indústrias. Borges cita que o primeiro trimestre deste ano das companhias de agroquímicos foi, no geral, pior do que o mesmo período do ano anterior. Além da guerra, o vice-presidente do Sindiveg cita o avanço das RJs no campo, o preço das commodities - em especial grãos - baixos e os juros altos.
Ele calcula, por uma percepção própria do setor, que tradicionalmente também é um agente financiador dos produtores, que a inadimplência está duas vezes maior agora do que estava há um ano.
A coletiva foi feita em meio a um novo momento no Sindiveg. Comemorando 85 anos de existência, a entidade recém-empossou sua nova diretoria. Além de Júlio Borges como vice-presidente, a chapa conta com Antonio Mauricio Haddad Marques, da Bequisa, como presidente para o mandato até 2029.
Segundo Marques, para além da dificulade momentânea com a guerra, outra missão da nova diretoria é atuar para agilizar a regulamentação da lei de bioinsumos.
Segundo ele, a lei é satisfatória, mas cita que a regulamentação já era para estar num grau mais avançado de discussão. "O tema central é previsibilidade. O tempo de registro dos produtos no Brasil é muito maior que em outros países, e a lei traz mais clareza e normatização frente a Europa e EUA. Mas o Ministério não consegue ter a liderança e autoridade que deveria para coordenar esse processo", disse.
Além disso, o ano eleitoral acaba atrapalhando o andamento da discussão. "Os defensivos sempre foram tratados com preconceito e pouco pragmatismo. As vezes vira alvo só por disputa política, sem tratamento adequado de agenda de país", acrescentou.
Como foi 2025 nos números
Destrinchando os números de 2025 no setor, grande parte dos 2,6 bilhões de hectares de PAT - 55% do total - corresponde aos tratamentos na soja, com pouco mais de 1,46 bilhão de hectares.
Na sequência vem o milho com 18% (478 milhões de hectares), algodão com 7%, pastagem com 5%, algodão com 4% e outras culturas como HF, café, citros, feijão, trigo e arroz se destacando nas demais porcentagens.
A proporção em valor de mercado é similar. A soja corresponde a 51%, cerca de US$ 10,2 bilhões e o milho com 15% (US$ 3 bilhões). Contudo, o estudo mapeou que houve avanço só na soja em valor desembolsado pelos produtores, considerando só as grandes culturas.
A oleaginosa teve alta de 4,7% no investimento, enquanto milho, algodão e cana tiveram baixas de 5,2%, 4,1% e 4%, respectivamente, de acordo com a Kynetec.
Júlio Borges, do Sindiveg, destaca que apesar do aumento de 7,5% do PAT, o volume médio de aplicação também subiu, mesmo que menos percentualmente: 6,5%, chegando em 1,79 milhão de toneladas.
"Aumentou o uso de produtos muito por conta de uma perca de eficácia de algumas moléculas. Mas a diferença também tem a ver com dose: produtos modernos tem quantidades aplicadas menores por hectare, sem contar o uso de outras tecnologias, maquinários, mais fertilizantes e biológicos", disse.
O curioso, segundo ele, é que houve queda de 3,7% no câmbio e de 3% no preço, o que mostra que o agricultor pagou menos pelos produtos, na média. Isso tudo em meio a uma safra que contou com um clima mais previsível e que foi novamente recorde, ele relembra.
Segundo o agrônomo e especialista em pesquisas da Kynetec, Cristiano Limberger, o mercado brasileiro se dividiu, considerando o volume, principalmente em herbicidas (46%), inseticidas (23%) e fungicidas (também 23%). O restante (8%) está diluído em outras categorias, assim como tratamento de sementes (1%).
Olhando em área, o percentual muda. Os inseticidas foram aplicados em 30% de todo PAT - 813 milhões de hectares -, enquanto os herbicidas somam 22% com 600 milhões de hectares e os fungicidas com 18%, equivalente a 478 milhões de hectares.
Regionalmente, a soma do Mato Grosso e Rondônia foi responsável por 33% do potencial de área tratada, ou cerca de 872 milhões de hectares. Na sequência estavam Matopiba e Pará com 18%, São Paulo e Minas Gerais com 13% e Rio Grande do Sul e Santa Catarina com 11%.

Área tratada com defensivos cresceu 7,5% no Brasil em 2025, estima Sindiveg. Para 2026 sobram incertezas


